Mais uma de amor – Parte 1.6

Mais uma de amor – Parte 1.6

Raissa acabou devorando alguns lanches de atum e cenoura e tomando um daqueles sucos em pó light, as únicas coisas prontas para satisfazer a fome servindo de banquete em frente ao monitor da televisão. Sucumbira à transmissão dos desfiles de carnaval, passando a última noite de folia observando a alegria dos outros e se martirizando por não ter topado ir ao baile do clube com Elisa.

Perder a ultima noite antes do retorno da maratona entre trabalho e faculdade e se entregar ao sofrimento de uma paixão a qual nem bem sabia como começara, nada mal como assunto de reflexão para uma quarta-feira de cinzas, quando muitas pessoas ficavam melancólicas pelo motivo óbvio da data. Com Raissa, porém, isso não ocorria por não ter sofrido ainda perda significante em sua vida. As únicas referências de morte haviam sido a de parentes distantes, raramente vistos em algumas festas de casamento ou quando resolvia remexer os álbuns de fotografia guardados no fundo dos armários. Bastava então ver a mãe atender ao telefone e emudecer dali a alguns instantes, para saber que os papéis foto ganhariam contexto histórico no seio familiar. Ela achava curioso o jeito da mãe de lidar com a morte. Nunca a vira derramar uma lágrima a receber os tais telefonemas, eram necessários apenas uns minutos em silêncio e ela estava pronta para consolar os que sentiriam mais a dor da partida. Na verdade eram tão iguais e tão diferentes que não sabia achar explicação para ser tão frágil quando sozinha, resguardada dos olhos alheios, e tão dura ao se expor. Queria ter saído à mãe, mas não sentia fibras em sua composição. Raissa era uma menina de vinte anos, nas cenas posteriores aos novos tempos e ainda se conservava temerosa perante coisas simples do que era viver. Morar sozinha havia sido um desafio para si mesma, para tentar de alguma forma livrar-se do rótulo de superprotegida, ainda que se tratasse de um desafio bem calculado para não perder totalmente alguns cuidados a beneficiarem uma filha única.

-Alô – atendia ao toque do telefone com a voz desanimada.

-Oi, filha.

-Oi, mãe. Ainda bem que você ligou. Eu estava mesmo precisando falar com você.

-O que foi filha? Algum problema?

-Ai, mãe, é tudo. Minha vida está uma droga.

-Raissa, querida. Não vá começar a chorar.

-Já estou chorando, mãe – e sua voz começava a falhar – Não estou agüentando ficar aqui sozinha, hoje.

 -Querida, chorar não resolve os problemas. Não quer me contar o que está acontecendo?

-Não acontece, acho que é isso que me entristece. Estou na faculdade, trabalho com o que gosto, tenho o meu espaço…

-Aliás, espaço que eu e seu pai te demos depois de muita conversa. Não era idéia nossa te deixar morar sozinha, mas acabamos concordando. Achamos bom para o seu amadurecimento e até hoje nos perguntamos se fizemos a coisa certa.

-É que tem dias que meu espaço parece grande demais para uma só pessoa.

-Quer saber de uma coisa? Volte para casa. Colocamos o apartamento para alugar e depositamos o valor na sua poupança. Ainda quer fazer uma especialização fora do Brasil, não quer?

-Mãe. Especialização? Aluguel, dinheiro? Não é isso, quero muito ficar com o espaço que conquistei, sei que eu quis assim.

-Então, querida. Seu problema não é solidão. Aposto que há um rapaz, daqueles que adoram curtir a vida, como você e suas amigas costumam dizer, não faz muito seu tipo e inesperadamente lhe agradou?

-Mãe?!

-Estou certa?

-Bem…Eu não queria que fosse assim – e pronunciava-se em voz rouca.

-Raissa, não devia esperar que fosse diferente. Você tem vinte anos e uma vida ainda pela frente, sem poder mais solucionar seus abatimentos recorrendo ao diário no fim do dia. Não é mais uma…

-…Adolescente mimada – e completavam juntas o pensamento.

-Se concorda comigo, é bom enxugar suas lágrimas e tomar um pouco de água para melhorar essa voz.

-Desculpa, mãe. Eu não vou mais atrapalhar com essas coisas.

-Não se censure, querida. Penso sim que está errada, se comportando como uma adolescente, todavia compreendo. Eu e seu pai protegemos demais a nossa única filha. Também erramos.

-Por favor, mãe. Também não precisa disso.

-Bem, de qualquer forma, almoçamos juntas.

-Tudo bem. Mas vamos nos divertir, não?

-Conversamos, Raissa. Nada que não se resolva, ainda mais se formos eu, você e seu pai àquele restaurante perto de casa e antes de fechar a conta tomarmos uma bela musse de chocolate, descartando suas dietas malucas.

-Fechado.

E foi como o combinado. O dia passou-se aos agrados da família. Não podia se voltar a ter quinze anos e se comportar como uma garota descobrindo o gosto de paquera nos intervalos do colégio ou notar que a companhia para o cinema era mais interessante que o próprio filme em cartaz, contudo sentia-se confortável novamente. Estar com os pais, ir ao antigo restaurante a três quadras de casa e sentar-se à mesa de costume era tomar ciência de que a necessidade dos afagos paternos e de alguns elementos marcantes desde a infância não a fazia menos mulher, menos independente, e sim comprovavam a existência de vida além de seus modos educados ou dos textos separados em pastas determinadas para manter a organização de seus arquivos no computador.

Não, a paixão não perderia valor em seus conceitos, se firmaria como parte do compêndio de suas emoções mais claras ou escondidas, tendo na convivência o melhor modo de reconhecer-se como humana e apreciar as diferenças entre os seres.

-Oi, Raissa. Aqui é o Maurício. Fiquei esperando seu telefonema, mas como não retornou tive de me contentar em passar o dia com você só em pensamento, ao menos isso pra me consolar, minha mente. Pode até dar risada do que vou dizer, estou com saudades e já que me acha atrevido mesmo, não seria nada mal ter aquele beijo de novo, mesmo roubado. Vê se me liga. Beijo.Tchau!

-Atrevido mesmo e muito pretensioso. Próxima…

-Olá! Elisa na linha. O que aconteceu que você não está em casa. Preciso contar as novidades, falar do baile no clube. Não é que curti ouvir umas marchinhas, também a companhia me deixou gostando de tudo. Ligo depois, beleza? Beijo.

-Mais tarde, Lisa. Próxima…

Oi, guria. Espero que me reconheça pela voz. Não estou agüentando de saudades suas. Desculpa se demorei a cair na real, mas neste fim de semana fiquei com meus amigos e senti falta de uma companhia mais especial. Se lembrar de mim, me liga. Sabe que ainda gosto muito de ti. Beijo.

-Luca? Isso, o Luca. Não, acho que já estou com problemas demais, para arranjar mais um. E pare de falar sozinha, que mania louca!

Nada mais restava a fazer, a não ser dormir para estar bem descansada para o dia seguinte. A noite de Raissa seria tranqüila, após passar o dia em família e ter bons motivos para afagar seu ego e proporcionar bons sonhos construídos pelo imaginário criativo ou das recordações benéficas, tais as que fazem sorrir e rir de si mesmo.

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