Mais uma de amor – Parte 3.4

Mais uma de amor – Parte 3.4

Raissa chegou, subiu pelo elevador até o seu andar em êxtase, abriu a porta do apartamento, trancou-a e jogou a chave em cima do primeiro móvel que viu – não a deixou no porta-chaves como de costume – olhou-se no espelho e sorriu, tirando o batom com um lenço à mão. Ainda era bonita e radiante como nunca havia pensado ser. Aquela noite demoraria a passar e antes de dormir seu único desejo fora uma xícara de chá com bastante açúcar.

Maurício rascunhou alguns versos, fez poesia, ou tentou. Sabia não ser tão hábil com as palavras escritas, mas tinha de imprimir suas impressões de alguma forma, o que ficou guardado dentro da agenda na cabeceira da cama. Então, dormiu pesadamente como se tivesse sido completa sua noite de amor.

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Como era bom aquele calor próximo de seu pescoço, e aqueles lábios que tocavam os seus vigorosamente. Uma vibração intensa começou a passar por seu corpo e quando abriu os olhos, ainda um tanto sonolento:

-Surpresa!

-Verônica? O que você está fazendo aqui?

-Te amando.

-Você está louca? Passa a minha camisa, por favor.

-Vai ficar com pudores comigo, agora?

-Cara, você só pode estar louca. Como você entrou aqui?

            -Pela porta, oras. Esqueceu de ter me dado a chave nos nossos bons tempos. Só esperei seus pais saírem logo cedo e entrei, simples assim.

            -Pára, cara. Não me beija mais.

            -Por que? Não precisa resistir.

            -Verônica, você sabe que não tem mais nada a ver você aqui, a gente.

            Ela não demorou a levantar-se da cama, trancar a porta do quarto e juntar-se a ele, naquela cáustica manhã de domingo. Maurício portou-se como se de hora para outra seu amor se colocasse à parte e estivesse ali apenas a jovem virilidade de seus vinte e poucos anos, desfrutando do néctar da bela Afrodite.

            O som do telefone veio a despertar os jovens, tempos depois do banquete particular em favor de Baco, colaborando visceralmente com a mitologia greco-romana.

            -Alô – atendia Verônica, em seu tom brando de voz.

            -Quem é? – interferia Maurício, com ares de leve preocupação.

            -Ah, Raissa. Tudo bem?…Ah, não. Estamos ótimos, até porque estamos aqui na cama dele, descansando um pouco depois de…Ah, não precisa falar, não é?

            -Cala a boca, Verônica. Está ficando louca ou o que? – indagava Maurício, ruborizado.

            -Grossa ela, desligou. Quem sua amiga pensa que é?

            -Não acredito, cara. Dá aqui esse telefone. Alô, Raissa. Alô…

            -Não falei que desligou, Mau. Desligou, pronto. Já era.

            -Já era?! Cara, você não sabe o que você fez?

            -A gente fez, Mau. Só recordando os velhos tempos. Nada mal.

            -Muito mau. Seguinte, pega suas coisas e vai embora – dizia Maurício, já se vestindo – Melhor assim. Eu preciso ir até a Raissa, fazer alguma coisa.

            -Mau, você vai me tratar assim. Eu venho aqui, numa boa e…

            -E…Você sabe que a gente só dá certo assim, entre quatro paredes.

            -Como eu sou idiota.

            -Você é insistente demais. Eu curto estar com você de vez em quando, mas é só isso. Você sabe que não tem futuro comigo.

            -Eu pensei que – e ela procurava fazer-se lacrimosa – Eu pensei que…Você não vale nada, mesmo. Me tratar como uma qualquer…

            -Não fui eu quem te agarrou e…Ai!

            Mais uma mordida para se recordar das aventuras de um adulto-adolescente, em busca de si. Verônica fora voluntariosa o suficiente, todavia não gostava de certas respostas a suas atitudes.

            -Ops! Acho que não vai conseguir dar um beijinho de desculpas na sua garota.

            Foram as últimas palavras, ouvidas em alto e bom som, últimas palavras as quais pareciam entrar em seu cérebro e ficarem se repetindo na mesma toada, tais o ponteiro de um relógio. Sua primeira atitude desesperada foi entrar debaixo do chuveiro e tentar livrar-se de tudo aquilo o que concluía ter sido um erro, buscando uma desculpa para o que não se explicava como um simples mal entendido. Embora Raissa nada tivesse presenciado, além de um telefonema, não poderia digladiar com fatos. A fera não achava suas garras suficientes, no momento, para vencer mais um embate:

      -Você fala sério?

            -Não, estou brincando. Qual vai ser o próximo jogo, verdade ou desafio?

            -Está certo, desculpa. Mas você só pode não ter pensado. Voltar com a Verônica e…

            -Voltar? Não voltamos, só…Sabe como é.

            -E…

            -Eu posso ser um pouco lesado, mas nem tanto. Nenhum perigo de teste de DNA, não. Eu sei me cuidar.

            -Menos mal. Agora, você vai assumir tudo pra Raissa e encarar na boa?

            -Eu acho que você não entendeu, é aí que você entra. O que eu faço, cara?!

            -A verdade.

            -A verdade? Não estamos no meio de um desenho animado pra passar uma lição no fim da história.

            -Sério? Então, você devia ter pensado nisso antes da Verônica.

            -Como pensar, Tony? Trata-se da Verônica invadindo meu quarto no meio da manhã. Quem resiste a isso?

            -Um cara que se diz apaixonado não resistiria?

            -Eu disse isso? – e soltava um riso sem graça – Eu disse, eu sei. Só que eu precisava relaxar, entende?

            -E vai ser sempre assim?

            -Não, foi uma última vez. Uma despedida de solteiro, certo?

            -Você vai ter que reconquistar a garota.

            -De novo? Não bastou eu dizer “eu te amo”?

            -Maurício, quando eu penso que não, você se supera. Quer saber, eu acho que você gosta da Raissa de verdade.

            -Eu gosto, sério.

            -Então, por isso mesmo você vai ser honesto e tentar resolver isso por si.

            -Você não vai me ajudar?

            -Bem-vindo à vida. Agora é com você. Acabou sua fase de “caçador”. Você escolheu e vai ter que arcar com tudo.

            -Falou, papai.

            -Cara, sem essa. Até mais.

            -Valeu! Tchau!

(…)

(Continua)

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