Mais uma de amor – Parte 2.2

Mais uma de amor – Parte 2.2

           -Raissa, já voltou?

            -Não, estou lá ainda.

            -Que mau humor, filha. Nem depois de um mergulho, você se acalmou?

            -Grande mergulho, mãe. Agora me dá licença que eu vou tomar um banho.

            Dali a duas horas estavam todos prontos para a festa, exceto por um motivo:

            -Mãe, viu minha pulseira?

            -Que pulseira?

            -A que eu estava usando quando cheguei.

            -Não. Você não guardou?

            -Não, mãe. Quer dizer, não lembro.

            -Filha, você está ótima assim. Chega de balangandã.

            -Balangandã, pai? É a pulseira que a vovó me deu.

            -Tudo bem, querida. Depois eu ajudo você a procurar. Agora, vamos senão chegamos atrasados.

            -E tem horário para chegar em festa, pai?

            -Raissa, por favor.

            -Está certo. Vamos.

            Todos prontos, elegantes como pedia a ocasião. Quarto, saguão, carro, estacionamento, enfim chegaram. Do lado de fora do salão já se percebia a decoração rebuscada e detalhada, nota de Ana Clara, admiradora dos requintes de uma festa bem organizada.

            Alice logo veio recebê-los com o semblante alegre, buscando deixa-los à vontade, pois eram poucos os convidados os quais conheciam de fato. A senhora e o esposo, senhor Roberto, agradeceram pela vinda e diziam de sua alegria em compartilhar um momento tão importante com os amigos. Lamentavam não virem seu filho, que provavelmente estaria ocupado em divertir-se com os primos, os quais não via há algum tempo.

            Houve um cerimonial simples presidido pelo mesmo padre que realizara o casamento de Alice e Roberto, naquele mesmo salão. Marcava-se, desta forma, mais um motivo para terem dado preferência em voltar a Gramado, para a comemoração da data.

            Terminada a reafirmação dos enlaces do matrimônio, o salão tomou-se pela música da banda responsável pela animação da festa e aos poucos os casais foram se avolumando na pista sob o som dos ritmos essenciais de um crooner, boleros, tangos, valsas e um medley dos sucessos de cada década, comum em qualquer festa em que se reuniam várias faixas etárias. O som não desagradava a Raissa, mas ela reclamava da falta de companhia de pessoas conhecidas e passava a maior parte do tempo sentada à mesa:

            -Posso me sentar?

            -Você de novo? – indagava o garoto que vira na piscina do hotel.

            -De novo? Não sei por que o estranhamento, esta é a festa dos meus pais ou você não se lembra de mim?

            -Ai, que vergonha. Então você é o filho da dona Alice, o…

            -Luca. Eu me lembro bem de você, a guria chatinha que minha mãe achava uma graça.

            -Ela dizia isso é?

            -Dizia e até que eu não concordava na época, mas agora…

            -Agora?

            -Tu sabes.

            -Pena não poder dizer o mesmo. E diz uma coisa, se a festa é da sua mãe por que estava no hotel e por que fala mais ou menos como as pessoas daqui, que eu saiba você mora em São Paulo com os seus pais.

            -Uma coisa de cada vez. Primeiro, o hotel é de um tio meu, nada mais natural eu usar a piscina de lá e depois, quando venho pra cá, acostumo de novo com o jeito de falar.

            -Entendo.

            -Por que baixa os olhos assim, cinicamente?

            -Eu, cínica? Só me faltava essa…

            E quando ia levantar o tom de voz:

            -Olá, crianças. Vejo que lembraram um do outro apesar do tempo que passou. Ela não está linda, Lú?

            -Está, mãe.

            -Só não quero que fiquem aí parados. Venham dançar um pouco e depois a Ana Clara e o Pedro querem te ver.

            -Daqui a pouco eu vou, mãe.

            -E eu acredito? Venham.

            Alice os fez levantar e deu-lhes o braço, encaminhando-os à pista. Não havia como escapar de um pedido de uma senhora tão simpática e educada.

            -Então, Lú, sabe dançar?

            -Ri mesmo, guria. Pelo menos assim você não me escapa.

            -Uma dança e acabou-se. E pare de me chamar assim, eu tenho quinze anos.

            -Uma guria.

            -E você, quantos anos tem?

            -Dezoito, por que? Seu pai não gosta que namore caras mais velhos?

            -Namorar. Você é louco mesmo ou andou bebendo aqui na festa.

            -Sou um atleta, não bebo.

            Os casais aplaudiam ao final de mais uma música:

            -Acabou, né Lú? – e Raissa frisva o apelido. Valeu!

            -Não, não acabou. Fica comigo.

            -Tchau!

            Luca a impedia que voltasse à mesa, segurando sua mão:

            -Não vai.

            -Solta senão eu dou um escândalo aqui.

            -Não precisa. Vai, vai embora!

            -Grosso!

            -Preferia o jeito antigo, então vem cá.

            Luca acariciou-lhe o rosto e deu-lhe um terno beijo na testa:

            -Desculpa.

            -Tudo bem.

            Raissa foi caminhando, lentamente, até a mesa e sentou-se. Num único gole, tomou o copo cheio de refrigerante servido por um dos garçons e mordiscou os lábios, como fazia ao estar nervosa, ao isolar-se num dos cantos do quarto:

            -Aconteceu alguma coisa, querida?

            -Oi, mãe. Não aconteceu nada. E você, cansou de dançar?

            -Também. É que o Roberto chamou seu pai para tomar um uísque com ele e está lá no maior bate-papo.

            -E a dona Alice?

            -Já nos falamos de novo. Ela ficou de mostrar o Luca. Disse que está tão diferente.

            -Está mesmo – dizia Raissa num tom baixo de voz.

            -Como, Raissa?

            -Não, nada. Olha a dona Alice acenando pra você. Está com o filho ali.

            -Vem comigo.

            -Não, já nos vimos. Vou ficar aqui tomando um refrigerante.

            -Mas seu copo está vazio. Depois você…

            Um garçom passava à mesa servindo mais bebidas.

            -Obrigada. Acabou de vir outro. Vai lá, mãe.

            -Tudo bem. Já volto.

            Raissa não queria era olhar para Luca, novamente. Não que estivesse com raiva do rapaz, pelo contrário. Tinha era medo de não resistir a seus encantos, como na piscina do hotel, quando se beijaram.

             A garota levou a mão até o copo de refrigerante, tomou um pouco, secou a boca com um guardanapo e levantou-se. Dirigiria-se a parte externa do salão, onde não havia ninguém devido ao frio marcante. Mais tarde, a garota escreveria em seu diário que havia sido o dia mais frio de sua vida e o mais quente de seu coração. Coisas de adolescente, ou sinais da influência dos poetas lidos para o colégio.

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