Mais uma de amor – Parte 3.1

Mais uma de amor – Parte 3.1

             São Paulo, 10 de agosto de 2002. É sábado, mais um dia do fim de semana em que Raissa preferiu dispensar as baladas de sempre para entrar na locadora perto de casa e gastar alguns minutos escolhendo a diversão de mais um cinema em casa.

            Estante dos lançamentos, alguns filmes infantis, muitos de ação, os blockbusters habituais e as leves comédias românticas. Raissa passou os olhos rapidamente por todos e não se contentou com os títulos. Decidida a rever um dos clássicos indicados nas revistas especializadas, virou-se:

            -Olá.

            -Oi. Tudo bem?

            -Não está me conhecendo?

            -Sabe que se eu tirasse esse seu boné e levantasse um topete na sua franja, lembraria muito um certo Maurício.

            -Ah, continua muito espirituosa. Pensei em você…

            -…Todos os dias após o último incidente.

            -Não ia dizer isso.

            -Um pedido de desculpas ao menos?

            -Quem sabe, se aceitar tomar um suco comigo. Só pra conversar um pouco.

            -Suco? Bem, estava pensando em assistir a um filme.

            -E que tal um cinema?

            -Você é engraçado, não é? Sei, cinema. Acho que está me confundindo de novo.

            -Não é isso.

            -Está certo.

            -Então aceita o suco?

            -Ok, mas tenho pouco tempo.

            -Não ia ficar em casa, assistindo à fita?

            -Isso é comigo. E não vai pensar que é assim, você me convida e eu aceito, na hora. Apenas acordei de bom humor.

            -Tenho sorte, sempre.

            Uma leve inclinação de sobrancelha e um riso de lábios fechados, de quem não se convence. Raissa desistiu do filme e acompanhou a Fera da Zona Sul.

            -E a faculdade? Está bem?

            -Tudo bem. E o trabalho?

            -Tudo bem.

            -Seu primo?

            -Do mesmo jeito. Acho que um pouco melhor, agora. A Elisa deixou ele um pouco mais animado.

            -É, ela é ótima.

            Pausa para os olhares se desviarem e Raissa quebrava o silêncio:

            -E você? Algum progresso nos seus relacionamentos?

            -Acho que sim, você aceitou falar comigo.

            -Tomar um suco com você.

            -É, pra mim já está ótimo. Só de ver você…

            -Melhor não começar assim…O suco está ótimo.

            -Goiaba, meu preferido.

            -O meu também, depois de uva. Afinal, sucos de frutas são ótimos.

            -Pelas calorias?

            -Sabe que nunca pensei nisso?

            E os dois riram-se, juntos. Era fácil recordar-se de um de seus primeiros encontros, quando Raissa desfalecera por falta de uma boa alimentação.

            -Mas, sabe. Estou menos controlada, ultimamente.

            -Como se precisasse de tanto controle.

            -E você, malhando ainda?

            -Não pensei nisso nos últimos tempos.

            -Você? – e Raissa lançou-lhe um olhar de dúvida.

            -Está certo, só pra manter.

            -Hum, sei.

            Longa pausa. Os dois olharam-se, voltaram os olhos para a mesa e terminaram o suco. Maurício foi o primeiro a mirar novamente sua companhia. Como ela era bonita à luz do dia, num simples jeans azul, blusa em tom pastel e o rosto sem nenhuma maquiagem.

            -Por que me olha tanto? – vinha Raissa, surpreender seu admirador.

            Ainda que faltassem as palavras certas, Maurício tentava explicar-se:

            -Por que? Bem, acho que acordo romântico de vez em quando.

            -E?

            -Hoje foi um dia desses em que até o barulho chato do passarinho à janela te acordando de manhã parece ser a melhor música do mundo e parar em algum engarrafamento, serve de inspiração pra inventar poesias.

            -Você, inventando poesias? Bem, e quando olhar pra mim se relaciona a tudo isso.

            -Quando a gente vê que por alguns minutos que sejam, podemos ter a quem se ama por perto, ainda que por pouco tempo e só pra olhar, assim como eu olho pra você agora.

            Caso Raissa não tentasse ser racional, como se esforçava para ser, teria o beijado na mesma hora, pois essa era sua vontade – sem medo de si mesma – mas não foi o que fez, preferiu abster-se, levantar e sair:

            -Preciso ir. Tenho que…

            -…Ir pra casa, assistir ao filme. Você acabou não pegando nada.

            -Vê o que faz, acabei nem alugando ao filme.

            -Vê o que você faz. Não inventa motivo, dizer que precisa ir e sumir da minha vida.

            Raissa levou a mão ao cabelo, tombando a cabeça para colocar uma das mechas atrás da orelha:

            -Eu não posso fazer assim, começar uma coisa que eu sei que não vai dar certo. Eu não programei te ver tão cedo.

            –Tão cedo? Então tenho esperança de um mais tarde, talvez.

            -Eu…Não sei se…

            -Não diz – Maurício calou suas palavras, com um terno e longo beijo de amor.

            Roubar um beijo da mocinha da história era algo que nosso Romeu às avessas acostumara-se a fazer, contudo dessa vez era diferente, não receberia um tapa como recompensa. Era um beijo de amor, pensava ele, de verdade.

            -Então, eu posso te ver mais tarde?

            -Bem, telefona.

            -Telefona? Não, vamos ficar nisso de telefonema e…

            -…E o que? – perguntava Raissa, intempestiva.

            -Certo. Eu ligo.

(Continua)

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Um pensamento sobre “Mais uma de amor – Parte 3.1

  1. Kiki disse:

    Essa Raissa é muito indecisa, e adorei a parte do Romeo as avessas!
    Ta muito boa a história!
    bjus

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