Mais uma de amor – Parte 2.5

Mais uma de amor – Parte 2.5

(…)

-Oi, Elisa. Sabia que era você.

-Nossa, que moça intuitiva!

-Ah, só pode estar brincando. Alguma vez deixou de me ligar depois de um evento importante?

-Não, claro. Mas, espera…Você chama o garoto de “evento interessante”?

-Garoto? Está longe disso.

-Progressos. Resolveu esquecer de vez a Fera da Zona Sul?

-Calma. Na verdade, resolvi tentar investir um pouco mais nessa coisa de relacionamento, como você diria.

-Eu acho que eu diria quase isso, essa coisa de relacionamento em que você pode se enrolar.

-O que você está pesando? Não é assim, não. Sou uma pessoa séria.

E como pode se esperar de jovens amigas, Raissa acabou por contar a Elisa o encontro, em seus aspectos mais marcantes e necessários para que ela entendesse a situação. Elisa ria muito ao outro lado do telefone e não ajudava, verdadeiramente, na resolução dos conflitos, mas era uma boa pessoa para os comentários irônicos e em animar aos que se preocupavam demais com algumas questões inadiáveis, presentes na vida de qualquer um, como um dia se apaixonar e perceber que nem tudo está sob controle.

-Tudo sob controle, Tony. Ou acha que eu sou louco de pular de uma ponte?

-Acho que nem assim ia quebrar o seu topete. Já pensou em algo como uma assinatura de gel, para baratear?

-Você está ficando muito engraçado.

-Aprendendo com você. Mas fala rápido, porque eu estou no trânsito.

-Beleza, cara. Pode ir pra aquela lanchonete do lado da academia?

-Está, mas jogo rápido. Amanhã trabalho.

-Administrar os negócios do papai é tão difícil assim?

-Pára com isso. Eu trabalho. Vou desligar, até mais!

E Elisa não tardava com seus conselhos, ao telefone:

-Isso, Raissa! “Mas vale um pássaro na mão…”.

– “… Que dois voando”. Faz um tempo que não ouço esse ditado, mas tenho que concordar com a frase, palavras sábias.

-Eu acho que tem de arriscar. O guri não é legal?

-Fora me chamar de mimada, até que acho. E foi especial, sabe?

-Saquei! – e ria-se.

Na lanchonete o riso não era recebido com naturalidade, visto que Maurício tinha perdido suas horas de prazer e os momentos de escapismo:

-Engraçado, né? Claro, não é com você.

-Sério, cara. Não tem como não dar risada, quem já pensou um cara como você vir se lamentar com alguém por causa de uma garota?

-Garota, ela é uma mulher linda.

-Olha só, até suspirar você suspira.E a Verônica, não pode ser?

-A Verônica? Não te falei do que ela fez no restaurante?

-Sim, falou. Só que ela sempre volta, numa boa. Sem medo de ser feliz.

-Lá vem você com essas frases prontas. Sem medo de ser feliz. Medo, eu?

-Tudo bem. Falando sério, agora, esquece a garota. Volta para a Verônica e se diverte. Ninguém volta no tempo. Daqui a pouco, já foi! Não volta mais!

-Fácil, fácil…Já me diverti com a Verônica, sim, esse tempo todo que estamos juntos.

-Então?

-Então que não rola mais isso. Ir ficando só…

-Só por…

-Você sabe. A Verônica é passado, foi presente esse tempo, mas não é futuro. Daqui a pouco, ela mesma vai cansar disso ou vai achar um cara legal de verdade e pronto. Bye, bye, Mau!

-Você está mal mesmo. E o outro não reclamou de você ir falar com a Raissa?

-Sabe o Luca?

-O que tem ele?

-Ele era o outro com a Raissa.

-Cara, ficou mal pra você. Até ia dizer pra você investir mais, insistir quem sabe, mas assim. O Luca…Já era!

-Quem disse? Eu não sou homem de desistir assim, não.

-E então?

-Aguarde. A fera atacará novamente.

Poderia ser, até que de algum modo, simpático o jeito como Maurício procurava resolver seus problemas e encarar a vida, suavemente, sem desesperar-se. O curioso, porém, é que embora safo para sair de certos limites impostos pelos atos conjuntos das pessoas, desta vez ele caíra de verdade nos encantos de uma garota, como ele costumava dizer “minha garota”, a questão tornava-se difícil apenas, quando ele lembrava tratar agora com uma mulher inteligente e voltada a assuntos distantes das futilidades, presentes nas noites de companhias agradáveis por algumas horas de lazer – a que se acostumara no cenário amoroso.

Os dias seguintes transcorreram naturalmente nas vidas de nossos personagens, com direito às rotinas de trabalho e estudos a que estavam acostumados. Raissa empenhava-se ao máximo no trabalho e na faculdade, aproveitando os intervalos para as conversas agradáveis com os amigos.

E como se tratava, ainda, de um namoro recente – era assim que Raissa costumava referir-se a seu relacionamento com Luca – uma balada junto com os amigos da faculdade não cairia mal. Eram quase férias de inverno, julho estava chegando e merecia uma comemoração para os que estavam fechando o semestre da faculdade com boas notas:

-Abalando todas, Raissa?

-Não, não, Elisa. Isso está pra você que está sem namorado.

-Por enquanto, Raissa. Só por enquanto.

-Precisa me falar mais sobre isso.

-Depois te conto. Olha quem vem aí?

-E então, estão curtindo o som?

-Detonando, Luca. Até que o gosto da minha amiga bateu com o seu.

-Bom, Elisa. Muito bom. Vocês nunca vieram aqui antes?

-Não exatamente nessa casa, mas aprovamos a balada da região.

-E você, Raissa, o que achou?

-Gostei. Está ótimo.

-Ah, trouxe um suco pra ti.

-Obrigada.

-Uva. Acertei?

-Na mosca. Progressos, meu bem – alfinetava Elisa.

-Lisa?!

-Estou só elogiando o guri, desculpa, o garoto. Mandou bem. Você não leva a mal, certo Luca?

-Sem problemas. A Raissa já me falou sobre você.

-Estou famosa. Tri-legal!

-Lisa?

-Hora de cair fora. Vou pra pista com a galera. Até!

-Animada tua amiga.

-Muito animada. Mas não liga, fala as coisas sem intenção, entende?

-Entendo. Mas vem cá, vamos passar a noite sem nenhum beijinho?

-Vai dar uma de adolescente agora?

-Quem sabe?

-E se eu não gostar disso?

-Aí não sei, te beijo de novo pra ver se foi apenas insucesso da primeira impressão.

-Já ouviu falar que a primeira impressão é a que fica?

-Já, por isso que eu estou hoje com você.

-Você ainda sabe como me deixar sem graça.

-Só sou sincero. Será que não mereço uma retribuição, uma recompensa?

-Merece um beijo, serve?

Não seria sequer necessário narrar tal cena, beijaram-se longamente e a música agitada não foi capaz de atrapalhar o momento, até porque de certa forma falava de amor – de uma maneira particular a caber em pequenas estrofes e combinar-se com o ritmo dançante.

 

 

Anúncios

Mais uma de amor – Parte 2.4

Mais uma de amor- Parte 2.4

(…)

Academia de ginástica, lugar perfeito para os vaidosos de plantão e para quem se preocupava em manter-se saudável, como Maurício e Antônio, nesta ordem:

-Água, Maurício. É disso que eu preciso agora.

-Não, calma aí. Mais dois e está liberado.

-Um…Dois…Pronto!

-Progresso. Mais algumas sessões de abdominais que você me acompanhar e ganhará um abdome definido, tipo o meu, saca?

-Não preciso de tanto. Estou feliz se continuar em forma.

-E continuar a beber água. Sabe que eu só bebo porque depois venho pra cá malhar e recuperar o que quase perdi.

-Está certo, cara. Agora, vou a minha água. Você vem?

-É, por hoje acabei.

-E então, ligou pra Raissa?

-Deixei recado na secretária eletrônica faz umas duas semanas. Mas como ela nem retornou, estou desistindo.

-Sério? E aquele amor todo?

-Sei lá. Vai ver foi só clima. Acabou.

-Melhor, assim você não deixa prejuízo pra garota.

-Está de sacanagem, eu até pensei que podia rolar algo legal, mas se ela não colabora, não posso fazer muita coisa.

-E sua boca, ainda está assim vermelha. A Verônica pegou pesado, hein? Já era pra estar normal.

-Pegou pesado de novo.

-O que? Vocês…

-Ela sabe o que é um cara carente e não fiz por mal trocar o nome dela.

-E o vermelho na boca?

-Ela está um pouco agressiva nos últimos tempos.

-Últimos tempos? Duas semanas.

-Duas semanas bem animadas. Estou precisando tirar o estresse.

-Sei, sei.

-Sério, sem compromisso.

-Você fala por você, né? Olha quem vem aí.

-Oi, meu amor.

-Oi, Verônica. Tudo bem?

-Tudo. Aonde vamos?

-Estou vendo, ainda preciso passar em casa e tomar um banho.

-Está bem. Vou com você.

-Bem, vou nessa, cara. Até mais!

-Vai pela sombra.

-Esperto você. Falou!

-Ele, por acaso, estava…

-Não estava nada, Verônica. Dá um beijo no bonitinho aqui, vai.

-Não seja por isso.

E o resto não é preciso relatar ao leitor mais atento, que certamente compreenderá o ocorrido.

Passaram-se alguns meses e recados e recados deixados na secretária, após nenhuma resposta para eles, Raissa decidiu retornar uma ligação para Luca e destino ou não, se encontraram no dia 12 de junho, numa cantina italiana que oferecia jantar especial aos enamorados do momento, com direito a buquê de flores na entrada, especialmente para as jovens que um dia haviam apenas rabiscado grandes amores em seus diários.

-Olá.

-Ah, oi. Desculpa o jeito. É que para uma quarta-feira, meio de semana, não dava para me arrumar tanto.

-Imagine, tu, é, você está linda.

-Deixa disso, sabe que acho bonitinho você trocar os pronomes.

Péssima observação a fazer. A questão é que a convivência com os parentes, não deixava que Luca perdesse o costume de usar o tu no lugar de você, como se faz em São Paulo, o que não lhes atrapalhava em nada na comunicação, entretanto poderia parecer preconceito.

-Desculpe, não quis dizer isso. Digo, disse, mas na melhor intenção possível.

-Foi sincera?

-Isso.

-Então fico lisonjeado, certo mina?

-Certo – e ria-se.

-Preferia guria?

-Não, Raissa, sei lá, como quiser. Não vamos discutir por isso, está bem?

-Claro. Vamos?

-Vamos.

Como a cantina não era longe dali, bastaram poucos minutos para que chegassem ao local e tomassem lugar à mesa reservada:

-Ah, reservou lugar?

-Sim, não ia te fazer ficar esperando.

Ponto positivo para o rapaz. E para a moça também:

-Gostei da camisa.

-Obrigado. Foi a…

Não diga que foi a primeira que achou no armário – dizia Raissa em seus pensamentos.

-…primeira que peguei no armário.

-Claro. Imaginei.

-O que?

-Nada. Acho que devíamos pedir.

-E pensou em alguma coisa?

-Quem sabe, uma massa?

Péssima observação número 2, afinal, eles estavam numa cantina italiana.

-Você não perde o senso de humor.

Massa, claro. – concluía a garota por si mesma.

-Só uma brincadeira para descontrair.

Os dois se olharam, sérios, e voltaram-se cada um para seu cardápio, verificado o que a casa oferecia. Realizaram seus pedidos, foram servidos e tiveram de chegar à meia garrafa de vinho para que, de fato, começassem a se soltar, falando mais abertamente. Exatamente como as pessoas que pouco se conhecem, precisaram de tempo para ganhar certa intimidade, posto que conversavam apenas por telefone e pelo menos cinco anos haviam se passado, da última vez em que se viram e:

-…Nos beijamos.

Raissa baixou o olhar, desconfiada, e após uma respiração mais profunda e um sorriso pálido, disse:

-É, nos beijamos. Veja, temos motivos para ficar mais à vontade, agora. Nos beijamos.

-E se…

Os dois se olharam fixamente, aproximaram as cabeças e um festival de luzes multicoloridas invadiu as vibrações nervosas de Raissa, era exatamente o mesmo beijo, como se fosse aquela menina de anos atrás, sonhando com um amor de novela ou como Teresa pensando em seu amado Simão, da literatura romântica. Para Luca era ligeiramente diferente, pelo fato de desta vez não sentir o gosto de morango do brilho labial daquela guria vinda de São Paulo e que se tornara tão bonita.

E para completar o espetáculo não faltava mais nada, havia uma data especial, boa comida, vinho e um local agradável, mesa enfeitada com flores:

-Boa noite.

-Fala, Maurício. Tudo bem?

-Beleza. E aí, comemorando com a minha amiga?

-Comemorando? Comemorando o que?

-Comemorando o que? Doze de junho, dia dos namorados. Esqueceu? – e dava aquela piscada de lado, modo que Raissa odiava quando ele fazia ao tentar ser engraçado.

-Bem, somos amigos de algum tempo.

-Opa! Sabe que eu também sou amigo dela. Saímos juntos já, assim como amigos.

-Ah, legal.

-Amigos, somente amigos.- comentava Raissa, um tanto ríspida.

-Bem, não convido vocês para sentar por que já estamos quase na sobremesa.

-Sem problemas, fiquem à vontade. Eu e a Verônica vamos pegar uma mesa ali. Obrigado. Lembra da minha amiga?

-Verônica? Ah, sim, lembrei.

-Oi – acenava a garota, simpática.

-Até mais, Rá.

Não era novidade para ninguém, Raissa odiava determinadas intimidades. E exatamente por isso, Maurício fazia questão de irritá-la, como fazem os adolescentes precisando se destacar.

-E então, você saiu com ele?

-Estávamos bem até agora. Para que isso? Vai dar uma de ofendido, por nada.

-Nada? Então meu amigo chega, fala que saíram “assim como amigos” e fica por isso mesmo.

-Puxa vida! Você tem que reagir dessa maneira. Para começar, saímos juntos sim, como amigos, eu, Elisa, ele e o Antônio, primo dele. Só quis dar uma força para minha amiga, só isso.

-Então vai querer dizer que sua amiga estava interessada no Tony e você foi só de companhia da tal de Elisa, ficando você e o Maurício “assim como amigos”.

-Na verdade eu não te devo satisfações, certo? E mais uma coisa, incrível a intimidade de vocês, só podiam ser grossos mesmo, tão próximos, a falta de educação é contagiosa.

-Mimada.

-Mimada?!

O clima da mesa próxima dali não diferia tanto assim, Verônica não gostara nem um pouco do modo como Maurício referira-se a ela:

-Amiga? Essa é boa.

-E somos o que, oras? Eu estou carente, você também. A gente se compensa.

-Carente, então esse tempo todo eu estou cuidando de um garotinho carente?

-Esse tempo todo?

-Se você não reparou, estamos juntos há meses.

-Agora porque eu durmo na sua casa, quer dizer que estamos juntos?

Não foi preciso nem um segundo a mais, Verônica levou a mão espalmada na face de Maurício, fortemente.

-Você ficou louca?

-Não, mas posso ficar. Vai falar mais alguma coisa?

-Não. Não preciso falar mais nada. Todas as atenções se voltaram pra gente. Reparou?

-Ótimo, assim você vai ter a melhor recordação de mim.

Os dois já estavam em pé, de frente um para o outro.

-Não preciso de recordação. Já fiquei bem satisfeito de você – e Maurício tomava o guardanapo para limpar a boca.

-Desgraçado!

Verônica pegou as flores do vaso colocado sobre a mesa e as jogou no chão, tentando utilizar a arma mais próxima que visse para acertar Maurício, no caso, o próprio vaso.

Entretanto, os garçons que passavam perto da mesa, trataram de impedir a moça de tal ato, levando a outro espaço do restaurante, até que se acalmasse. Maurício não quis mostrar-se tão envergonhado com a situação e engrenou um breve discurso:

-Senhores, me desculpem pelo transtorno. Acabamos, apenas, de fazer um esquete, uma cena, enfim, para brindar esta data especial. Na verdade, o restaurante deseja que prossigam em seus romances por muitos e muitos anos, até que a morte os separe ou as alianças se percam. Muito obrigado.

Houve quem aplaudisse e aqueles que olharam com ar de estranheza. E o outro casal presente, perante o fim das boas expectativas do encontro:

-Acabou a palhaçada do seu amigo?

-Raissa? Você está bem?

-Estou ótima, não percebeu. Estou sorrindo, olha só.

-Desculpa.

-Desculpa e pronto. Tudo resolvido. Eu dou um beijo em você e acabou-se.

-Não faz isso.

E Maurício olhava, de longe, o que lhe parecia um novo casal e encontrando o olhar de nossa Julieta, respirou fundo como quem não pode fazer nada diante de uma situação adversa. Raissa, correspondendo ao que os olhos do mancebo não queria ver, beijou Luca, novamente, transportando-o do mundo real:

-Nossa. Se for assim que tu aceitas minhas desculpas.

-Me leva para casa?

-Agora?

-Agora, por favor.

O rapaz agiu conforme as vontades da moça, afinal era um encontro depois de tempos de esforços ao telefone e não iria desperdiçar a única oportunidade que tivera, ainda tendo percebido a evolução de Raissa depois dos anos corridos. Seus pais ficariam contentes de vê-los juntos, pois apesar de se encontrarem já no novo século, dito tão cheio de modernidades, faziam questão de que o filho fizesse um bom casamento – querendo uma esposa diferente das de épocas passadas, uma mulher dinâmica, talentosa e que principalmente fosse uma parceira para prosseguir os negócios da família.

Mais uma de amor – Parte 2.3

            Mais uma de amor – Parte 2.3

            -Não está com frio, guria?

            -Luca. Não, não acredito. Me deixa sozinha.

            -Por que? Eu te faço mal?

            -Não é isso. Você sabe.

            -Sei de que?

            -Primeiro o beijo à força e depois ainda vejo você aqui.

            -Infelizmente se a minha presença te incomoda, não posso fazer nada. É a festa dos meus pais.

            -Eu sei disso, não precisa me lembrar.

            -E eu sou o grosso?

            -Desculpa.

            E Raissa virou-se para ele, como nos momentos de clímax dos filmes, em que a mocinha levanta o olhar timidamente e se cala, sem ao menos suspirar. Luca acariciou seu rosto e a trouxe para si, tomando-a nos braços e a beijando longamente, sem resistência de uma das partes. A garota sentia-se privilegiada por não morrer da febre que acomete Teresa no romance de Castelo Branco, já que o calor de sua repentina paixão era abrandado ao estar entre os braços de seu suposto amado.

            Com os olhos marejados, já abertos, Raissa afastou-se e cobriu o rosto com as mãos, de vergonha ou quem sabe, charme pensado dos encantos femininos despertando na transição de menina em mulher.

            -Não posso.

            -Raissa – a mãe a chamava de longe.

            -Preciso ir. Eu…

            Mais um beijo roubado daqueles lábios sem mácula.

            -Acredita em amor à primeira vista?

            -Não, aliás, não é a primeira vez que me vê.

            -Mas é como se fosse, guria.

            -Guria…

            -Raissa!

            -Preciso ir embora, agora. Minha mãe está chamando.

            -A gente se fala?

            Raissa beijou-lhe a face, como dois amigos a se despedirem. Nada mais.

            No dia seguinte, a garota passou com os pais rapidamente numa loja para comprar chocolates e se foram. O trabalho aguardava Pedro em São Paulo e Ana Clara também tinha seus afazeres acerca da colaboração dedicada junto à irmã num bufê e Raissa deixaria de contar algumas partes peculiares da viagem de Gramado às amigas, como um segredo ou uma recordação para ser descoberta muitos anos depois num diário encontrado inesperadamente ou a ser um assunto em pauta após acostumar-se de novo à rotina de trabalho e estudo e ter tempo para pensar em assuntos específicos que se remontavam a seu presente.

          Luca voltou a São Paulo com os pais, mas tinha preocupações novas para ocupar sua mente, como levar adiante o segundo semestre da faculdade de economia e finalmente, passar a auxiliar o pai nas atividades do escritório. Há muito que o pai insistia para que começasse a trabalhar com ele, tanto que por influência do pai, o rapaz optara pela Economia como carreira.

            A leitora pode esperar que agora venha o desfecho mais comum do formato, o rapaz esquece a moça e a toma como mais uma aventura entre tantas em sua vida. De fato, Luca demoraria a retornar um contato mais próximo com Raissa, porém nada baseado num machismo habitual ou numa molecagem de um quase adulto. A idade vinha em tom imperativo, a aconselhar-lhe aproveitar mais da vida abastada e tranqüila entre noitadas com os amigos e companhias voláteis como o álcool. Ainda que de tempos em tempos o rosto daquela guria linda viesse em seus pensamentos, não durava mais que segundos fugidios, tempos os quais pairariam como uma eternidade para a garota paulistana de quinze e frágeis anos de idade.

        -E você me mostra este diário agora, Rá?

       -Claro! Depois, você logo foi pra Inglaterra e eu esqueci disso por um tempo. Mas agora ele liga e volta tudo.

       -O que? Gostar dele?

       -Não, isso eu não digo. Mas a história toda, ele beijava muito bem.

         Elisa soltava uma gargalhada rasgada, boa de se ouvir, mesmo temperada de um certo sarcasmo:

        -Só você, Raissa. E o Mau, esqueceu?

         -Não, claro que não. Quer dizer, não, só não, esqueça o “claro que não”.

         -Tudo bem. Já foi enfática o bastante para me convencer de que foi exatamente o que disse.

        -Não ria.

        -Parei, parei.

       -Sabe que no começo eu não dei a mínima, mesmo.

      -Acredito.

      -Certo, mais ou menos. O problema é que pensei que não ia sentir nada. Além disso, foi uma coisa sem jeito, ele ficou olhando a gente dançar e depois, você sabe.

      -O beijo.

     -Se fosse só isso. Me arrependi de ter me arrependido, compreende?

     -Sempre te compreendo ou tento. Alguma vez te deixo sem algum comentário a respeito?

     -Não, pra minha sorte.

     -E às vezes azar meu. Doeu a bofetada que eu levei.

     -Desculpa.

     -Já foi. Esquece. E quer saber, acho que você devia deixar o de Campos na dele e investir no Mau. Esse tal de Luca aparecer assim, do nada. No mínimo, estranho e inconveniente.

     -Não é Campos, Lisa. A cidade chama-se Gramado.

    -Gramado, Campos…Se o problema fosse o nome da cidade?

    -Já estava tudo resolvido. Mas não é. Acho que se eu vir ele, dou uma balançada.

     -Só marcar um encontro. Verifica o número no identificador de chamadas.

     -Não, espero ele ligar de novo. E quem sabe, o Maurício aparece e…

      -Leva quem chegar primeiro?

     -Hei, sem essas. Não estou a prêmio, não.

     –O que? Achou minha roupa um pouco exagerada?

     -Não, acho que são seus cabelos.

      –Meu cabelo?

     -Até que sua imitação do Maurício não está tão ruim assim.

     -E que tal: Oi, guria. Tu sentes minha falta?

     -Essa foi péssima. Talvez eu tenha acostumado com o Gim.

     -O Mau?

    -Claro! Ou acha que eu sou de tomar gim e cuba libre?

    -Eu diria que você bebe água – e Elisa ria-se.

 (Continua)

Mais uma de amor – Parte 2.2

Mais uma de amor – Parte 2.2

           -Raissa, já voltou?

            -Não, estou lá ainda.

            -Que mau humor, filha. Nem depois de um mergulho, você se acalmou?

            -Grande mergulho, mãe. Agora me dá licença que eu vou tomar um banho.

            Dali a duas horas estavam todos prontos para a festa, exceto por um motivo:

            -Mãe, viu minha pulseira?

            -Que pulseira?

            -A que eu estava usando quando cheguei.

            -Não. Você não guardou?

            -Não, mãe. Quer dizer, não lembro.

            -Filha, você está ótima assim. Chega de balangandã.

            -Balangandã, pai? É a pulseira que a vovó me deu.

            -Tudo bem, querida. Depois eu ajudo você a procurar. Agora, vamos senão chegamos atrasados.

            -E tem horário para chegar em festa, pai?

            -Raissa, por favor.

            -Está certo. Vamos.

            Todos prontos, elegantes como pedia a ocasião. Quarto, saguão, carro, estacionamento, enfim chegaram. Do lado de fora do salão já se percebia a decoração rebuscada e detalhada, nota de Ana Clara, admiradora dos requintes de uma festa bem organizada.

            Alice logo veio recebê-los com o semblante alegre, buscando deixa-los à vontade, pois eram poucos os convidados os quais conheciam de fato. A senhora e o esposo, senhor Roberto, agradeceram pela vinda e diziam de sua alegria em compartilhar um momento tão importante com os amigos. Lamentavam não virem seu filho, que provavelmente estaria ocupado em divertir-se com os primos, os quais não via há algum tempo.

            Houve um cerimonial simples presidido pelo mesmo padre que realizara o casamento de Alice e Roberto, naquele mesmo salão. Marcava-se, desta forma, mais um motivo para terem dado preferência em voltar a Gramado, para a comemoração da data.

            Terminada a reafirmação dos enlaces do matrimônio, o salão tomou-se pela música da banda responsável pela animação da festa e aos poucos os casais foram se avolumando na pista sob o som dos ritmos essenciais de um crooner, boleros, tangos, valsas e um medley dos sucessos de cada década, comum em qualquer festa em que se reuniam várias faixas etárias. O som não desagradava a Raissa, mas ela reclamava da falta de companhia de pessoas conhecidas e passava a maior parte do tempo sentada à mesa:

            -Posso me sentar?

            -Você de novo? – indagava o garoto que vira na piscina do hotel.

            -De novo? Não sei por que o estranhamento, esta é a festa dos meus pais ou você não se lembra de mim?

            -Ai, que vergonha. Então você é o filho da dona Alice, o…

            -Luca. Eu me lembro bem de você, a guria chatinha que minha mãe achava uma graça.

            -Ela dizia isso é?

            -Dizia e até que eu não concordava na época, mas agora…

            -Agora?

            -Tu sabes.

            -Pena não poder dizer o mesmo. E diz uma coisa, se a festa é da sua mãe por que estava no hotel e por que fala mais ou menos como as pessoas daqui, que eu saiba você mora em São Paulo com os seus pais.

            -Uma coisa de cada vez. Primeiro, o hotel é de um tio meu, nada mais natural eu usar a piscina de lá e depois, quando venho pra cá, acostumo de novo com o jeito de falar.

            -Entendo.

            -Por que baixa os olhos assim, cinicamente?

            -Eu, cínica? Só me faltava essa…

            E quando ia levantar o tom de voz:

            -Olá, crianças. Vejo que lembraram um do outro apesar do tempo que passou. Ela não está linda, Lú?

            -Está, mãe.

            -Só não quero que fiquem aí parados. Venham dançar um pouco e depois a Ana Clara e o Pedro querem te ver.

            -Daqui a pouco eu vou, mãe.

            -E eu acredito? Venham.

            Alice os fez levantar e deu-lhes o braço, encaminhando-os à pista. Não havia como escapar de um pedido de uma senhora tão simpática e educada.

            -Então, Lú, sabe dançar?

            -Ri mesmo, guria. Pelo menos assim você não me escapa.

            -Uma dança e acabou-se. E pare de me chamar assim, eu tenho quinze anos.

            -Uma guria.

            -E você, quantos anos tem?

            -Dezoito, por que? Seu pai não gosta que namore caras mais velhos?

            -Namorar. Você é louco mesmo ou andou bebendo aqui na festa.

            -Sou um atleta, não bebo.

            Os casais aplaudiam ao final de mais uma música:

            -Acabou, né Lú? – e Raissa frisva o apelido. Valeu!

            -Não, não acabou. Fica comigo.

            -Tchau!

            Luca a impedia que voltasse à mesa, segurando sua mão:

            -Não vai.

            -Solta senão eu dou um escândalo aqui.

            -Não precisa. Vai, vai embora!

            -Grosso!

            -Preferia o jeito antigo, então vem cá.

            Luca acariciou-lhe o rosto e deu-lhe um terno beijo na testa:

            -Desculpa.

            -Tudo bem.

            Raissa foi caminhando, lentamente, até a mesa e sentou-se. Num único gole, tomou o copo cheio de refrigerante servido por um dos garçons e mordiscou os lábios, como fazia ao estar nervosa, ao isolar-se num dos cantos do quarto:

            -Aconteceu alguma coisa, querida?

            -Oi, mãe. Não aconteceu nada. E você, cansou de dançar?

            -Também. É que o Roberto chamou seu pai para tomar um uísque com ele e está lá no maior bate-papo.

            -E a dona Alice?

            -Já nos falamos de novo. Ela ficou de mostrar o Luca. Disse que está tão diferente.

            -Está mesmo – dizia Raissa num tom baixo de voz.

            -Como, Raissa?

            -Não, nada. Olha a dona Alice acenando pra você. Está com o filho ali.

            -Vem comigo.

            -Não, já nos vimos. Vou ficar aqui tomando um refrigerante.

            -Mas seu copo está vazio. Depois você…

            Um garçom passava à mesa servindo mais bebidas.

            -Obrigada. Acabou de vir outro. Vai lá, mãe.

            -Tudo bem. Já volto.

            Raissa não queria era olhar para Luca, novamente. Não que estivesse com raiva do rapaz, pelo contrário. Tinha era medo de não resistir a seus encantos, como na piscina do hotel, quando se beijaram.

             A garota levou a mão até o copo de refrigerante, tomou um pouco, secou a boca com um guardanapo e levantou-se. Dirigiria-se a parte externa do salão, onde não havia ninguém devido ao frio marcante. Mais tarde, a garota escreveria em seu diário que havia sido o dia mais frio de sua vida e o mais quente de seu coração. Coisas de adolescente, ou sinais da influência dos poetas lidos para o colégio.

Mais uma de amor – Parte 2.1

Mais uma de amor – Parte 2.1

 Eram as bodas de dona Alice, uma das clientes do escritório de contabilidade da família. Nos seus quinze anos de vida, não havia aniversário ao qual a senhora não comparecesse, ao menos a garota lembrava desde seus cinco anos quando ganhara uma bela boneca – merecedora de um canto especial numa das prateleiras do quarto.

 Sempre atenciosa, Alice, entregava seus livros contábeis há muito a Pedro, pai de Raissa, e cultivara grande estima por ele e sua esposa, Ana Clara, ultrapassando a relação profissional entre os mesmos. Entretanto eram poucos os momentos em que se encontravam em confraternização, devido a correria cotidiana e restavam as datas festivas para tal propósito. Alice falava muito no único filho que tivera, mas raras eram as vezes em que o viam, já que o garoto dava-se às viagens com os amigos e acampamentos com um  grupo acostumado à prática. Se vissem o rapaz, já com dezoito anos, dificilmente o reconheceriam.

O dia da festa, um sábado de tempo nublado dos dias frios de julho, tornava-se um tanto mais gélido nas terras do sul, mais especificamente, Gramado. A família daquela que confirmava um casamento de vinte e cinco anos, concentrava-se na cidade, a qual abandonara para seguir o marido e acompanhá-lo em seus negócios. Tudo colaboraria para uma viagem proveitosa, mas Raissa não sairia dos limites do hotel até o momento da festa.

-Pai, por favor, eu vou sozinha andar um pouco por aí. Sem problemas.

-Não, Raissa. Amanhã, vamos todos.

-Se o cansaço deixar, não é Pedro? Pretendo aproveitar a festa até o fim.

-Bodas de prata. Festão, hein mãe?

-Menina! Menos, menos, como você mesma costuma dizer.

-Droga! Amanhã acordamos quase na hora do vôo e perdemos uma boa oportunidade de diversão.

-Como se não saísse nunca, Raissa.

-Tudo bem, mãe. Eu saio. Mas não dá pra comparar ir ao shopping com uma viagem.

-Viagem rápida, querida. Viemos apenas prestigiar a Alice e o Roberto.

-Amigos de vocês, papai.

-Poderia ter mais respeito pelas pessoas que sempre te quiseram bem, minha filha. A Alice sempre procura te agradar.

-Aham.

-Aham?! Raissa, faz um favor.

-O que?

-Pega seu maiô e vai até a piscina um pouco, ainda dá tempo de ir antes da festa. Aí você se diverte e pára de arrumar problemas onde não há.

-Água gelada?

-A piscina é aquecida, seu pai perguntou no saguão logo que chegamos, não ouviu?

-Está bem. Vou lá, então.

-Cuidado com a profundidade. Não se arrisque.

-Pai, eu sei nadar. Esqueceu?

-Não, não esqueci. Só que cuidado nunca é demais.

-Está bem. Até!

Havia poucas pessoas na piscina e Raissa acabara não se animando para dar um mergulho. A garota ficara apenas sentada numa das esteiras observando a movimentação para se distrair e brigar consigo mesma, em pensamento, por não ter aceitado o convite de Elisa para passar o fim de semana numa chácara próxima a serra da Cantareira, em São Paulo mesmo. Não iria longe de casa e estaria aproveitando bem as férias do colégio.

 -Olá. Tudo bem?

-Eu te conheço, garoto?

 -Puxa! Pra que ficar tão emburrada, guria?

  Raissa o observou com mais atenção e já se arrependia de seus modos hostis, não percebeu que o rapaz lhe fizera uma pergunta e confundiu-se em seus pensamentos:

 -Bonito.

 -Como, Bonito? É seu nome?

  -Não, você…Digo, Raissa. Raissa é o meu nome.

   -E então, Raissa? Passando férias por aqui?

    -Vim pra uma festa de uns amigos, amigos dos meus pais na verdade.

    -Sei. Será que eu podia te pedir uma coisa?

   -Pedir o que?

   -Isso.

 Um beijo roubado. Inocentemente roubado e correspondido. Era um dos primeiros momentos em que Raissa sentia o mundo escapar de seu controle e sua firmeza esvaía-se como os grãos de areia de uma antiga ampulheta.

  -Você está louco?

  -Louco? Mas tu…

   Um tapa de arrependimento.

  -Ah, não gostou do beijo?

  -…

  -Pensou demais. Tu deves é estar precisando de um caldo pra esfriar a cabeça.

  -Não! Me solta!

  Tarde para esboçar alguma reação contrária. Os dois emergiam ensopados de dentro da piscina:

 -Demente! E se eu não soubesse nadar?

  -Eu te salvava.

  -Ah, beleza. Quer saber? Da próxima vez que você fizer isso, eu…

 -Então vai ter próxima vez? Tri-legal!

 -Não acredito. Eu estou saindo fora.

 -Nem mais um beijinho?

-Vai ver se eu estou na esquina.

Raissa nadou até a beira da piscina e tomou o caminho do quarto, sem nem olhar para trás. Nada mais maduro para uma menina de quinze anos.

(continua)