Mais uma de amor – Parte 2.1

Mais uma de amor – Parte 2.1

 Eram as bodas de dona Alice, uma das clientes do escritório de contabilidade da família. Nos seus quinze anos de vida, não havia aniversário ao qual a senhora não comparecesse, ao menos a garota lembrava desde seus cinco anos quando ganhara uma bela boneca – merecedora de um canto especial numa das prateleiras do quarto.

 Sempre atenciosa, Alice, entregava seus livros contábeis há muito a Pedro, pai de Raissa, e cultivara grande estima por ele e sua esposa, Ana Clara, ultrapassando a relação profissional entre os mesmos. Entretanto eram poucos os momentos em que se encontravam em confraternização, devido a correria cotidiana e restavam as datas festivas para tal propósito. Alice falava muito no único filho que tivera, mas raras eram as vezes em que o viam, já que o garoto dava-se às viagens com os amigos e acampamentos com um  grupo acostumado à prática. Se vissem o rapaz, já com dezoito anos, dificilmente o reconheceriam.

O dia da festa, um sábado de tempo nublado dos dias frios de julho, tornava-se um tanto mais gélido nas terras do sul, mais especificamente, Gramado. A família daquela que confirmava um casamento de vinte e cinco anos, concentrava-se na cidade, a qual abandonara para seguir o marido e acompanhá-lo em seus negócios. Tudo colaboraria para uma viagem proveitosa, mas Raissa não sairia dos limites do hotel até o momento da festa.

-Pai, por favor, eu vou sozinha andar um pouco por aí. Sem problemas.

-Não, Raissa. Amanhã, vamos todos.

-Se o cansaço deixar, não é Pedro? Pretendo aproveitar a festa até o fim.

-Bodas de prata. Festão, hein mãe?

-Menina! Menos, menos, como você mesma costuma dizer.

-Droga! Amanhã acordamos quase na hora do vôo e perdemos uma boa oportunidade de diversão.

-Como se não saísse nunca, Raissa.

-Tudo bem, mãe. Eu saio. Mas não dá pra comparar ir ao shopping com uma viagem.

-Viagem rápida, querida. Viemos apenas prestigiar a Alice e o Roberto.

-Amigos de vocês, papai.

-Poderia ter mais respeito pelas pessoas que sempre te quiseram bem, minha filha. A Alice sempre procura te agradar.

-Aham.

-Aham?! Raissa, faz um favor.

-O que?

-Pega seu maiô e vai até a piscina um pouco, ainda dá tempo de ir antes da festa. Aí você se diverte e pára de arrumar problemas onde não há.

-Água gelada?

-A piscina é aquecida, seu pai perguntou no saguão logo que chegamos, não ouviu?

-Está bem. Vou lá, então.

-Cuidado com a profundidade. Não se arrisque.

-Pai, eu sei nadar. Esqueceu?

-Não, não esqueci. Só que cuidado nunca é demais.

-Está bem. Até!

Havia poucas pessoas na piscina e Raissa acabara não se animando para dar um mergulho. A garota ficara apenas sentada numa das esteiras observando a movimentação para se distrair e brigar consigo mesma, em pensamento, por não ter aceitado o convite de Elisa para passar o fim de semana numa chácara próxima a serra da Cantareira, em São Paulo mesmo. Não iria longe de casa e estaria aproveitando bem as férias do colégio.

 -Olá. Tudo bem?

-Eu te conheço, garoto?

 -Puxa! Pra que ficar tão emburrada, guria?

  Raissa o observou com mais atenção e já se arrependia de seus modos hostis, não percebeu que o rapaz lhe fizera uma pergunta e confundiu-se em seus pensamentos:

 -Bonito.

 -Como, Bonito? É seu nome?

  -Não, você…Digo, Raissa. Raissa é o meu nome.

   -E então, Raissa? Passando férias por aqui?

    -Vim pra uma festa de uns amigos, amigos dos meus pais na verdade.

    -Sei. Será que eu podia te pedir uma coisa?

   -Pedir o que?

   -Isso.

 Um beijo roubado. Inocentemente roubado e correspondido. Era um dos primeiros momentos em que Raissa sentia o mundo escapar de seu controle e sua firmeza esvaía-se como os grãos de areia de uma antiga ampulheta.

  -Você está louco?

  -Louco? Mas tu…

   Um tapa de arrependimento.

  -Ah, não gostou do beijo?

  -…

  -Pensou demais. Tu deves é estar precisando de um caldo pra esfriar a cabeça.

  -Não! Me solta!

  Tarde para esboçar alguma reação contrária. Os dois emergiam ensopados de dentro da piscina:

 -Demente! E se eu não soubesse nadar?

  -Eu te salvava.

  -Ah, beleza. Quer saber? Da próxima vez que você fizer isso, eu…

 -Então vai ter próxima vez? Tri-legal!

 -Não acredito. Eu estou saindo fora.

 -Nem mais um beijinho?

-Vai ver se eu estou na esquina.

Raissa nadou até a beira da piscina e tomou o caminho do quarto, sem nem olhar para trás. Nada mais maduro para uma menina de quinze anos.

(continua)

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