Mais uma de amor – Parte 3.5

Mais uma de amor – Parte 3.5

(…)

           Desligar o telefone, pegar o carro e parar na primeira floricultura, escolher um daqueles arranjos trazendo como complemento uma cesta decorativa e um grande urso de pelúcia. Nada original, mas ele tinha de pensar em algo e era tudo o que lhe passava na mente no momento. Depois, ficar tentando ligar do celular para a casa da amada, sem sucesso. O telefone mantinha-se ocupado, falando de:

            -Maurício, o Maurício de novo Raissa? Eu pensei que estava tudo bem.

            -Pra você ver como são as coisas.

            -Num dia o cara diz que te ama e depois faz isso. Nem sei o que dizer.

            -Como assim, Lisa? Você sempre tem o que dizer, certo?

            -De vez em quando eu falho, compreende? Nada mal para quem não quer competir com a Miss Perfeição.

            -Sem ofensas pessoais, por favor. Não é disso que eu preciso agora.

            -Foi só pra descontrair. Sabe, eu não sou você, senão tomaria alguma atitude mais drástica.

            -Como o que?

            -Como…Como… – e tentava buscar alguma idéia concreta para expor.

            -Espera aí. Tocou a campainha aqui. Mais uma vez o porteiro não avisou.

            -Dessa vez não sou eu. Pode ter certeza.

            -Bem, depois eu ligo pra você então. Tchau!

            -Tchau!

            Como um bom atleta, Maurício estava à porta buscando placar no segundo tempo de jogo. Ele deixou que as flores e a pelúcia chegassem na frente dentro da original cesta decorativa:

            -Olá – saía ele de trás do arranjo.

            -Olá. Adorei as flores, serviria melhor uma coroa delas pra deixar no seu sepulcro, mas tudo bem. E a pelúcia pode levar, sou alérgica.

            -Rá, não faz assim. Só piora as coisas.

            – “Raissa”, por favor, me chama de Raissa. E piorar as coisas? Você só pode estar sendo cínico, não é isso? – dizia alterando o tom de voz.

            -Raissa, por favor.

            – “Por favor?” Só falta se ajoelhar e me pedir perdão.

            -Se é isso que você quer, eu faço. Pronto, estou de joelhos. Me perdoa.

            -Levanta daí, vai – e Raissa passava a mão pelo resto, nervosa – Entra que eu não

estou bem pra fazer cena na frente dos vizinhos, por favor.

            -Está certo, eu entro.

            -Pronto, pode falar.

            -As flores.

             Ela tomou a cesta nas mãos e deixou sobre a mesa, com desleixo.

             -E então? A noite foi boa com a sua amiga? Sua cama é bem macia, não é?

            -Não foi à noite.

            -E ainda confessa. Parabéns, prêmio honestidade do ano pra você. – e batia palmas.

            -E você queria que eu dissesse o que, que peguei uma gripe, minha voz afinou e eu tentei te passar um trote, de brincadeira.

            -Sabe que não. E eu não sou tão tola pra cair em uma explicação dessas, você sabe. Mas não acha demais dizer que me ama num dia, e na manhã seguinte, eu ouvir uma voz ofegante de mulher ao telefone?

            -Certo, transamos. Só isso.

            Instantaneamente Raissa ergueu a mão e deu-lhe um tapa no rosto, deixando sua face em tom avermelhado pareando-se ao pescoço ruborizado da garota, pelo nervosismo da situação.

            Maurício ergueu a cabeça, aproximou-se da mesa e num único golpe arremessou ao chão as flores colocadas sobre a mesa.

            -Maurício! – gritou Raissa, com os olhos paralisados, fitando-o.

            -Quer saber, eu transei com a Verônica sim e foi só isso. Eu tenho culpa, claro, eu sou assim há tempos e quando eu decido mudar e tentar amar alguém de verdade, pedir perdão sinceramente, você me tira essa oportunidade. Você sabe quantas vezes eu pedi perdão, disse “eu te amo” pra uma garota?…Nunca! Você foi a primeira por quem eu lutei. Desculpa, tá. – Maurício tocou-lhe os lábios de leve e foi embora.

            -Droga! – exclamou Raissa antes de bater a porta de entrada.

            A jovem não ficou na sacada, observando seu mancebo partir, como nos contos, apenas sentou-se no sofá e pranteou copiosamente, como uma adolescente.

            Maurício descia o elevador do condomínio, tirando os óculos escuros do bolso para disfarçar os olhos entre úmidos e avermelhados, forçando para não chorar, não caberia a um homem de vinte e poucos anos já, chorar – era o que pensava. Todavia o nariz e as maçãs do rosto vermelhas denunciavam seu estado. Impossível escapar do comentário da velha senhora que adentrava o elevador no quinto andar:

            -Boa tarde – cumprimentava a senhora.

            -Boa tarde. – e o rapaz assentia com a cabeça.

            -Então brigou com a namorada, não foi?

            Maurício não respondeu verbalmente, apenas assentiu com um leve inclinar de sobrancelhas.

            -É, meu filho. Todos nós precisamos aprender a tentar remediar as situações. Não há dor que dure para sempre, nem amor que não ceda.

            Terceiro andar, marcava o indicador na parede.

            -Eu fico por aqui, para um chá com uma amiga do condomínio. Desculpa essa senhora que de vez em quando fala demais.

            Maurício sorriu timidamente e a viu partir, pela pequena janela da porta. Aquela senhora pensava ser quem para dar conselhos? Seus pais e familiares mais velhos já não eram suficientes para os sermões. Contudo, a frase da senhora lhe fez refletir e passar a tarde toda tentando arquitetar alguma forma de superar a situação e ter seu amor de volta.

            Chegando em casa, o rapaz tratou de pegar os recados deixados na secretária eletrônica: os pais estariam almoçando fora e a outra mensagem era de Tony, perguntando se havia resolvido a questão.

            -Resolvi, resolvi muito – falava Maurício consigo mesmo – Tanto que a garota só faltou me jogar pra fora da casa dela e isso sem dizer nada.         Está certo, eu não esperei pra ver o que acontecia. Fui embora antes. Um covarde! – e lançou socos no ar, antes de jogar-se na cama. Estirou os braços e tomou a agenda à mão, notando seus rascunhos da tentativa de poesia.

            As únicas coisas ingeridas pela fera da zona sul foram alguns bombons e uma barra de cereais deixada na gaveta do criado-mudo. Não saiu do quarto para nada, até conseguir um bom texto, expressando suas desculpas e o que sentia realmente por Raissa. Romeu não queria adormecer pra sempre, deixando a única saída para sua amada.

(Continua)

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