Mais uma de amor – Parte I.4

Mais uma de amor – Parte I.4

Secretária eletrônica, e-mail, correspondência – geralmente propagandas de grifes ou informativos do banco – e claro, o último livro o qual estava com o marcador exatamente na metade, tratava-se de Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, releitura dos clássicos vistos no colégio, de tempos em tempos Raissa revia essas peças da literatura. Nada faltando para ocupar a tarde de feriado com coisas úteis, sem contar as divagações acerca da Fera da Zona Sul, enquanto respondia a algumas das mensagens dos e-mails, a maioria de colegas do tempo de colégio, que no corre-corre da faculdade e do trabalho, acabava vendo só nas poucas festas de aniversário que alguns ainda organizavam ou rapidamente no estacionamento do shopping, o que era natural. Afinal, haviam arrumado outros colegas, amigos, com hábitos diferentes. Expandir os horizontes poderia não ser um clichê, mas uma boa prática a ser seguida.

O dia custava a passar e a jovem já havia respondido a todas as mensagens dos e-mails e lido várias páginas do livro, se cansando um pouco da falta do que fazer num dia tão alegre para tantos. A verdade é que ela não gostava dos dias de Carnaval, até porque as festas lhe pareciam ser sempre as mesmas e não acreditava na emoção da qual alguns colegas de vez em quando comentavam sobre entrar e desfilar na avenida, fosse em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Aliás, se fosse para o Rio, certamente seria para ficar numa pousada curtindo o clima do local sossegada, já que por trocar uma metrópole por outra, optava em ficar por São Paulo mesmo e curtir as casas noturnas da Zona Sul ou Oeste e para fechar a madrugada, parar em um dos cafés das imediações antes de voltar para o descanso, em casa. Casa, a sua já a estava enjoando perto das cinco da tarde.

A garota colocou o livro de volta à gaveta da mesa do computador e recolheu a caneca com chá à pia junto com os talheres que havia usado no almoço, somente talheres porque a refeição não saíra de dentro da embalagem própria a ir ao microondas – tratava-se de uma massa, macarrão com molho e carne moída. Por culpa, a única coisa que ingerira, o chá, ficou pela metade da caneca, em virtude das duas colheres de açúcar usadas para adoçar.

-Oi, Rá!

-Lisa?!

Raissa empalideceu. Estava voltada para o balcão quando Elisa adentrou pela porta da cozinha.

-Calma, sou eu mesma, A Elisinha em pessoa. Melhor tomar uma água, deixa que eu pego…Isso, senta e se acalma. Estou ficando craque em te dar sustos, hein? O porteiro não devia ter me deixado subir.

-Nisso você está certa (e tomava uma boa golada da água), depois não sabem como explicar os roubos em prédios com tanta segurança. Já foi o tempo em que a gente podia deixar as portas abertas. Também, ontem acabei entrando pela cozinha mesmo e esqueci de trancar a porta.

-Desculpa, da próxima vez dou uma ligada antes de vir.

-Tudo bem. Mas, o que deseja, senhorita?

-Quer uma chance ou duas pra adivinhar.

-Vou de primeira, veio me chamar pra sair, ir ao shopping ou coisa assim. Acertei?

-Quase…Soube que o Maurício te ligou e aí pensei de ir junto, eu e o Tony.

-Você não prefere ir sozinha, não? Nem liguei para a Fera da Zona Sul.

-Desculpa, mas não dá pra segurar.

-Pode rir, sem problemas. E você, flechou de vez o Antônio?

-É, quer dizer, mais ou menos. Ele me deixou em casa e foi só.

-Só?

-Por que? Você e o Maurício…

-Não, não. Ele me beijou à força.

-Sei, sei.

-E eu até que…

-Gostou, confesse!

-Tá, é…Nada mal.

-Sabia, você toda sensível desse jeito, se assustando comigo. Aí tinha coisa, ainda bem que boa, claro.

-Está bem, gostei, mas foi só. Um beijo e pronto. Mas tinha de ver o povo aplaudindo, ridículo!

-Quem não quer ter seu dia de estrela de Hollywood?

-Eu, não me cai bem nem o papel de mocinha da novela das seis. Nem sei como agüentei tudo sem rir.

-Certo, certo. Só faltava rir no meio. Quebrar o clima seria péssimo.

-Pelo menos, ele não me ligava mais.

Telefone tocando.

-Não é o telefone?

-Não escutei nada…Nem estou em casa.

-Hã? Digo, secretária eletrônica?

-Óbvio.

-Oi, Rá. Desculpa, Raissa, fica melhor. Bem…São cinco horas agora e eu estou ligando pra dizer que estou pronto, esperando você ligar e aí eu passo pra te buscar. Ah, e pensou em alguma coisa mais para fechar o programa. Falo demais, né? Eu sei. Vou desligar antes de acabar com a paciência da sua secretária eletrônica. Me liga, por favor! Beijo.

-Puxa, amiga. Você devia ter atendido. Coitado do Mau.

-Mau? Que intimidade é essa?

-Por que, garota ciumenta?

-Hahaha, hilária você. Não sabe quanto.

-E não vai nem dar um alô pra dizer que não vai?

-Vou, também não vou estragar o dia de uma pessoa só porque não estou a fim de sair.

-Muito bem. Vou indo nessa, a gente se fala depois.

-Está bem. Tchau!

-Vai com ele, por mim.

-Nada feito.

-Certo, meu poder de convencimento acabou. Eu me conformo, sem problemas.

-Se eu for, te conto tudo depois.

-Gostei! Até mais!

E a Fera da Zona Sul, ainda descontente com a falta de retorno de Raissa. Maurício não estava acostumado a receber tantos “não” e as garotas costumavam apreciar seus modos, até mesmo porque nos tempos de colégio fizera parte do grupo dos populares, como costumavam dizer nos seus quinze anos. As namoradas do rapaz eram sempre as mais belas, cobiçadas pela maioria dos garotos. Talvez fosse esta última investida em relacionamentos, a única em que não se beneficiara de pronto ou num tom menos convencido – mas que relutava a aceitar – a que mais estava demorando em obter êxito.

-Oi, Maurício. Fala, é sobre a Raissa?

-É. Você sabe que…

-…Que não rolou nada?

-Não, rolou sim. Bem, antes rolou. Agora está me evitando, na frieza habitual, e um pouco pior.

-Acho que entendi. Olha só, por que não aparece de surpresa?

-Ela mora em prédio. O porteiro não ia deixar eu subir assim.

-É verdade. Quem sabe se…

-O que? Flores, bombons?

-Não, não. A flor pode murchar e os bombons derreterem, com o calor que está fazendo.

-Valeu…

-Só fui sincero, oras. Melhor esperar um pouco. Se ela não retornar a ligação…

-Eu perco minha última noite de carnaval?

-Não, liga pra Verônica.

-Não, hoje não era pra ser essa de uma noite e nada mais?

-Mas você não curte a garota?

-Claro. Mas não tô nessa. Hoje era pra ser especial.

-Vai me dizer…Não?! Está apaixonado pela Raissa?

-Sim, digo, não. Sei lá, é cedo pra dizer alguma coisa.

-Entendo. E acho melhor você não perder muito tempo não. Sabe que não sou de muita empolgação ou de resolver tudo de última hora…

-Fala. O que acontece?

-O Luca ligou aqui pra casa. Vai ter um churrasco logo mais na chácara. A fim de ir?

-Ah…Bem, até agora a Raissa não ligou. E já são quase sete horas. Se for pra eu ir, a gente tem de sair logo por causa da estrada.

-Quanto à estrada, fica tranqüilo. Você vai comigo.

-Você sabe que eu não curto muito dirigir à noite.

-Sei, sei.

-Então você passa aqui. Vou só separar uma mala com umas roupas e a gente vai.

-Vamos ficar por lá mesmo, viu?

-Com certeza. E vou até deixar o celular em casa pra minha mãe não ficar ligando muito.

-Está bem, Mauricinho.

-Brinca mesmo. Desliga logo o telefone e vem pra cá. Tchau!

-Falou!

E foram. Sempre aconteciam dessas reuniões no círculo de amizades comum entre Maurício e Antônio, os primos estavam acostumados a freqüentar a casa dos amigos que se dispunham a oferecer tais momentos de diversão e confraternização entre os mesmos. Isso porque a maioria se conhecia desde a infância, agregando os colegas do tempo de colégio os quais realmente haviam se preocupado em manter contato.

 Luca era um desses, amigo do colégio que ficara praticamente como integrante da família, visto que desde pequeno era companheiro de Maurício e Antônio nos acampamentos de férias ou nas viagens à casa de veraneio. Ele só afastara-se de Antônio durante as aulas da faculdade, já que esse optara por economia, a mesma carreira do pai, embora fugisse à regra dos tipos mais centrados estereotipados de acordo com a profissão das pessoas. O rapaz marcava-se mais pelo seu ar extrovertido que por seus conhecimentos acadêmicos os quais guardava para as análises de escritório.

A estrada estava livre pelo horário em que viajavam, ainda mais por não estarem nas vias preferidas pela maioria atraída pelas praias e a agitação habitual do litoral aos feriados. Logo os rapazes chegariam a chácara para desfrutar das maravilhas do local mais reservado, um bálsamo para o estresse da metrópole e remédio para curar os amores de carnaval, como Raissa.

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-Olá, infelizmente não posso atender no momento, é claro, você já deve ter percebido ao ouvir o sinal…Bem, o que te resta a fazer é deixar seu recado e assim que puder eu entro em contato. Tchau!

-Oi, Maurício, liguei para agradecer o convite, mas não poderei ir. Obrigada e bom feriado. Até qualquer dia. Tchau.

E o telefone, arremessado para o sofá, assim como a faixa do cabelo.

-Tanto trabalho por nada. Quando eu decido por fazer alguma coisa ou tentar alguma coisa, quem me atende? A secretária eletrônica! Belo! Bem, Rá, você completa o nosso programa. Hahaha, muito engraçado, Maurício. Aposto que…Raissa, chega! Você sabe que falar sozinha muitas vezes pode ser um distúrbio de comportamento, certo?

Raissa foi até o banheiro e jogou água no rosto várias vezes, esfregando para tirar a maquiagem, apenas um batom e uma sombra discreta, porém o suficiente para deixá-la com o rosto borrado, mesmo porque ela friccionara o rosto com tamanha raiva que deixara-o ruborizado pela irritação da pele.

A situação desagradável de certa forma havia sido criada pela própria garota, vagarosa ao tomar a atitude de investir num novo relacionamento, ainda que hesitante por não ser de seu agrado os caracteres todos do rapaz. Raissa sabia disso e por isso sua reação exasperada perante seu insucesso. Não demorou a trocar a roupa escolhida cuidadosamente para o passeio por um pijama simples e se entregar ao controle remoto buscando algo na televisão que não fosse desfile de carnaval ou cobertura do baile dos famosos. Inútil tentativa para quem ainda insistia em não pagar os canais da tv a cabo, pois ainda que estivesse às voltas com a modernidade da publicidade buscando novas idéias a cada dia, persistia em alguns conservadorismos descabidos perante o olhar da maioria disposta a arcar com as diferenças da globalização e pronta a conviver com os valores díspares da cultura ianque e brasileira. Para Raissa, rir do humor hermético das sitcoms, fugia a seus pensamentos.

A televisão, um pouco cansativa com a programação do feriado era trocada pela releitura de Castelo Branco. As emoções passavam a ser mais interessantes perante a realidade adversa, visto que Simão e Teresa possuíam um destino certo para a leitora em potencial, conhecedora do enredo e que reprisava as cenas do romance em sua mente como quem revê seu filme preferido assistido várias vezes no cinema e alugado ao chegar às locadoras. Os heróis românticos a faziam recuperar um pouco da sensibilidade abandonada muitas vezes em suas respostas irônicas, dadas de pronto perante alguns questionamentos ou comentários contrários a suas crenças. A estante da garota era repleta de livros, não só dos clássicos da literatura, mas também dos escritores contemporâneos os quais lhe atraíam deveras ao tratar de assuntos voltados a realidade social com a qual nem sempre convivia, pelo tempo dedicado ao trabalho e aos estudos ou por passar despercebida muitas vezes diante das mazelas populares por repúdio às diferenças e receio de encarar tão de perto a realidade.

Contudo, a vida de Raissa não permeava apenas o campo da literatura ou a análise dos produtos dos meios de comunicação, ela vivia seus conflitos com a carga dramática a que costumam dizer ser própria dos latinos. Fechou o livro e tomou à mão o telefone e recolocou a faixa para livra-se do incômodo dos cabelos nos olhos. De certo, ligaria para a única a entender seus feitos:

-Oi, Elisa. Sou eu, a Raissa.

-E aí, ficou em casa mesmo. Devia ter seguido meu conselho e ido passear com a fera.

-Não, não. Melhor ter ficado em casa lendo um pouco e tentando me distrair.

-Se queria distrair-se devia ter aceitado o convite do Maurício.

-Não estava disposta a ouvir as bobagens daquele…

-Olha só o que vai falar, certas palavras não cabem no seu vocabulário.

-Obrigada, só ia dizer aquele, aquele…

-Olha…

-Idiota!

-Eu?

-Não, o Maurício, claro.

-Ah, acho que você não queria ter ficado em casa, certo?

-Certo. Eu desisti de relutar tanto em aceitar as insistências investidas dele e decidi sair, pelo menos me distrair e não sei, gostei de ele ter sugerido lanche light.

-Boa pedida pra uma maníaca como você.

-Maníaca não, prevenida.

-Sim, claro. Mas por que deu errado?

-Já ouviu falar em caixa postal?

-A secretária eletrônica dos celulares desligados ou fora da área de cobertura.

-Isso.

-Entendo, mas que sacana! Como assim não atender uma ligação sua?

-E quem sou eu? A Gisele Bündchen por acaso?

-Se for pela magreza, tá ali.

-Que senso de humor. Já percebeu que eu estou…

-Arrasada. Fazer o que, não é? Pelo menos a fera te ligou antes, fez um convite. Se você dormiu no ponto, a culpa não é dele.

-Nossa! Valeu pela força, está me ajudando muito.

-Puxa vida! Olha o lado dele também. Cansou de esperar.

-Elisa, eu te liguei pra desabafar e não…

-Pra ouvir a verdade.

-Está bem, fala então que eu sou uma idiota, louca.

-Não exagera também. Eu sou sua amiga pra ser tão profunda – e ria do próprio gracejo.

-Tudo bem. O fato é que eu mudei de idéia. Será que ele não podia ter esperado, sei lá.

-Dê-se por contente. O Tony, por exemplo, nem me ligou e não é por isso que eu vou ficar prostrada em casa, olhando as moscas passarem pelo pão.

-Essa é nova. Moscas, pão.

-Sabe quando você está tão baixo astral, que até as infames das moscas de padaria comendo do seu pão parecem mais importantes.

-Ah, entendo. Só você mesmo, Lisa.

-E o que será que a dupla dinâmica faz a esta hora?

-Não quero nem saber. Esses primos estão causando problemas demais em muito pouco tempo.

-Saquei, mas gostaria bem de ser uma das moscas para voar até onde eles estão.

(…)

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