Mais uma de amor – Parte 2.7

             Mais uma de amor – Parte 2.7

            (…)

              Banheiro feminino, com alguns espelhos a mais e um aglomerado de garotas buscando o melhor ângulo e:

            -Falando deles, Elisa. Não merecem tanta atenção assim da nossa parte.

            -Por que não? O Tony até que se saiu bem. Está certo, demorou pra se ligar, mas entrou na minha.

            -Entrou na sua? Achei que gostasse dele.

            -Não, gosto, claro. Mas gosto de atitude também.

            -Entendo. Bem, vamos indo que está circulando muita gente aqui.

            -Ainda não se acostumou à “muvuca” da balada?

            -Não sou de sair muito, você sabe.

            -E o Maurício, o viu por aí?

            -Nada. Melhor assim, vou acabar arrumando problemas sem necessidade.

            -E aquele amor todo?

            -Não, não. Fiquei impressionada, claro. Passar essa vergonha por minha causa?

            -Ninguém sabe quem é um tal de Maurício que mandou um recado pra uma tal de Raissa. Pena que você saiba disso, Rá.

            -O que?

            -Oi, Raissa. Tudo bem?

            Já haviam saído do banheiro, certamente. A Fera da Zona Sul não seria capaz de tal ousadia, ainda que fosse bastante impetuoso, sabia o seu lugar, e ficou esperando a garota voltar, apoiado ao balcão do bar:

            -Tudo ótimo.

            -Bem, eu fiquei esperando que viesse falar comigo. Veio para isso?

            -Quanta pretensão. Está louco mesmo. Sabe que eu estou acompanhada, Maurício.

            -É, notei. Mas estamos entre amigos.

            -Você está me vendo como uma das garotas que sai com você, assim por uma noite e pronto. Engana-se muito.

            -Melhor eu ir saindo, o clima está esquentando muito por aqui – adiantava-se Elisa.

            -Fica, Elisa.

            -Ok.

            -Não vou fazer nada, Rá. Só de te ver, está bom.

            -Pode tirar a mão do meu braço?

            -Algum problema, Raissa?

            -Não, nada. Seu amigo veio me cumprimentar, só isso.

            -Maurício?

            -E ai, cara?

            -…

            -Puxa, não vai nem cumprimentar?

            -Maurício, área. Vai embora – Antônio tentava amenizar a atmosfera estabelecida.

            -A gente veio pra se divertir, primo. Fica na boa. O cara deve estar mal por causa do caso com a garota. Ouviu uma declaração de um “certo” Maurício? Até me emocionei com o discurso.

            -Não liga, ele está bêbado. Não tem noção do que está falando.

            -Elisa, desculpa. Mas você está vendo o estado dele. Ligo pra você amanhã. Desculpa.

            Tony esforçou-se até levar o primo para fora da casa noturna, notando os ares de desconfiança e o rosto ruborizado de Luca, pelo tom efervescente da situação.

 

””””””’

             Chegada ao condomínio onde morava Raissa. Poucas palavras e tentativas de alguma explicação para os transtornos da noite:

            -Boa noite.

            -Espera, não me deixou falar nada.

            -E precisa? Aceito a derrota, numa boa. Eu não seria capaz de um circo como o que o Maurício armou. Sabe que posso escutar ainda as gargalhadas do palhaço pra platéia?

            -Não fala assim. Só complica as coisas, por favor.

            -Por favor, digo eu, Raissa. Estou cansado, com sono. Depois a gente pode se falar e pronto, resolvido.

            -Mas…Droga! Estraguei tudo, não foi?

            -Você estava indo bem. Mas “estraguei tudo” não combina contigo. Preferia a versão madura.

            -Vai me ofender agora? Eu não cheguei lá e disse: “Maurício, eu te amo”.

            -Só faltava essa. Acho que te levei pra lugares interessantes, te…Caramba! Eu batalhei por você.

            -Batalhou? Ah, está certo. Vai ficar mal dizer que perdeu para o seu amigo?

            -Por que? Perdi? Obrigado por me informar. Acho que agora você me dá um beijo no rosto, fecha a porta do carro e começa a chover. Eu saio na chuva, desesperado, e te dou um beijo de quebrar a espinha. Só que você me pede desculpa, fala que não manda no próprio coração e seca uma lágrima que surge do nada no canto de um de seus olhos e eu, como um bom personagem secundário, volto para o carro e desapareço na estrada, ainda que estejamos numa rua residencial. Mas tudo bem.

            -Eu queria muito que fosse por aí, porque seria mais fácil. E não é, claro. Prefiro dizer que esperei ser como na adolescência, aquela garota idealista, que voltou das férias e não contou sobre o guri do sul nem pra melhor amiga, porque acreditou, melhor, acredita, ter vivido uma história de amor como a dos livros, em que infelizmente os dois se separam no final e a gente vibra por um instante, esperando não ser a última página do romance e chora ao ver que acabou.

            -Por favor, eu não queria te fazer chorar. Não eram esses meus planos.

            Raissa respirou fundo, olhou em seus olhos profundamente como da primeira vez e beijou-lhe os lábios, sem medo. As bocas se separaram, a porta do carro foi fechada.

            -Raissa, está chovendo.

            -Eu sei.

            -Melhor você entrar.

            Um último olhar e acabou-se. Luca não desceu do carro para lhe dar um beijo de quebrar a espinha, deu a partida no automóvel e seguiu.

            Foram as férias de meio ano mais longas por que Raissa passou, ainda que continuasse o expediente no trabalho da agência e tentasse se entreter em suas leituras, principalmente dos romances antigos de colégio. Lembrou-se até da Capitu de Machado, mas acreditava não ter a personalidade enigmática da personagem, afinal, falava o que queria sem medo da reação de quem quer que fosse e é certo, se feria por isso e sabia não deixar o próximo sem algum arranhão. Foi por isso que tentou ligar para Luca algumas vezes, deixar recados os quais não tiveram respostas, nem acenos de uma flâmula branca.

            -É, deve ter pegado pesado com o guri.

            -Não dava pra eu mentir, certo?

            -Talvez tenha sido melhor assim. Você…

            -Você? Eu, claro. Se foi melhor eu não sei, pois sempre há possibilidades de finais diferentes para as histórias, mas foi assim e pronto.

            -É, foi assim e pronto. Não vai adiantar ficar se martirizando, mostrar arrependimento.

            -Arrependimento de que? Não fiz nada que não quisesse ou fosse preciso. Olhei o começo de tudo…

            -Você quer dizer do namoro relâmpago entre você e o Luca?

            -Isso, Elisa. Olhei o começo de tudo com os olhos daquela adolescente apaixonada e terminei como tinha de ser, numa postura madura.

            -Madura?

            -Madura sim, não foi?

            -Você pergunta pra mim? Achei que a criança da história era eu.

            -Bem, todo mundo tem seus momentos.

            -Claro, até a miss Perfeição.

            -Perfeita não. Nunca tive essa pretensão.

            -Ainda bem.

            -Por que?

            -Não agüentaria conviver com mais essa – e Elisa soltava uma de suas gargalhadas.

            -Definitivamente, não. Nem eu me agüentaria.

            -E amanhã? Volta pra faculdade?

            -Com certeza. Não via a hora de ocupar mais minha cabeça com coisas sérias.

            -E sua vida não é coisa séria?

            -Tenho cá minhas dúvidas.

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