REDENÇÃO – 4. Desde quando você se foi

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4 – DESDE QUANDO VOCÊ SE FOI

            Não me esperem ser racional, pois talvez isso eu tenha perdido assim que te conheci. Imagens de algo recente, aquela noite antes de partir, remetem ao tempo em que não fazia diferença ter chocolate ou cereja para a distração entre um e outro vídeo na TV. Parecer confuso é o que menos deveria ser, mas essa embriaguez onírica nem sempre me dá os melhores sentidos e desse modo, não há organização suficiente para um vocabulário mais rico.

            Eu diria me olhando no espelho que não sobram indícios e que amanhã mesmo volto à academia, viajo a praia no fim de semana e volto todos os dias só de madrugada, esticando numa balada qualquer. Afinal, aquilo não era amor. Falácias.

            Até quando eu vou ter que mentir para mim mesmo e insistir em dizer que nunca senti nada por ti para que meu dia seja melhor e as horas passem naturalmente? Eu nunca quis que fosse assim. Era impossível que em nossos momentos intensos eu pensasse que um dia usaria somente as conjugações do pretérito ao me reportar a alguma idéia de felicidade. Nunca estaria aqui apelando a qualquer convergência de energias que te façam voltar. Meu orgulho é muito grande ou me faltam os motivos para compreender o que de tão errado eu fiz. Superproteção? Eu sempre quis que estivesse bem. Meu humor em descompasso? Talvez seja melhor eu tomar meu… Não. Um copo d’água e eu agüento.

            Pensar em nós dois é a imagem mais apropriada para qualquer porta-retrato à beira da mesa da sala de estar. É lembrar que me dizias que eu fazia declarações demais e que isso às vezes poderia ser falta de assunto, dizer este seguido de um leve riso e um indicador coçando a ponta de meu nariz. E eu que era piegas? Não era falta de assunto minha, era sua presença preenchendo todo espaço. Um saco de pipocas de microondas, um filme qualquer, minhas declarações, seu riso, o coçar o nariz, meu breve espaço de felicidade. E depois, adormecer ao som da TV ligada e recomeçar tudo de novo o fim de semana inteiro, entre demonstrações mais de carinho. Sem computador, sem mundo lá fora, só você e eu. Penso estar de algum modo amadurecendo, se divagar faz parte do amadurecer.

(…)

            Procurando o seu número na lista do celular, como se eu não soubesse de cor e precisasse disso. Uma alternativa para ver mais uma vez sua imagem no cristal líquido e seu nome inteiro, mais que a inicial próxima a meu tornozelo esquerdo. Ligar, ligar… Não, eu não sei mais dizer palavras de amor. Se eu soubesse, eu tentaria. Meus olhos voltando a pesar. Melhor deixar o celular de lado.

            Quem sabe pizza frita seja uma opção para a noite? Não, ainda não fui às compras. E acabaram-se as bolachas de cereja. Melhor eu tomar meu remédio e conseguir dormir.

            “Você diz que é só de amor que eu sei falar. Mal sabes que, se eu soubesse eu tentaria te ligar.”

 

(Continua)

 

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REDENÇÃO – 3. Contas vencidas

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3 – CONTAS VENCIDAS

            E você dizendo “Não posso mais”. Foi assim que me pus sentado de súbito à cama, quando o som de sua voz dentro de meus sonhos, ecoando em minha cabeça, me pareceu real. Mas não. Havia adormecido mais por fisiologismo que por vontade real, cedendo às vontades desse corpo que não sei se domino mais e por essa alma que voa longe sem sair do lugar, tachando mais que um clichê.

            O fato é que ficar deitado nessa cama não se manteve como minha opção primordial no intento em me esquecer do que aconteceu. A ducha gelada tirou de vez o meu sono e a fome veio, assim, sem qualquer explicação. No armário, poucas das suas bolachas de cereja e metade do iogurte na porta da geladeira, saciaram-me por algumas horas. Então, notei que deverei aprender a fazer compras e saber se prefiro cereja ou se volto ao chocolate. Meus olhos ainda pesam e insisto em não deixá-los se romper ao medo.

          Pouco depois da camiseta limpa, o jeans tirado do armário, o desjejum frugal, atualizar uns e-mails e saber o que o mundo me reserva lá fora e o que de notícia já se passou. O mundo não mudou muito sem mim e talvez eu também não sem ele. A rinite voltando a incomodar, a vontade de chocolate reavivando-se na mente. Uma leve olhada à bomboniere vazia ao lado do porta-retrato emoldurando o casal à mesa ao lado do telefone da sala…Cartas acumulando-se em cima da mesa e os jornais da semana sem recolher do canto da sala, o que não seria assim sem você. Nada estaria fora de lugar. E não falo só de coisas.

          É certo que nossas notícias passadas reportam ao tempo em que fomos felizes, em que o ápice do dia era voltar para casa e te ver, saber voltar e te ver. Saber que estarias ali me esperando e reforçando o que eu nunca quis que tivesse um fim e que eu não posso aceitar. Poderia divagar em aliterações, repetindo-me em elogios adicionais a ti, mas não. Ainda me falta modéstia e sobram orgulho e melancolia. Fato. Não pude perceber que ia te perdendo e que meus sorrisos esmaeciam pouco a pouco.

          Minhas reverberações são contas vencidas que talvez exijam mais que um “não me deixe só” que adorava ouvir entre teus lábios despedindo-se pelas manhãs. Resistir a “até logos” é humanamente aceitável, mas não dizer adeus. É exigir demais a um mancebo que tenta parafrasear poetas e que deixa seu alter – ego quase prevalecer no mundo real. E isso não se trata de uma hipérbole. Não penses que o que digo não seja real.

          Algum chocolate no criado mudo do quarto? Não. Um meio pacote de bolachas de cereja, entre meias limpas e algo mais.

          “Ter você era o que eu mais queria, mas o que eu mais fazia era tentar fugir de ti.”

(Continua)

REDENÇÃO – 2. Uma música

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2 – UMA MÚSICA

            A chuva está um pouco mais branda e os trovões nem foram tantos para que houvesse medo. Eu consegui me sentar à cama e secar um pouco os olhos, ainda que os sinta um tanto pesados entre um a piscada e outra. Dessa vez não tive inspiração para recriar quaisquer personagens que fossem nas sombras formadas no teto com a pouca luz que vem da janela. Talvez porque não haja para quem rir ou porque minha cabeça continue a doer.

(…)

            Amanheceu e só agora me dei conta. Meu corpo ficou pesado demais e tive de me recostar à cabeceira da cama. Eu queria ter palavras mais bonitas para criar um refrão que eternizasse meus bons momentos, como o que acabo de me recordar. Férias no litoral como todos os fins de ano em família. Médias fechadas na escola, presente de Natal garantido e claro, a mala abastecida de roupas para pelo menos quinze dias de sol e diversão. Entenda-se: sorvetes em todo pôr do sol, caminhada pelo calçadão depois do almoço e os mergulhos no mar. Um pouco mais que isso e talvez em ordem cronológica inversa, sem se esquecer do videogame velho para as tardes de chuva. Era mais ou menos essa a rotina, tendo como companheiro o único primo da mesma idade e os colegas do prédio ao lado, que sempre nos encontravam antes dos agitados eventos para os catorze, quinze anos de idade. Não mencionei o skate, porque nunca aprendi a andar e doze pontos na testa do Pedro depois de uma manobra que não soube executar já eram o bastante para uma família a fim de algum sossego nas férias de verão. Mas teve algo mais marcante que o tombo do skate que a memória de quinze anos não pôde esquecer. Sim, foi quando a conheci.

            Ela tinha o mesmo sorriso que há pouco lançava para mim e os olhos um pouco mais curiosos que os de hoje. Eu estava à porta da sorveteria esperando os outros terminarem seus pedidos, já saboreando minha casquinha sabor morango, e como o calor não colaborava, já escorria certa calda de gordura hidrogenada entre os dedos. E eu chacoalhando a mão na falta de um guardanapo, a vi sorrir para mim por um breve instante até tomar o rumo do calçadão junto a outras garotas. Poucos minutos depois fiquei sabendo do luau que os garotos mais velhos do prédio ao lado organizariam na praia. E sem tantas outras opções, perto das nove da noite, estávamos lá, eu, Pedro, os outros garotos da turma e a garota do sorriso breve junto a suas amigas ouvindo os hits da época ao som acústico do violão. Não raro, cantávamos as mesmas músicas em coro, todavia quase todas as atenções convergiam para o cara com o violão e a voz mais grave.

            Durante o luau descobri que a garota do sorriso breve estava no prédio vizinho, assim como os garotos da turma e que a poderia ter visto antes. Afinal, ela sempre estava por ali durante as férias. E eu a percebi, só àquele dia e bastou para que me incomodasse seus olhares ao cara do violão e que cantasse mais animada ao seus olhares. Na quinta ou sexta música, levantei e fui me sentar entre a praia e a rua, na mureta que separava a areia e a calçada. Um nó na garganta, um picolé de limão e um “oi”.

            – Oi.

            – Cansou da música?

            – Vim ver se está tudo bem.

            – Só um enjôo – não soube , nem saberia dizer o porquê de uma desculpa tão infundada.

            – Enjôo?

            Um nó na garganta, a respiração perdida, o coração descompassado e…

            – Logo fica tudo bem. Vem.

            E me puxou pela mão e eu acreditei que algumas cenas dos filmes às vezes podem se tornar realidade. Eu fui cômico, mas na hora não me fazia rir. Segurei os chinelos à outra mão e voltei para o luau arenoso, sentado ao lado dela, de mãos dadas e com uma tremenda vontade de aprender a tocar violão e escrever versos, quem sabe um cancioneiro inteiro. Mas não.

            Ficamos juntos o resto do verão. Quer dizer, nos dez dias seguintes que se passaram. Eu ganhei um violão alguns meses depois, mas parei com as aulas antes de saber uma música inteira de cor.

            O violão empoeirado apoiado na estante me lembra de eu não saber mais que dois ou três acordes e nada ter composto.

            Não acreditei quando logo depois do verão, ela partiu para o intercâmbio. Mas meu coração disparou igual quando a busquei no aeroporto depois de uma ligação três anos depois. E agora, de novo, quando não está aqui. E eu sem refrão.

             “Eu só queria uma música pra dizer tudo o que eu quero sem me arrepender depois”.

(Continua)

REDENÇÃO – 1. Sobre todas as coisas que eu…

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1 – SOBRE TODAS AS COISAS QUE EU…

            Eu não quero lembrar-me de ti e é só a tua imagem que se constrói em meus pensamentos. Deveria haver apenas boas lembranças tuas, mas são as amargas que me conduzem a permanecer deitado nesta cama, sem saber como agir e ecoam as palavras em minha cabeça: EU NÃO QUERO LEMBRAR, e é como se o filme se rebobinasse o tempo todo e eu sempre sentindo seu último hálito quente em meu ouvido e seus lábios me beijando o rosto, enquanto eu pedia para que não fosses embora. Tu me deixaste teu cheiro de menina e esse vocabulário insistente de querer parecer poético num momento de quase insanidade. A noite caminhava perfeita demais entre nossos beijos demorados e eu te prendendo em mim numa última noite de mancebos transpirando boas emoções. E agora a melancolia do quarto escuro, calça jeans, pés descalços e essa cama que já não lhe tem ao meu lado. As letras tatuadas próximas ao tornozelo esquerdo são nossas iniciais, que por mim teria tatuado num lugar mais à mostra, todavia considerei tua sugestão de que só interessaria a nós mesmos nossa própria história, que só ficassem visíveis em nossos momentos.

NÃO QUERO LEMBRAR

            O celular toca insistentemente, mas não é nenhuma chamada tua. É só a hora de tomar mais uma dose do remédio que fica à beira da cama, no criado-mudo, controlando meu humor, digo, minhas alterações de humor. E agora não me dá ânimo esticar o braço e apertar um botão para acabar com esse alarme insistente, mas não devo acordar os vizinhos tão cedo num fim de semana. Certo, esticar o braço e parar com esse barulho num simples toque de botão. Mas sem remédio por hoje. Não quero que meu rosto se seque tão facilmente, quando a chuva lá fora colabora para que seja natural meus olhos estarem úmidos e ter a ti como imagem em meu pensamento. Foi mais uma noite em que pedi desculpas e lhe dei minhas manifestações de carinho. E dessa vez tive de ouvir um “Não posso mais”, e receber um beijo no rosto em seu adeus. Verdade que ainda custei a acreditar que se fosses assim e demorei a levantar da cama, vestir este jeans e ir atrás de ti, tê-la em desconforto em meus braços rejeitando meus afagos, somente dizendo:

            – Não posso mais.

            E depois:

            – Não se esqueça – colocando em minha boca o comprimido que engoli em seco enquanto de meus olhos já vertiam água suja de lamento.

            Silêncio.

            Não me olhei no espelho, já que não consigo levantar-me daqui, mas sei estar de olhos inchados e sem coragem de refletir.  Não tens culpa de ser assim, só não sei se a tenho eu. Talvez eu seja egoísta demais ou não consiga discernir o certo e o errado nesse estado de embriaguez onírica. Sim, é desse jeito que eu gosto de chamar: embriaguez onírica, porque pode não ser real, só que me dói à cabeça de um jeito que me afasta a possibilidade de um sonho. De olhos fechados ainda posso considerar a ilusão de que está comigo e que vou lhe tampar os ouvidos após o próximo raio que refletir na janela do quarto para que não ouças o estampido do trovão. Eu te olho nos olhos, tu afastas meu cabelo do rosto e confias. A chuva vai passar e não terás medo de mais nada.

            “Eu não quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar”.

(Continua)

Mais uma história

Mais uma história

Semana passada encerrou-se mais uma de minhas histórias e é hora de saber a opinião de você que acompanhou os encontros e desencontros de nosso Romeu e Julieta às avessas, Mauricio e Raissa. Espero que tenham curtido e que venham os comentários.

Semana que vem uma nova história vem por aí. Com uma novidade: agora os posts serão de terça e quinta-feira. Uma nova narrativa em primeira pessoa. Aguardo por vocês em mais uma de minhas histórias.

Abraço,

David Felipe.

Mais uma de amor – Parte 4.2 (Final)

Mais uma de amor – Parte 4.2 (Final)

(…) – Oi, Verônica.

            -Olá. Algum problema aí?

            -Não, é só a máscara que soltou – dizia ele, erguendo-se – Obrigado. Bem que a Raissa falou pra eu ajustar isso.

            -Ah, então deu certo, ela te perdoou.

            -É, eu tive essa sorte. Sorte não, acho que foi um presente. Ela é uma garota ótima.

            -Que bom. Bem, eu vou indo. Já estou um pouco cansada.

            -Mas, e você? Como anda?

            -Bem, obrigada. A vida tem que seguir em frente.

            -Certo, está certo. E você está de carro ou quer que eu chame um táxi. Um minuto e eu providencio. Sem problemas.

            -Não vai precisar. Vou me despedir do Tony e ir atrás do meu namorado. Ele foi até lá dentro, mas está demorando um pouco.

            -Desculpe, eu não…

            -Não tem por que se desculpar. Começamos há pouco, mesmo. Essa foi a primeira festa em que viemos juntos.

            -Até mais, então – disse Maurício, beijando-lhe o rosto.

            -Tchau.

            Na sala de estar, Raissa se recostava mais no sofá sorvendo devagar um copo de suco para recompor-se. A noite estava quente e pedia algo refrescante:

            -Ainda gosta de suco de uva?

            -Luca? Tudo bem? – cumprimentava Raissa, com ares de espanto e um certo brilho no olhar.

            -Tudo bem? E tu, digo, você?

            -Estou bem, também. Bem, também, péssimas essas coincidências de som.

            -Normal. Bom te ver assim, feliz. Seus olhos não me enganam. É um trabalho bem realizado ou…

            -Eu e o Maurício, estamos tentando. Quer dizer…

            -Estamos sempre tentando – e Luca cortava seu pensamento – Eu também, estou tentando. A vida segue e fica melhor quando tem algo de aventura, não?

            -Acho que eu não diria aventura. Talvez um encanto, um coração disparando…Pela pessoa certa, então, é ainda melhor.

            -Então acho que vou continuar te procurando por aí.

            -A mim? – indagava, encabulada.

            -Eu vou continuar a procurar, só te digo isso.

            -O que você quer que eu diga? Eu sou péssima em momentos assim.

            -Não diz nada. Melhor, até mais! A gente se tromba por aí, guria.

            -Está certo. Beijo, guri. – Raissa levantou para beijar-lhe o rosto e ele partiu.

            Elisa percebeu a conversa de longe e se aproximou da amiga para saber do que se tratava:

            -Oi, Raissa.

            -Fala, Lisa.

            -Não, fala você? Como foi com o Luca?

            -Já foi, você sabe. Só conversamos, como amigos.

            -Como amigos? Arrancou essa página do livro.

            -Não, mas preciso passar adiante. Cada coisa no capítulo certo e sem voltar atrás.

            -Amiga, belas palavras. Mas acho melhor voltarmos pra nossa festa e dançar mais um pouco.

            -Sei, sei. E tem um estudante de inglês lá te esperando, não é mesmo?

            -Sim, sim. E uma dose de gim pra te acompanhar.

            As duas riram dos próprios gracejos e voltaram para a festa de confetes e serpentinas.

            Raissa buscou seu par para caírem juntos na folia e viu de longe um novo casal, assim como Maurício, sem vontade de voltarem ao passado. Os novos companheiros eram Luca e Verônica, saindo da festa para continuarem um festejo particular ou se desligarem em algum momento e continuarem tentando outros caminhos. Curioso era vê-los juntos, tão diferentes e tão próximos com as mãos dadas e trocando sorrisos, tentando encontrar seu Romeu, sua Julieta, Simão ou Teresa.

            O Romeu e a Julieta de nossa história, definitivamente, perceberam que amores aparecem sem uma procura necessária, apenas acontecem. E nem sempre são necessários poemas de amor de métrica perfeita, noites sem dormir ou encontros perfeitos marcados por um destino especial. Raissa não precisaria desfalecer febril, vendo seu amado partir ou terem os dois destinos trágicos, adormecendo para sempre por cálices e adagas. Eles precisariam, apenas, passar por beijos em alto som, tapas marcantes, encontros e desencontros, rivais, amores antigos, grandes amigos e o mais importante, saber passar por cada fase aproveitando seus momentos para um romance romântico, mas real.

            -Eu disse que eu te amo? – perguntou Maurício.

            -O que? – Raissa fazia-se de desentendida.

            -Eu disse que te amo?! – Maurício aumentava o tom da voz.

            -Eu te amo!

            Raissa fitou-o e ficou em silêncio, uma longa pausa, suficiente para que deixassem de ouvir o som alto do ambiente e se unissem em mais um beijo de amor. Eles se olharam, abraçaram-se e disseram juntos, um para o outro, numa voz sumida, quase sussurrada:

            -Eu te amo.

            Elisa e Tony olharam o casal, finalmente unido e dessa vez a amiga tagarela, ficou sem palavras e teve de concordar com a repetida frase de seu namorado:

            -Mais uma de amor.

 

           

           

           

 

Mais uma de amor – Parte 4.1

            Mais uma de amor Parte 4.1

             São Paulo, 04 de março de 2003 – terça feira. É Carnaval, Raissa prepara-se para a festa na casa de Antônio, desta vez com ares tradicionais com muita serpentina e marchinhas antigas mesclando-se às novidades do moderno gosto popular. Dessa vez o evento é organizado com as interferências de Elisa, dando seus palpites – tal como a sugestão do uso de máscaras – no evento particular mais concorrido na região. Amigos da época do colégio se reencontravam ali, uma vez por ano para contar suas novidades e aproveitar-se do clima festivo para se desligar da atmosfera agitada da cidade.

            -Fala, Elisa. Tudo bem?

            -Estou ótima. Está tudo certo pra festa, hoje?

            -Com certeza, o Maurício ficou de me buscar lá pelas nove – uma leve olhada no relógio de pulso – São oito horas agora, eu entro no banho daqui a pouco e pronto.

            -Lá pelas nove…E sua pontualidade britânica?

            -Estou aprendendo, nada tem hora certa para acontecer. Nem…

            -Por favor, depois da festa você tem sua diversão particular. Não vai desprestigiar minha estréia nos eventos da família do Tony.

            -E quem disse que eu estava falando de…

            -Sei, sei. Brincadeira, mas venha, por favor.

            -Ah, você já está aí?

            -E achou que eu ia perder o movimento crescendo? Não, mesmo.

            -Beleza. Até mais tarde. Tchau!

            -Bye, bye.

            Raissa desligou o telefone e tratou de se arrumar. Banheira, espelho, maquiagem, vestido, máscara.

            -Já vai – Raissa ia atender à campainha.

            -Oi, Rá. Pronta?

            -Quase, só falta o batom e…

            Maurício não a deixou terminar a frase e a beijou terna e demoradamente.

            -Pode passar o batom, agora.

            -Engraçadinho. Ah, e aperta bem essa máscara que está soltando o elástico.

            -É você que derruba o toureiro aqui. – ironizava, com um sorriso cínico.

            Raissa passou o batom, pegou a bolsa e se foram. Portões, estacionamento, jardim, já estavam em meio ao frenético clima do carnaval. Lisa e Tony não tardariam a receber seus convidados:

            -Olá! Já estão no clima da festa?

            -Acabamos de chegar, Lisa. É pedir demais.

            -Gostei dessa cara nova pra festa, Tony. Marchinha, serpentina. Até que a Lisa teve uma boa idéia. – intervinha Maurício.

            -Querido, eu normalmente tenho boas idéias. Se não fosse eu a Raissa não estava aqui com você, não. – alfinetava Elisa.

            -A Elisa mandou bem, mesmo. O pessoal até que está curtindo dançar umas marchinhas, também. – observava Tony.

            Animação não faltava aos convidados, aproveitando a festa ao som alto lançado pelas caixas acústicas e regados pelo clima amistoso.

            Os meses passados haviam servido para Lisa e Tony darem cores mais vibrantes naquele amor tranqüilo e Raissa e Maurício tentavam habituar-se aos modos de cada um, em meio a atitudes mais racionais da jovem e aos rompantes do rapaz, mantenedor dos matizes marcantes da adolescência como grande vibração por alguns minutos de fascínio. Nessa fase já era normal vê-lo colocar anotações no quadro de fotos do quarto e perceber Raissa mais descontraída no cotidiano, cantando sozinha no carro, coisa que não faria sem fechar todos os vidros do automóvel em outros tempos.

            O dia de festa, entretanto, guardava algumas surpresas. Raissa e Maurício se separaram por alguns instantes, enquanto ela descansava um pouco na sala de estar e ele ficava conversando com o primo na pista de dança armada provisoriamente no jardim, onde o som não ajudava muito se fazer entender:

            -O som, vou pedir para o dj dar uma mudada, mesclar mais alguma coisa eletrônica. – dizia Tony, com gestos grandes.

            -Ah, o som. Beleza, melhor mudar porque a pista está ficando vazia – concordava Maurício, falando num tom de voz mais alto.

            -Falou, primo. Até!

            -Falou, Tony. Vai lá!

            Maurício deveria ter levado a Raissa a sério quando ela lhe falou sobre o aperto no elástico da máscara, era a segunda vez que ela soltava-se, e dessa vez caía no chão:

            -Droga! – exclamava Maurício, agachando-se para pegar o adereço.

            -Algum problema?

            Aquelas pernas longas bem torneadas só podiam ser:

            -Oi, Verônica.

(…)

(Continua)