Mais uma de amor – Parte I.3

Mais uma de amor – Parte I.3

(…)

A Fera da Zona Sul tratou de passar em seu apartamento após mais algumas horas de descanso na casa do primo, livrando-se da ressaca, e escolheu cuidadosamente a roupa para o encontro da noite. Certamente caberia o comentário de que quando um homem é vaidoso acaba por ser mais demorado que uma mulher ao se arrumar para sair. Depois de pelo menos uma hora imerso na banheira, mais uns vinte para separar e vestir a roupa que viera da lavanderia e mais uns quinze para alinhar os cabelos com gel em frente ao espelho, Maurício chegava ao Porto:

-Olá. Muito atrasado?

-Não.

-Muito – contrariava Raissa.

-Está certo, Tony. Não precisa disfarçar. Mas o que são cinco minutos? A noite é uma criança.

-Lá vem ele com esse papo aranha?

-Opa! Papo aranha também não é termo atual não. Acho que a Rá andou fazendo umas visitas à vovó, Tony.

-Então Maurício, tudo bem? Melhor sentar pra gente fazer o pedido.

-Claro, Lisa. Estou ótimo e você?

-Maravilha – e Elisa nem disfarçava o riso forçado.

-Garçom. Por favor, um coquetel de frutas e você Elisa?

-Uma soda.

-Raissa?

-Um uísque, duplo. Obrigada, Tony.

-Não, Raissa. Você não pode beber, depois desmaia e…

-Dá pra não se intrometer.

-Não. Desculpa o transtorno. Vê mais dois sucos de maracujá. Um pra mim e outro pra nervosinha, digo, pra Raissa, essa distinta senhorita. Obrigado.

-Você realmente apareceu para infernizar minha vida, tudo bem. Eu sei fazer o seu joguinho. Espera só para ver, querido.

-Raissa, por favor. Vamos jantar em paz, certo?

-Claro, eu tenho educação, Lisa. Não se preocupe, será um jantar inesquecível.

Vieram as bebidas, o prato principal e os quatro deliciaram-se logo após, com a sobremesa, uma torta de chocolate regada com uma calda de framboesa, um pouco mais de calorias a serem descontadas depois nas dietas malucas de Raissa, embora a garota entrasse nisso por alguns dias e na primeira oportunidade abandonasse os hábitos para comer uma barra inteira de chocolate sozinha ou devorar uma lata inteira de doce de leite. Na verdade, era notório que ela não necessitava de tais esforços para manter o peso e não sair das medidas, mas como teimar com alguém ainda mais dotado de tal característica:

-Já falei, Lisa. Amanhã, só uma fatia fina de queijo branco no café da manhã.

-Por favor, depois passa mal e sabe que à toa. Nunca engorda um grama sequer.

-Exagero seu.

-Pode ser, talvez engorde um grama num dia e o perca no outro na correria da rotina que se impõe.

-Estou gostando desse papo, Tony. Que tal a gente começar sobre os últimos lances dos campeonatos de futebol ou falar das preciosidades que a gente vê na academia nas aulas de step.

-Só se for mesmo um troglodita.

-Até que a musculação tem dado resultados, Rá.

-Hilário.

-É, está certo sim Raissa. Falar de dieta diante de uma torta de chocolate como essa devia estar fora de cogitação – ponderava Elisa.

-Não falo mais nada se achar melhor, Lisa e aí você continua no papo cabeça dos seus amigos. Até porque minha cabeça está começando a doer e é melhor eu ir pra casa descansar.

-Se quiser eu te levo, sem problemas.

-Obrigada, Maurício. Eu estou de carro.

-Ah, então eu vou fazendo escolta. Acho que ainda não contratou um segurança para te acompanhar, não é?

-Não, mas quando contratar, certamente não vai ser alguém como você. Seguranças usam roupas com tons mais discretos.

-O que? Achou minha roupa um pouco exagerada?

-Não, acho que são seus cabelos.

-Meu cabelo? – e Maurício passava a mão na cabeça para alinhá-los.

Todos já riam à mesa. Num simples jogo psicológico, Raissa chegava ao ponto chave da estima de Maurício. Não que ele fosse dessas pessoas doentias que se olham em todos os espelhos com que se deparam, contudo de certo que era vaidoso e queria manter uma certa aparência por si mesmo e pelos outros – certa feita ouvira que as pessoas deviam estar bonitas e se arrumar para que os outros também desfrutassem de sua boa aparência. Talvez tivesse levado o conselho a sério demais, a partir disso não descuidara mais do visual.

-Por favor, ferinha, se situa. Por mais que eu implique com você, está muito bem. Não entende uma ironia não?

-Entendo, mas sabe como é, de repente.

-De repente, a sobremesa acabou e eu preciso ir pra casa. Será que você pode me levar pra casa, Tony? – disparava Elisa, objetiva.

-Claro, por favor.

Tony chamou o garçom e fez questão de arcar sozinho com as despesas, afinal, disse ele que aquele quem convida deveria proporcionar a noite aos amigos. Embora Elisa quisesse ser um pouco mais que sua amiga, o que ficava claro em suas investidas francas que de início aparentavam ser um tanto agressivas:

-E saímos de novo quando?

-Não sei, Elisa. Podemos marcar alguma coisa para…

-Amanhã? – interrompia Elisa.

-Não sei, tenho de ver algumas coisas, assuntos da empresa.

-Ah, claro. Bem, melhor irmos que esses dois acabam se acertando.

Elisa e Tony se despediram, enquanto Raissa e Maurício continuavam no impasse do caso de ter ou não um a companhia do outro ao caminho de casa, ou melhor, uma tivesse a companhia do outro.

-Já disse que tudo bem. Vou pra casa sozinha e pronto. Depois, vai gastar gasolina à toa indo até lá.

-Nada é à toa com você, por você…

-Pára, nada de romantismo a essa hora da noite. Acho que percebeu que não vai rolar nada, certo garoto? – e tocava o nariz do rapaz com o indicador, num gesto maroto.

-Errado.

Mais um beijo roubado na seqüência, porém sem os cinco dedos marcados no rosto da Fera da Zona Sul, que passava a ver êxito em seus truques. O beijo foi duradouro, digno das cenas de filme onde o resto do restaurante passa a aplaudir ao casal central do enredo. E foi isso mesmo o fato ocorrido, o suficiente para que Raissa passasse a mão na bolsa e corresse pra pegar o carro no estacionamento. Maurício ainda aguardou um instante, dizendo a famosa frase a seguir nestas cenas, com um quê definitivamente convencido:

-Ela me ama! Ela me ama!

Sim, ele teve de repetir ao menos uma vez mais para que tivesse o ego realmente massageado e levasse a “platéia” ao riso.

Já no estacionamento:

-Que sorte a minha. Ainda não trouxeram seu carro.

-Senhorita – vinha o manobrista.

-Obrigada.

-Espera, meu amor. Volta!

Raissa saía com o carro, olhando pelo retrovisor o rapaz com os braços erguidos a chamando.

Infelizmente para o nosso Romeu às avessas, o tempo não colaborou para que seguisse sua amada, colaborando para sua decepção. Nada que um telefonema no dia seguinte não resolvesse, ainda que conseguisse somente deixar um recado na secretária eletrônica.

 “””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””” 

São Paulo, 12 de fevereiro de 2002. Terça-feira de Carnaval.

 

Oi, Rá. Aqui é o Maurício, você sabe né? Bem, já que são dez da manhã de uma terça-feira de carnaval, minha bela deve estar no primeiro dos bons sonos ainda, então meu recado é curto, acho que não vai querer ficar revendo as cenas dos desfiles nos telejornais, certo? Então, estou te convidando pra tomar uma lanche light num quiosque aqui perto de casa e depois ficar rodando pela cidade, sei lá…Você completa o nosso programa. Beijos e mais beijos. Tchau!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s