REDENÇÃO – 1. Sobre todas as coisas que eu…

REDENÇÃO

1 – SOBRE TODAS AS COISAS QUE EU…

            Eu não quero lembrar-me de ti e é só a tua imagem que se constrói em meus pensamentos. Deveria haver apenas boas lembranças tuas, mas são as amargas que me conduzem a permanecer deitado nesta cama, sem saber como agir e ecoam as palavras em minha cabeça: EU NÃO QUERO LEMBRAR, e é como se o filme se rebobinasse o tempo todo e eu sempre sentindo seu último hálito quente em meu ouvido e seus lábios me beijando o rosto, enquanto eu pedia para que não fosses embora. Tu me deixaste teu cheiro de menina e esse vocabulário insistente de querer parecer poético num momento de quase insanidade. A noite caminhava perfeita demais entre nossos beijos demorados e eu te prendendo em mim numa última noite de mancebos transpirando boas emoções. E agora a melancolia do quarto escuro, calça jeans, pés descalços e essa cama que já não lhe tem ao meu lado. As letras tatuadas próximas ao tornozelo esquerdo são nossas iniciais, que por mim teria tatuado num lugar mais à mostra, todavia considerei tua sugestão de que só interessaria a nós mesmos nossa própria história, que só ficassem visíveis em nossos momentos.

NÃO QUERO LEMBRAR

            O celular toca insistentemente, mas não é nenhuma chamada tua. É só a hora de tomar mais uma dose do remédio que fica à beira da cama, no criado-mudo, controlando meu humor, digo, minhas alterações de humor. E agora não me dá ânimo esticar o braço e apertar um botão para acabar com esse alarme insistente, mas não devo acordar os vizinhos tão cedo num fim de semana. Certo, esticar o braço e parar com esse barulho num simples toque de botão. Mas sem remédio por hoje. Não quero que meu rosto se seque tão facilmente, quando a chuva lá fora colabora para que seja natural meus olhos estarem úmidos e ter a ti como imagem em meu pensamento. Foi mais uma noite em que pedi desculpas e lhe dei minhas manifestações de carinho. E dessa vez tive de ouvir um “Não posso mais”, e receber um beijo no rosto em seu adeus. Verdade que ainda custei a acreditar que se fosses assim e demorei a levantar da cama, vestir este jeans e ir atrás de ti, tê-la em desconforto em meus braços rejeitando meus afagos, somente dizendo:

            – Não posso mais.

            E depois:

            – Não se esqueça – colocando em minha boca o comprimido que engoli em seco enquanto de meus olhos já vertiam água suja de lamento.

            Silêncio.

            Não me olhei no espelho, já que não consigo levantar-me daqui, mas sei estar de olhos inchados e sem coragem de refletir.  Não tens culpa de ser assim, só não sei se a tenho eu. Talvez eu seja egoísta demais ou não consiga discernir o certo e o errado nesse estado de embriaguez onírica. Sim, é desse jeito que eu gosto de chamar: embriaguez onírica, porque pode não ser real, só que me dói à cabeça de um jeito que me afasta a possibilidade de um sonho. De olhos fechados ainda posso considerar a ilusão de que está comigo e que vou lhe tampar os ouvidos após o próximo raio que refletir na janela do quarto para que não ouças o estampido do trovão. Eu te olho nos olhos, tu afastas meu cabelo do rosto e confias. A chuva vai passar e não terás medo de mais nada.

            “Eu não quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar”.

(Continua)

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