Mais uma de amor – Parte 3.2

 Mais uma de amor – Parte 3.2

(…)

Raissa logo chegava em casa, até porque não haviam ido longe de sua casa. Maurício insistiu em levá-la, de carro, mas ela disse preferir ir caminhando, afinal eram apenas poucas quadras dali e aproveitaria para exercitar-se um pouco, ainda que numa breve caminhada.

            -Não, você beija o cara e sai andando assim, quando tem um motorista à disposição. – era o primeiro comentário de Elisa, ao saber do ocorrido pelo telefone.

            -Eu não o vejo já há algum tempo e você queria que eu fizesse o que, o convidasse pra dar uma esticada no meu apartamento.

            -Até que não seria má idéia, mas sei que não é assim, tão voluntariosa.

            -Com certeza, não. Nem sei de onde tirei essa de esticada no apartamento.

            -Acho que pelo menos pensou nisso, não foi? – e Elisa ria-se.

            -Não, você me conhece. Só que dessa vez me deixei levar…

            -…Sem medo de ser feliz.

            -É, mais ou menos assim. Não quis colocar mais barreiras.

            -E será que é esse amor todo que está aparentando ser?

            -Ainda não sei direito. Bem, ele parecia sincero. Falou até de inventar poesia, sabe?

            -Poesia, então é real. Ele não ia se expor por nada. Poesia é, ele te ama.

            -Tomara que sim.

            -Estou sentindo uma reciprocidade no ar.

            Maurício também não agüentara guardar para si, a alegria a qual o invadia aquele dia. O melhor dez de agosto dos últimos tempos:

            -É isso aí, cara. A Raissa mesmo. Sem essa mais de se envolver sem sentimento.

            -Você, dizendo isso?

            -Não pára não. Mais algumas abdominais e vai ganhar um abdome de ferro, como o do ferinha aqui.

            -Na boa, Maurício. Só resolvi fazer academia por saúde, condicionamento.

            -Pensa na Lisa, ela vai gostar de pegar um cara mais malhado. Olha que ela é bem…Desculpa. Você sabe das qualidades da sua garota.

            -Melhor tomar cuidado mesmo com o que fala. Eu sou seu primo…

            -…Você é meu irmão, cara…

            -Tá, mas outro não levaria seus comentários na paz, não. E a Raissa parece curtir um pouco de cérebro também. Pura massa muscular não te leva tão longe com ela, não.

            -Valeu pelo toque. Mas, você sabe que eu estou gostando dela de verdade.

            -Sei, então fala. O que dobrou a Raissa?

            -Não dobrei ninguém. Resolvi ser sincero, só isso.

            -E falou o que?

            -Falei de…Falei de…

            -De…?

            -Não vai rir, beleza?

            -Depende, você disse algo engraçado pra ela?

            -Não, do meu novo ponto de vista. Falei de inventar poesia.

            -Então o caso é sério. Você quer uma água, um suco? Ou já se recuperou desse surto?

            -Falei pra levar a sério.

            -Levar a sério, você só pode estar brincando.

            -Primeira vez que falo sério na vida e você diz isso?

            -Desculpa, mas é difícil acreditar num Maurício sensível, doido, sincero.

            -Melhor se acostumar. O seu irmãozinho está mudando.

            Final de tarde, hora de parar com os exercícios e dar um rumo no fim de semana. Tony falou sobre ir a um barzinho ou talvez jantar em algum restaurante mais tranqüilo com Elisa. Os dois tipos de programa agradaram a Maurício, que estava realmente pensando em aproveitar a amizade das garotas para conseguir um ambiente neutro e dessa forma não possibilitar empecilhos por parte de Raissa em vê-lo.

            -Fala, primo. Está pronto?

            -Você vai me ligar no celular pra isso? Não combinamos de todo mundo se encontrar no barzinho?

            -Beleza. Só quero que as coisas acabem bem esta noite.

            -Vai depender só de você. Falei com a Lisa e ela prometeu dar uma força. Só não vai querer dar uma de menino bonzinho que não cola. Ela gostou de você do jeito que você é, não precisa inventar nada.

            -Falou, psicólogo.

            -Só estou querendo ajudar.

            -Está certo. É que eu estava acostumado a te empurrar, certo?

            -Sei lá, um dia as coisas mudam. Ser você mesmo, foi assim que a Lisa e eu ficamos juntos.

            -Casal estável, hein? – e Maurício soltava um riso maroto.

            -Tchau, Maurício.

            -Falou, pego a Raissa e vamos pra lá.

            Encerrada a ligação, Maurício passou um pouco mais de perfume, olhou-se no espelho, pegou a chave de seu sedan e foi direto para a casa de Raissa. A moça não se demorou a descer:

            -Pontual.

            -Não gosto de fazer ninguém esperar.

            -Será?

            -Quase sempre. Cumpro meus horários, compromissos.

            -E quanto a mim?

            -Acho que ainda não temos um compromisso.

            -Gostei do “ainda”, me faz pensar positivamente.

            -… – nenhuma palavra de Raissa, apenas um leve inclinar de sobrancelha e a sugestão de falar algo, impedido pela ação do pensamento.

         -Tudo bem, não precisa dizer nada. A noite está só começando.

(Continua)

Mais uma de amor – Parte 3.1

Mais uma de amor – Parte 3.1

             São Paulo, 10 de agosto de 2002. É sábado, mais um dia do fim de semana em que Raissa preferiu dispensar as baladas de sempre para entrar na locadora perto de casa e gastar alguns minutos escolhendo a diversão de mais um cinema em casa.

            Estante dos lançamentos, alguns filmes infantis, muitos de ação, os blockbusters habituais e as leves comédias românticas. Raissa passou os olhos rapidamente por todos e não se contentou com os títulos. Decidida a rever um dos clássicos indicados nas revistas especializadas, virou-se:

            -Olá.

            -Oi. Tudo bem?

            -Não está me conhecendo?

            -Sabe que se eu tirasse esse seu boné e levantasse um topete na sua franja, lembraria muito um certo Maurício.

            -Ah, continua muito espirituosa. Pensei em você…

            -…Todos os dias após o último incidente.

            -Não ia dizer isso.

            -Um pedido de desculpas ao menos?

            -Quem sabe, se aceitar tomar um suco comigo. Só pra conversar um pouco.

            -Suco? Bem, estava pensando em assistir a um filme.

            -E que tal um cinema?

            -Você é engraçado, não é? Sei, cinema. Acho que está me confundindo de novo.

            -Não é isso.

            -Está certo.

            -Então aceita o suco?

            -Ok, mas tenho pouco tempo.

            -Não ia ficar em casa, assistindo à fita?

            -Isso é comigo. E não vai pensar que é assim, você me convida e eu aceito, na hora. Apenas acordei de bom humor.

            -Tenho sorte, sempre.

            Uma leve inclinação de sobrancelha e um riso de lábios fechados, de quem não se convence. Raissa desistiu do filme e acompanhou a Fera da Zona Sul.

            -E a faculdade? Está bem?

            -Tudo bem. E o trabalho?

            -Tudo bem.

            -Seu primo?

            -Do mesmo jeito. Acho que um pouco melhor, agora. A Elisa deixou ele um pouco mais animado.

            -É, ela é ótima.

            Pausa para os olhares se desviarem e Raissa quebrava o silêncio:

            -E você? Algum progresso nos seus relacionamentos?

            -Acho que sim, você aceitou falar comigo.

            -Tomar um suco com você.

            -É, pra mim já está ótimo. Só de ver você…

            -Melhor não começar assim…O suco está ótimo.

            -Goiaba, meu preferido.

            -O meu também, depois de uva. Afinal, sucos de frutas são ótimos.

            -Pelas calorias?

            -Sabe que nunca pensei nisso?

            E os dois riram-se, juntos. Era fácil recordar-se de um de seus primeiros encontros, quando Raissa desfalecera por falta de uma boa alimentação.

            -Mas, sabe. Estou menos controlada, ultimamente.

            -Como se precisasse de tanto controle.

            -E você, malhando ainda?

            -Não pensei nisso nos últimos tempos.

            -Você? – e Raissa lançou-lhe um olhar de dúvida.

            -Está certo, só pra manter.

            -Hum, sei.

            Longa pausa. Os dois olharam-se, voltaram os olhos para a mesa e terminaram o suco. Maurício foi o primeiro a mirar novamente sua companhia. Como ela era bonita à luz do dia, num simples jeans azul, blusa em tom pastel e o rosto sem nenhuma maquiagem.

            -Por que me olha tanto? – vinha Raissa, surpreender seu admirador.

            Ainda que faltassem as palavras certas, Maurício tentava explicar-se:

            -Por que? Bem, acho que acordo romântico de vez em quando.

            -E?

            -Hoje foi um dia desses em que até o barulho chato do passarinho à janela te acordando de manhã parece ser a melhor música do mundo e parar em algum engarrafamento, serve de inspiração pra inventar poesias.

            -Você, inventando poesias? Bem, e quando olhar pra mim se relaciona a tudo isso.

            -Quando a gente vê que por alguns minutos que sejam, podemos ter a quem se ama por perto, ainda que por pouco tempo e só pra olhar, assim como eu olho pra você agora.

            Caso Raissa não tentasse ser racional, como se esforçava para ser, teria o beijado na mesma hora, pois essa era sua vontade – sem medo de si mesma – mas não foi o que fez, preferiu abster-se, levantar e sair:

            -Preciso ir. Tenho que…

            -…Ir pra casa, assistir ao filme. Você acabou não pegando nada.

            -Vê o que faz, acabei nem alugando ao filme.

            -Vê o que você faz. Não inventa motivo, dizer que precisa ir e sumir da minha vida.

            Raissa levou a mão ao cabelo, tombando a cabeça para colocar uma das mechas atrás da orelha:

            -Eu não posso fazer assim, começar uma coisa que eu sei que não vai dar certo. Eu não programei te ver tão cedo.

            –Tão cedo? Então tenho esperança de um mais tarde, talvez.

            -Eu…Não sei se…

            -Não diz – Maurício calou suas palavras, com um terno e longo beijo de amor.

            Roubar um beijo da mocinha da história era algo que nosso Romeu às avessas acostumara-se a fazer, contudo dessa vez era diferente, não receberia um tapa como recompensa. Era um beijo de amor, pensava ele, de verdade.

            -Então, eu posso te ver mais tarde?

            -Bem, telefona.

            -Telefona? Não, vamos ficar nisso de telefonema e…

            -…E o que? – perguntava Raissa, intempestiva.

            -Certo. Eu ligo.

(Continua)

Mais uma de amor – Parte 2.7

             Mais uma de amor – Parte 2.7

            (…)

              Banheiro feminino, com alguns espelhos a mais e um aglomerado de garotas buscando o melhor ângulo e:

            -Falando deles, Elisa. Não merecem tanta atenção assim da nossa parte.

            -Por que não? O Tony até que se saiu bem. Está certo, demorou pra se ligar, mas entrou na minha.

            -Entrou na sua? Achei que gostasse dele.

            -Não, gosto, claro. Mas gosto de atitude também.

            -Entendo. Bem, vamos indo que está circulando muita gente aqui.

            -Ainda não se acostumou à “muvuca” da balada?

            -Não sou de sair muito, você sabe.

            -E o Maurício, o viu por aí?

            -Nada. Melhor assim, vou acabar arrumando problemas sem necessidade.

            -E aquele amor todo?

            -Não, não. Fiquei impressionada, claro. Passar essa vergonha por minha causa?

            -Ninguém sabe quem é um tal de Maurício que mandou um recado pra uma tal de Raissa. Pena que você saiba disso, Rá.

            -O que?

            -Oi, Raissa. Tudo bem?

            Já haviam saído do banheiro, certamente. A Fera da Zona Sul não seria capaz de tal ousadia, ainda que fosse bastante impetuoso, sabia o seu lugar, e ficou esperando a garota voltar, apoiado ao balcão do bar:

            -Tudo ótimo.

            -Bem, eu fiquei esperando que viesse falar comigo. Veio para isso?

            -Quanta pretensão. Está louco mesmo. Sabe que eu estou acompanhada, Maurício.

            -É, notei. Mas estamos entre amigos.

            -Você está me vendo como uma das garotas que sai com você, assim por uma noite e pronto. Engana-se muito.

            -Melhor eu ir saindo, o clima está esquentando muito por aqui – adiantava-se Elisa.

            -Fica, Elisa.

            -Ok.

            -Não vou fazer nada, Rá. Só de te ver, está bom.

            -Pode tirar a mão do meu braço?

            -Algum problema, Raissa?

            -Não, nada. Seu amigo veio me cumprimentar, só isso.

            -Maurício?

            -E ai, cara?

            -…

            -Puxa, não vai nem cumprimentar?

            -Maurício, área. Vai embora – Antônio tentava amenizar a atmosfera estabelecida.

            -A gente veio pra se divertir, primo. Fica na boa. O cara deve estar mal por causa do caso com a garota. Ouviu uma declaração de um “certo” Maurício? Até me emocionei com o discurso.

            -Não liga, ele está bêbado. Não tem noção do que está falando.

            -Elisa, desculpa. Mas você está vendo o estado dele. Ligo pra você amanhã. Desculpa.

            Tony esforçou-se até levar o primo para fora da casa noturna, notando os ares de desconfiança e o rosto ruborizado de Luca, pelo tom efervescente da situação.

 

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             Chegada ao condomínio onde morava Raissa. Poucas palavras e tentativas de alguma explicação para os transtornos da noite:

            -Boa noite.

            -Espera, não me deixou falar nada.

            -E precisa? Aceito a derrota, numa boa. Eu não seria capaz de um circo como o que o Maurício armou. Sabe que posso escutar ainda as gargalhadas do palhaço pra platéia?

            -Não fala assim. Só complica as coisas, por favor.

            -Por favor, digo eu, Raissa. Estou cansado, com sono. Depois a gente pode se falar e pronto, resolvido.

            -Mas…Droga! Estraguei tudo, não foi?

            -Você estava indo bem. Mas “estraguei tudo” não combina contigo. Preferia a versão madura.

            -Vai me ofender agora? Eu não cheguei lá e disse: “Maurício, eu te amo”.

            -Só faltava essa. Acho que te levei pra lugares interessantes, te…Caramba! Eu batalhei por você.

            -Batalhou? Ah, está certo. Vai ficar mal dizer que perdeu para o seu amigo?

            -Por que? Perdi? Obrigado por me informar. Acho que agora você me dá um beijo no rosto, fecha a porta do carro e começa a chover. Eu saio na chuva, desesperado, e te dou um beijo de quebrar a espinha. Só que você me pede desculpa, fala que não manda no próprio coração e seca uma lágrima que surge do nada no canto de um de seus olhos e eu, como um bom personagem secundário, volto para o carro e desapareço na estrada, ainda que estejamos numa rua residencial. Mas tudo bem.

            -Eu queria muito que fosse por aí, porque seria mais fácil. E não é, claro. Prefiro dizer que esperei ser como na adolescência, aquela garota idealista, que voltou das férias e não contou sobre o guri do sul nem pra melhor amiga, porque acreditou, melhor, acredita, ter vivido uma história de amor como a dos livros, em que infelizmente os dois se separam no final e a gente vibra por um instante, esperando não ser a última página do romance e chora ao ver que acabou.

            -Por favor, eu não queria te fazer chorar. Não eram esses meus planos.

            Raissa respirou fundo, olhou em seus olhos profundamente como da primeira vez e beijou-lhe os lábios, sem medo. As bocas se separaram, a porta do carro foi fechada.

            -Raissa, está chovendo.

            -Eu sei.

            -Melhor você entrar.

            Um último olhar e acabou-se. Luca não desceu do carro para lhe dar um beijo de quebrar a espinha, deu a partida no automóvel e seguiu.

            Foram as férias de meio ano mais longas por que Raissa passou, ainda que continuasse o expediente no trabalho da agência e tentasse se entreter em suas leituras, principalmente dos romances antigos de colégio. Lembrou-se até da Capitu de Machado, mas acreditava não ter a personalidade enigmática da personagem, afinal, falava o que queria sem medo da reação de quem quer que fosse e é certo, se feria por isso e sabia não deixar o próximo sem algum arranhão. Foi por isso que tentou ligar para Luca algumas vezes, deixar recados os quais não tiveram respostas, nem acenos de uma flâmula branca.

            -É, deve ter pegado pesado com o guri.

            -Não dava pra eu mentir, certo?

            -Talvez tenha sido melhor assim. Você…

            -Você? Eu, claro. Se foi melhor eu não sei, pois sempre há possibilidades de finais diferentes para as histórias, mas foi assim e pronto.

            -É, foi assim e pronto. Não vai adiantar ficar se martirizando, mostrar arrependimento.

            -Arrependimento de que? Não fiz nada que não quisesse ou fosse preciso. Olhei o começo de tudo…

            -Você quer dizer do namoro relâmpago entre você e o Luca?

            -Isso, Elisa. Olhei o começo de tudo com os olhos daquela adolescente apaixonada e terminei como tinha de ser, numa postura madura.

            -Madura?

            -Madura sim, não foi?

            -Você pergunta pra mim? Achei que a criança da história era eu.

            -Bem, todo mundo tem seus momentos.

            -Claro, até a miss Perfeição.

            -Perfeita não. Nunca tive essa pretensão.

            -Ainda bem.

            -Por que?

            -Não agüentaria conviver com mais essa – e Elisa soltava uma de suas gargalhadas.

            -Definitivamente, não. Nem eu me agüentaria.

            -E amanhã? Volta pra faculdade?

            -Com certeza. Não via a hora de ocupar mais minha cabeça com coisas sérias.

            -E sua vida não é coisa séria?

            -Tenho cá minhas dúvidas.

Mais uma de amor – Parte 2.6

Mais uma de amor – Parte 2.6

A noite parecia perfeita para fortalecer relacionamentos e causar ensejo para novas aventuras românticas de nossos personagens, ou, diga-se, reviver situações quase boas se não fossem os entraves de um passado recente e de certa forma, desagradável:

-Desculpa.

-Não foi nada…Espera – Elisa olhou o rosto do rapaz com mais cuidado – Antônio?

-Isso. Elisa?

-Não?! Claro! Tudo bem?

-Tudo e você?

-Beleza. Quer saber, melhor sair da pista pra conversar direito, está bem?

-Beleza. Vem.

Antônio puxou Elisa pela mão, naturalmente, sem nenhuma segunda intenção aparente, que transparecesse algum interesse mais profundo. Uma balada, um suco, uma bebida, nada que não saísse do terreno amistoso comum entre jovens saudáveis e solteiros.

-E então, não vai me dizer que veio sozinho pra balada?

-Não, o Maurício está aí também. E um pessoal do escritório.

-É, posso imaginar. O Maurício deve ter arrastado você pra cá, acertei?

-Não. Nos últimos tempos eu que agito esse tipo de coisa.

-Agita, sei. Difícil de acreditar.

-Por que?

-Nada.

-Nada…Fala.

-Não acredito que vou ter que falar isso. Mas, lá vai. Primeiro, a gente se vê de novo depois de anos, aí saímos pra jantar, você me leva pra casa e nada. Nem…

Antônio não esperou Elisa terminar de falar, interrompendo a velocidade alta em que soltava suas palavras. Ele a beijou por alguns instantes, ele a beijou, sozinho, sem correspondência.

-O que você está fazendo? Alguma coisa mudou depois desse tempo todo?

-Você que pode dizer.

-Está bem, vou adivinhar. Você me achou uma garota ótima, mas estava a fim de curtir o carnaval, acertei agora?

-Quase. Conhece a palavra respeito? Não queria a história de uma noite e acabou.

-E você acha que eu sou como, como as garotas que seu priminho e você estão acostumados a conhecer por aí?

-Não, mas você é filha do amigo do meu pai.

-Então você se lembra bem de mim?

-Depois de pensar um pouco e rever umas fotos.

-Férias de julho de alguns anos atrás?

-Isso. Antes da viagem pra Inglaterra.

-Sei, lembro bem do intercâmbio.

-Eu sei.

-Sabe? Por que?

-Porque você lembrou de mim, não sou um bom motivo pra ser lembrado?

-Você está convivendo muito com o seu priminho.

-E isso é bom?

-Ainda não sei.

-E o que você acha de tentar?

-Tentar?

-Quer me namorar?

-Não.

-Não?

-Desculpa, mas preciso de um tempo para me acostumar a um rapaz tão…

-Tão certinho.

-Vejo que se conhece.

-Um certinho pode ser bem agradável, ou não gostou?

-Fala do beijo?

-…

-Melhor começar de novo.

Finalmente, Elisa conseguia começar um romance sem atribulações como o de Raissa. Uma fase de calmaria parecia se fazer presente na vida das velhas amigas. A fase, porém, poderia ser de bons encontros, todavia não necessariamente de um grande amor. Isso não era fato determinante para pessoas acostumadas a deixara a vida acontecer, com pequenas interferências firmes perante as relações desencadeadas ao passar do tempo, pessoas assim como Elisa que eram das que beijavam de olhos abertos sem se punir por não estar sendo romântica o suficiente, mas capaz de se apaixonar em um instante e batalhar por isso, sem medo.

-Aquela é a Lisa?

-Acho que sua amiga se arranjou.

-Hei!

-Desculpa, mas tu, digo, você sabe.

-Sei o que? Ela está solteira, veio sozinha, qual o problema?

-Nenhum, falei demais.

-Eu também acho. Mas dessa vez passa.

-Está bem. Quer saber, acho que ela está certa. Tem que aproveitar a noite.

-Isso, aproveitar a noite. Vamos dançar?

-Não, eu falei de aproveitar a noite.

-Eu também. A música está ótima e eu já acabei o meu suco. Vamos.

Blackout total e nada do som do dj tocar. Algum som de microfonia e uma única voz, invadindo o ambiente:

-Fala, galera! Felizmente a noite não acabou, é só um minuto de silêncio dedicado ao fim de um grande amor entre Maurício e Raissa. Volta pro cara, menina. Valeu! Vamos de som!

E tudo voltava ao normal depois de burburinhos e vaias dos presentes. Ou quase, Luca iria querer alguma boa explicação para o que acontecera:

-E então?

-E então o que? Só há uma Raissa aqui, esta noite?

-Você vai concordar que seu nome não é assim tão comum?

-Cara, a noite está ótima, nos divertimos até agora e você vai querer explicação do que, não estou com você?

-Até quando?!

-Dá pra falar baixo?

-Quem se importa se eu estou gritando?

-Eu me importo. Você vai estragar tudo agora?

-Tudo o que?

-Quer dizer que a gente estar junto não é nada?

-Eu não quis dizer isso. Desculpa.

-Desculpa, simples assim?

-Simples assim? Ou vai querer que eu me ajoelhe ou peça para o dj baixar a música pra eu te fazer uma declaração?

            -…

            -Desculpa, vai? Não vai acontecer de novo. Agora eu acredito, pode ser qualquer uma aqui chamada Raissa.

            -Sabe que, agora, eu acho que não? E adoraria se alguém tivesse feito isso por mim.

            -Seu humor voltou, de repente?

            -Pois é.

            -Calma gurizada, não vão brigar à toa – chegava Elisa tentando amenizar o clima entre o casal – Que tal voltar pra pista?

            -Quem disse que estamos brigando, Lisa? Eu estou ótima. Sério mesmo, estou ótima.

            -Raissa, vamos conversar. A gente sai, vai para outro lugar.

            -Depois, pode ser. Já volto, preciso ir até ali com a Elisa. Se importa…Tony?

            -Oi, tudo bem?

            -Tudo bem. Vamos, Elisa?

            -Acho que vocês são sociáveis o bastante para conversarem, certo? Tony e Luca, apresentados.

            -Raissa, vou contigo. – impunha-se Luca.

            -Até o banheiro?

            Luca mostrou-se sem graça, mas com ares de algum mau humor, ainda presente, resolveu esperar por ali, afastado da pista de dança:

            -E aí, beleza?

            -Luca, beleza cara.

            -Caramba! Está até parecendo coincidência de filme, cara. Outro dia encontrei o Maurício, num restaurante.

            -Legal.

            -E ele, veio pra cá também?

            -O Maurício? É, não sei. Não falei com ele hoje, sabe.

            -Ah, está certo.

            -E a guria, faz tempo que estão juntos?

            -Não, começamos hoje. Eu acho.

            -Acha?

            -Sabe como são essas coisas. A gente está junto hoje, mas pode não estar amanhã.

            -Pessimismo seu.

            -Pessimismo, não. As relações não costumam durar tanto, quando ainda podemos considerar assim. Acho que eu e a Elisa temos de nos conhecer bem, pra saber se é pra valer.

            -Complicado. Eu e a Raissa estamos caminhando, eu acho.

            -Viu o que disse? Eu acho…É assim mesmo.

            -Agora as duas devem estar lá retocando o batom.

            -Não, talvez falando de nós.

(Continua)