Mais uma de amor – Parte 2.3

            Mais uma de amor – Parte 2.3

            -Não está com frio, guria?

            -Luca. Não, não acredito. Me deixa sozinha.

            -Por que? Eu te faço mal?

            -Não é isso. Você sabe.

            -Sei de que?

            -Primeiro o beijo à força e depois ainda vejo você aqui.

            -Infelizmente se a minha presença te incomoda, não posso fazer nada. É a festa dos meus pais.

            -Eu sei disso, não precisa me lembrar.

            -E eu sou o grosso?

            -Desculpa.

            E Raissa virou-se para ele, como nos momentos de clímax dos filmes, em que a mocinha levanta o olhar timidamente e se cala, sem ao menos suspirar. Luca acariciou seu rosto e a trouxe para si, tomando-a nos braços e a beijando longamente, sem resistência de uma das partes. A garota sentia-se privilegiada por não morrer da febre que acomete Teresa no romance de Castelo Branco, já que o calor de sua repentina paixão era abrandado ao estar entre os braços de seu suposto amado.

            Com os olhos marejados, já abertos, Raissa afastou-se e cobriu o rosto com as mãos, de vergonha ou quem sabe, charme pensado dos encantos femininos despertando na transição de menina em mulher.

            -Não posso.

            -Raissa – a mãe a chamava de longe.

            -Preciso ir. Eu…

            Mais um beijo roubado daqueles lábios sem mácula.

            -Acredita em amor à primeira vista?

            -Não, aliás, não é a primeira vez que me vê.

            -Mas é como se fosse, guria.

            -Guria…

            -Raissa!

            -Preciso ir embora, agora. Minha mãe está chamando.

            -A gente se fala?

            Raissa beijou-lhe a face, como dois amigos a se despedirem. Nada mais.

            No dia seguinte, a garota passou com os pais rapidamente numa loja para comprar chocolates e se foram. O trabalho aguardava Pedro em São Paulo e Ana Clara também tinha seus afazeres acerca da colaboração dedicada junto à irmã num bufê e Raissa deixaria de contar algumas partes peculiares da viagem de Gramado às amigas, como um segredo ou uma recordação para ser descoberta muitos anos depois num diário encontrado inesperadamente ou a ser um assunto em pauta após acostumar-se de novo à rotina de trabalho e estudo e ter tempo para pensar em assuntos específicos que se remontavam a seu presente.

          Luca voltou a São Paulo com os pais, mas tinha preocupações novas para ocupar sua mente, como levar adiante o segundo semestre da faculdade de economia e finalmente, passar a auxiliar o pai nas atividades do escritório. Há muito que o pai insistia para que começasse a trabalhar com ele, tanto que por influência do pai, o rapaz optara pela Economia como carreira.

            A leitora pode esperar que agora venha o desfecho mais comum do formato, o rapaz esquece a moça e a toma como mais uma aventura entre tantas em sua vida. De fato, Luca demoraria a retornar um contato mais próximo com Raissa, porém nada baseado num machismo habitual ou numa molecagem de um quase adulto. A idade vinha em tom imperativo, a aconselhar-lhe aproveitar mais da vida abastada e tranqüila entre noitadas com os amigos e companhias voláteis como o álcool. Ainda que de tempos em tempos o rosto daquela guria linda viesse em seus pensamentos, não durava mais que segundos fugidios, tempos os quais pairariam como uma eternidade para a garota paulistana de quinze e frágeis anos de idade.

        -E você me mostra este diário agora, Rá?

       -Claro! Depois, você logo foi pra Inglaterra e eu esqueci disso por um tempo. Mas agora ele liga e volta tudo.

       -O que? Gostar dele?

       -Não, isso eu não digo. Mas a história toda, ele beijava muito bem.

         Elisa soltava uma gargalhada rasgada, boa de se ouvir, mesmo temperada de um certo sarcasmo:

        -Só você, Raissa. E o Mau, esqueceu?

         -Não, claro que não. Quer dizer, não, só não, esqueça o “claro que não”.

         -Tudo bem. Já foi enfática o bastante para me convencer de que foi exatamente o que disse.

        -Não ria.

        -Parei, parei.

       -Sabe que no começo eu não dei a mínima, mesmo.

      -Acredito.

      -Certo, mais ou menos. O problema é que pensei que não ia sentir nada. Além disso, foi uma coisa sem jeito, ele ficou olhando a gente dançar e depois, você sabe.

      -O beijo.

     -Se fosse só isso. Me arrependi de ter me arrependido, compreende?

     -Sempre te compreendo ou tento. Alguma vez te deixo sem algum comentário a respeito?

     -Não, pra minha sorte.

     -E às vezes azar meu. Doeu a bofetada que eu levei.

     -Desculpa.

     -Já foi. Esquece. E quer saber, acho que você devia deixar o de Campos na dele e investir no Mau. Esse tal de Luca aparecer assim, do nada. No mínimo, estranho e inconveniente.

     -Não é Campos, Lisa. A cidade chama-se Gramado.

    -Gramado, Campos…Se o problema fosse o nome da cidade?

    -Já estava tudo resolvido. Mas não é. Acho que se eu vir ele, dou uma balançada.

     -Só marcar um encontro. Verifica o número no identificador de chamadas.

     -Não, espero ele ligar de novo. E quem sabe, o Maurício aparece e…

      -Leva quem chegar primeiro?

     -Hei, sem essas. Não estou a prêmio, não.

     –O que? Achou minha roupa um pouco exagerada?

     -Não, acho que são seus cabelos.

      –Meu cabelo?

     -Até que sua imitação do Maurício não está tão ruim assim.

     -E que tal: Oi, guria. Tu sentes minha falta?

     -Essa foi péssima. Talvez eu tenha acostumado com o Gim.

     -O Mau?

    -Claro! Ou acha que eu sou de tomar gim e cuba libre?

    -Eu diria que você bebe água – e Elisa ria-se.

 (Continua)

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