Mais uma de amor – Parte 1.6

Mais uma de amor – Parte 1.6

Raissa acabou devorando alguns lanches de atum e cenoura e tomando um daqueles sucos em pó light, as únicas coisas prontas para satisfazer a fome servindo de banquete em frente ao monitor da televisão. Sucumbira à transmissão dos desfiles de carnaval, passando a última noite de folia observando a alegria dos outros e se martirizando por não ter topado ir ao baile do clube com Elisa.

Perder a ultima noite antes do retorno da maratona entre trabalho e faculdade e se entregar ao sofrimento de uma paixão a qual nem bem sabia como começara, nada mal como assunto de reflexão para uma quarta-feira de cinzas, quando muitas pessoas ficavam melancólicas pelo motivo óbvio da data. Com Raissa, porém, isso não ocorria por não ter sofrido ainda perda significante em sua vida. As únicas referências de morte haviam sido a de parentes distantes, raramente vistos em algumas festas de casamento ou quando resolvia remexer os álbuns de fotografia guardados no fundo dos armários. Bastava então ver a mãe atender ao telefone e emudecer dali a alguns instantes, para saber que os papéis foto ganhariam contexto histórico no seio familiar. Ela achava curioso o jeito da mãe de lidar com a morte. Nunca a vira derramar uma lágrima a receber os tais telefonemas, eram necessários apenas uns minutos em silêncio e ela estava pronta para consolar os que sentiriam mais a dor da partida. Na verdade eram tão iguais e tão diferentes que não sabia achar explicação para ser tão frágil quando sozinha, resguardada dos olhos alheios, e tão dura ao se expor. Queria ter saído à mãe, mas não sentia fibras em sua composição. Raissa era uma menina de vinte anos, nas cenas posteriores aos novos tempos e ainda se conservava temerosa perante coisas simples do que era viver. Morar sozinha havia sido um desafio para si mesma, para tentar de alguma forma livrar-se do rótulo de superprotegida, ainda que se tratasse de um desafio bem calculado para não perder totalmente alguns cuidados a beneficiarem uma filha única.

-Alô – atendia ao toque do telefone com a voz desanimada.

-Oi, filha.

-Oi, mãe. Ainda bem que você ligou. Eu estava mesmo precisando falar com você.

-O que foi filha? Algum problema?

-Ai, mãe, é tudo. Minha vida está uma droga.

-Raissa, querida. Não vá começar a chorar.

-Já estou chorando, mãe – e sua voz começava a falhar – Não estou agüentando ficar aqui sozinha, hoje.

 -Querida, chorar não resolve os problemas. Não quer me contar o que está acontecendo?

-Não acontece, acho que é isso que me entristece. Estou na faculdade, trabalho com o que gosto, tenho o meu espaço…

-Aliás, espaço que eu e seu pai te demos depois de muita conversa. Não era idéia nossa te deixar morar sozinha, mas acabamos concordando. Achamos bom para o seu amadurecimento e até hoje nos perguntamos se fizemos a coisa certa.

-É que tem dias que meu espaço parece grande demais para uma só pessoa.

-Quer saber de uma coisa? Volte para casa. Colocamos o apartamento para alugar e depositamos o valor na sua poupança. Ainda quer fazer uma especialização fora do Brasil, não quer?

-Mãe. Especialização? Aluguel, dinheiro? Não é isso, quero muito ficar com o espaço que conquistei, sei que eu quis assim.

-Então, querida. Seu problema não é solidão. Aposto que há um rapaz, daqueles que adoram curtir a vida, como você e suas amigas costumam dizer, não faz muito seu tipo e inesperadamente lhe agradou?

-Mãe?!

-Estou certa?

-Bem…Eu não queria que fosse assim – e pronunciava-se em voz rouca.

-Raissa, não devia esperar que fosse diferente. Você tem vinte anos e uma vida ainda pela frente, sem poder mais solucionar seus abatimentos recorrendo ao diário no fim do dia. Não é mais uma…

-…Adolescente mimada – e completavam juntas o pensamento.

-Se concorda comigo, é bom enxugar suas lágrimas e tomar um pouco de água para melhorar essa voz.

-Desculpa, mãe. Eu não vou mais atrapalhar com essas coisas.

-Não se censure, querida. Penso sim que está errada, se comportando como uma adolescente, todavia compreendo. Eu e seu pai protegemos demais a nossa única filha. Também erramos.

-Por favor, mãe. Também não precisa disso.

-Bem, de qualquer forma, almoçamos juntas.

-Tudo bem. Mas vamos nos divertir, não?

-Conversamos, Raissa. Nada que não se resolva, ainda mais se formos eu, você e seu pai àquele restaurante perto de casa e antes de fechar a conta tomarmos uma bela musse de chocolate, descartando suas dietas malucas.

-Fechado.

E foi como o combinado. O dia passou-se aos agrados da família. Não podia se voltar a ter quinze anos e se comportar como uma garota descobrindo o gosto de paquera nos intervalos do colégio ou notar que a companhia para o cinema era mais interessante que o próprio filme em cartaz, contudo sentia-se confortável novamente. Estar com os pais, ir ao antigo restaurante a três quadras de casa e sentar-se à mesa de costume era tomar ciência de que a necessidade dos afagos paternos e de alguns elementos marcantes desde a infância não a fazia menos mulher, menos independente, e sim comprovavam a existência de vida além de seus modos educados ou dos textos separados em pastas determinadas para manter a organização de seus arquivos no computador.

Não, a paixão não perderia valor em seus conceitos, se firmaria como parte do compêndio de suas emoções mais claras ou escondidas, tendo na convivência o melhor modo de reconhecer-se como humana e apreciar as diferenças entre os seres.

-Oi, Raissa. Aqui é o Maurício. Fiquei esperando seu telefonema, mas como não retornou tive de me contentar em passar o dia com você só em pensamento, ao menos isso pra me consolar, minha mente. Pode até dar risada do que vou dizer, estou com saudades e já que me acha atrevido mesmo, não seria nada mal ter aquele beijo de novo, mesmo roubado. Vê se me liga. Beijo.Tchau!

-Atrevido mesmo e muito pretensioso. Próxima…

-Olá! Elisa na linha. O que aconteceu que você não está em casa. Preciso contar as novidades, falar do baile no clube. Não é que curti ouvir umas marchinhas, também a companhia me deixou gostando de tudo. Ligo depois, beleza? Beijo.

-Mais tarde, Lisa. Próxima…

Oi, guria. Espero que me reconheça pela voz. Não estou agüentando de saudades suas. Desculpa se demorei a cair na real, mas neste fim de semana fiquei com meus amigos e senti falta de uma companhia mais especial. Se lembrar de mim, me liga. Sabe que ainda gosto muito de ti. Beijo.

-Luca? Isso, o Luca. Não, acho que já estou com problemas demais, para arranjar mais um. E pare de falar sozinha, que mania louca!

Nada mais restava a fazer, a não ser dormir para estar bem descansada para o dia seguinte. A noite de Raissa seria tranqüila, após passar o dia em família e ter bons motivos para afagar seu ego e proporcionar bons sonhos construídos pelo imaginário criativo ou das recordações benéficas, tais as que fazem sorrir e rir de si mesmo.

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Mais uma de amor – Parte 1.5

Mais uma de amor – Parte 1.5

Estavam os dois já à beira da piscina com drinques às mãos. Maurício continuava na opção mais evidente, gim, e Antônio escolhera um coquetel de frutas, mais adequado a seu comportamento saudável:

-Escolhi um bom lugar para te tirar da prostração, Maurício?

-É, nada mal para um fim de festas. Acho que andou aprendendo com meus conselhos a respeito das badalações.

-Claro, já ouviu dizer que convivência é tudo?

-Já ouvi dizer que várias coisas são tudo. Vai ver são só frases feitas, mas que de repente caem bem.

-Como a Verônica pra encerrar o dia?

-Oi?

-Oi, Mau. Tudo bem?

Verônica era uma daquelas garotas que faziam questão de se popularizar o mais rápido possível e estabelecer contatos valorosos, os quais lhe garantissem alguma vantagem. Maurício a conhecera durante a faculdade, no intervalo das aulas e após saírem juntos algumas vezes, a garota passou a sentir-se parte integrante de seu grupo de amigos, tanto que mesmo depois do fim do relacionamento relâmpago dos dois, ela continuou a freqüentar as festas e de vez em quando relembravam os velhos tempos, sem compromisso algum, para tranqüilidade de Maurício e decepção de Verônica, que esperava emplacar o romance de vez com suas investidas mais ousadas. Ousadia, a palavra definia bem a velha conhecida dos primos.

-Tudo bem, Verônica. Quem te avisou da festa?

-Fiquei sabendo, por alto. Já conhecia o caminho e não tive como deixar de vir. Sabe que eu sou ligada numa confraternização.

-Ah, então você é amiga de alguém por aqui.

-Esqueceu? Seus amigos são os meus amigos.

-Claro. Vai querer beber alguma coisa? Eu te sirvo.

-Quem sabe, se for do seu copo, qualquer coisa.

-Então, gosta de gim?

A garota tomou o copo ainda nas mãos de Maurício e sorveu o líquido continente, sem esquecer de olhar profundamente em seus olhos e dar seu sorriso largo e fácil a qualquer hora:

-Ainda continuo econômica, como sempre.

-Por beber de meu copo.

-Isso. Mas não se esqueça de que deixo tal economia apenas para algumas coisas.

-Entendo e te conheço.

-Então, já não aproveitou demais da brisa da noite. Poderia me mostrar os aposentos.

-Vamos ver com o Luca se arrumamos algo pra você?

-Lamento informar, primo, mas embora a casa seja grande, já há muitos para acomodar nos quartos.

-Isso não será problema, Antônio. Uma das qualidades do Mau sempre foi a benevolência para com os amigos. Posso ficar com você?

-É…Oi, Luca. Prefere manter aqui só os convidados, digo, pra passar a noite?

-Opa! Mas se a guria tiver contigo, sem problemas.

-Bem…Pode ser, então.

-Valeu, Mau. Estava precisando descansar um pouco. Pode me mostrar o caminho?

-Está bem.

Impossível resistir àquele sorriso, àquele olhar, àquele…Para Maurício, muitas eram os atributos de Verônica a serem enumerados, ainda que não se passassem suas conjecturas de simples atração. Era certo de que não ficaria mais do que o reviver dos bons tempos sem compromisso da época de faculdade, quando Verônica já guardava tal ar envolvente e voluptuoso a invadir suas emoções mais rasas. Logo o abatimento causado pelo insucesso de suas investidas com Raissa ficariam esquecidos perante a figura com quem ganhara a oportunidade de encerrar os festejos do carnaval, em seu significado mais literal. Uma noite e nada mais entre o alto som invasor da madrugada e o brilho das plumas e lantejoulas dos desfiles deixados de lado pelo deleite dos que se esquecem do tique-taque do passar das horas.

-Raissa?

-O que?

-Bom dia, meu am…Verônica.

-Guarde seu beijo pra…Seja lá quem for, não me interessa.

Verônica juntou as roupas de Maurício e colocou para fora do quarto. Poucos segundos para que ele batesse à porta:

-Hei, o convidado na verdade fui eu, então o quarto…

-Só um instante.

A dona do sorriso fácil vestiu-se e quis despedir-se:

-Vem cá.

Aproximaram-se e:

-Hei! Doeu!

-Ótimo. Até mais, querido.

 Uma pequena mordida no canto dos lábios, por lembrança da noite e despertar para o mundo real. Fim de festas e recomeço do curso normal, mais um dia e voltava a rotina diária: empresa, casa, academia. Sua vida era realmente agitada e cheia de compromissos, findados nas tardes de sexta-feira, quando os passeios já estavam praticamente programados para todo o fim de semana, isto é, sem levar em conta os feriados que atravessavam o meio da semana de trabalho e viajava para o litoral para hospedar-se na casa de veraneio da família ou era convidado para as festas dos amigos, como Luca:

-Posso?

-Entra aí, a casa é sua.

-E então, como foi a noite?

-A noite foi ótima, o churrasco no ponto, as bebidas, o pessoal…

-Acho que você não entendeu a pergunta.

-Ah, sei, sei. Desculpa, mandei mal, não é?

-É…Talvez tivesse sido melhor vocês terem ido dar um passeio, mais tranqüilo.

-Desculpa mesmo, cara.

-Tudo bem. O feriado proporciona este clima de…de diversão. Mas, por que a garota saiu batida?

-Sabe quando você está com outra pessoa na mente.

-Cara, trocou o nome?

-Aham.

-Acontece.

-É, de vez em quando a gente dá dessas.

-Bem, vou indo lá pra ver como anda o pessoal. Pedi pra Teresa servir o café para o pessoal, mas acho que devem ter ido direto para a piscina. O céu está perto, o maior sol, nada como um mergulho mesmo.

-Daqui a pouco eu vou lá. Valeu!

-Falou!

Não haviam sido muitos os convidados, apenas os amigos mais próximos, como os que sabem ouvir e dar conselhos, embora o dito popular não esteja de acordo:

-Minha mãe sempre diz: “Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia”. Só que eu acho que não faz mal nenhum recordar, não é?

-Depende, Tony. Recordar o que?

-Você e a Verônica se cuidaram?

-Boa, priminho! O que você acha? Claro que sim, não perdi o juízo que me resta não.

-Ainda bem. E esse negócio vermelho na sua boca? A gata andou te arranhando?

-Não, mordeu mesmo.

Tony riu no mesmo instante.

-Pode rir mesmo. A gata está mais mesmo é para cachorra raivosa, saca?

-Aham. E eu vi essa raiva toda quando ela passou aqui pela piscina e foi embora.

-A Ra…Digo, a Verônica foi mesmo?

-A Verônica foi mesmo. Agora, a Raissa, acho que não. Essa não sai tão cedo da sua cabeça.

(…)

 

Mais uma de amor – Parte I.4

Mais uma de amor – Parte I.4

Secretária eletrônica, e-mail, correspondência – geralmente propagandas de grifes ou informativos do banco – e claro, o último livro o qual estava com o marcador exatamente na metade, tratava-se de Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, releitura dos clássicos vistos no colégio, de tempos em tempos Raissa revia essas peças da literatura. Nada faltando para ocupar a tarde de feriado com coisas úteis, sem contar as divagações acerca da Fera da Zona Sul, enquanto respondia a algumas das mensagens dos e-mails, a maioria de colegas do tempo de colégio, que no corre-corre da faculdade e do trabalho, acabava vendo só nas poucas festas de aniversário que alguns ainda organizavam ou rapidamente no estacionamento do shopping, o que era natural. Afinal, haviam arrumado outros colegas, amigos, com hábitos diferentes. Expandir os horizontes poderia não ser um clichê, mas uma boa prática a ser seguida.

O dia custava a passar e a jovem já havia respondido a todas as mensagens dos e-mails e lido várias páginas do livro, se cansando um pouco da falta do que fazer num dia tão alegre para tantos. A verdade é que ela não gostava dos dias de Carnaval, até porque as festas lhe pareciam ser sempre as mesmas e não acreditava na emoção da qual alguns colegas de vez em quando comentavam sobre entrar e desfilar na avenida, fosse em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Aliás, se fosse para o Rio, certamente seria para ficar numa pousada curtindo o clima do local sossegada, já que por trocar uma metrópole por outra, optava em ficar por São Paulo mesmo e curtir as casas noturnas da Zona Sul ou Oeste e para fechar a madrugada, parar em um dos cafés das imediações antes de voltar para o descanso, em casa. Casa, a sua já a estava enjoando perto das cinco da tarde.

A garota colocou o livro de volta à gaveta da mesa do computador e recolheu a caneca com chá à pia junto com os talheres que havia usado no almoço, somente talheres porque a refeição não saíra de dentro da embalagem própria a ir ao microondas – tratava-se de uma massa, macarrão com molho e carne moída. Por culpa, a única coisa que ingerira, o chá, ficou pela metade da caneca, em virtude das duas colheres de açúcar usadas para adoçar.

-Oi, Rá!

-Lisa?!

Raissa empalideceu. Estava voltada para o balcão quando Elisa adentrou pela porta da cozinha.

-Calma, sou eu mesma, A Elisinha em pessoa. Melhor tomar uma água, deixa que eu pego…Isso, senta e se acalma. Estou ficando craque em te dar sustos, hein? O porteiro não devia ter me deixado subir.

-Nisso você está certa (e tomava uma boa golada da água), depois não sabem como explicar os roubos em prédios com tanta segurança. Já foi o tempo em que a gente podia deixar as portas abertas. Também, ontem acabei entrando pela cozinha mesmo e esqueci de trancar a porta.

-Desculpa, da próxima vez dou uma ligada antes de vir.

-Tudo bem. Mas, o que deseja, senhorita?

-Quer uma chance ou duas pra adivinhar.

-Vou de primeira, veio me chamar pra sair, ir ao shopping ou coisa assim. Acertei?

-Quase…Soube que o Maurício te ligou e aí pensei de ir junto, eu e o Tony.

-Você não prefere ir sozinha, não? Nem liguei para a Fera da Zona Sul.

-Desculpa, mas não dá pra segurar.

-Pode rir, sem problemas. E você, flechou de vez o Antônio?

-É, quer dizer, mais ou menos. Ele me deixou em casa e foi só.

-Só?

-Por que? Você e o Maurício…

-Não, não. Ele me beijou à força.

-Sei, sei.

-E eu até que…

-Gostou, confesse!

-Tá, é…Nada mal.

-Sabia, você toda sensível desse jeito, se assustando comigo. Aí tinha coisa, ainda bem que boa, claro.

-Está bem, gostei, mas foi só. Um beijo e pronto. Mas tinha de ver o povo aplaudindo, ridículo!

-Quem não quer ter seu dia de estrela de Hollywood?

-Eu, não me cai bem nem o papel de mocinha da novela das seis. Nem sei como agüentei tudo sem rir.

-Certo, certo. Só faltava rir no meio. Quebrar o clima seria péssimo.

-Pelo menos, ele não me ligava mais.

Telefone tocando.

-Não é o telefone?

-Não escutei nada…Nem estou em casa.

-Hã? Digo, secretária eletrônica?

-Óbvio.

-Oi, Rá. Desculpa, Raissa, fica melhor. Bem…São cinco horas agora e eu estou ligando pra dizer que estou pronto, esperando você ligar e aí eu passo pra te buscar. Ah, e pensou em alguma coisa mais para fechar o programa. Falo demais, né? Eu sei. Vou desligar antes de acabar com a paciência da sua secretária eletrônica. Me liga, por favor! Beijo.

-Puxa, amiga. Você devia ter atendido. Coitado do Mau.

-Mau? Que intimidade é essa?

-Por que, garota ciumenta?

-Hahaha, hilária você. Não sabe quanto.

-E não vai nem dar um alô pra dizer que não vai?

-Vou, também não vou estragar o dia de uma pessoa só porque não estou a fim de sair.

-Muito bem. Vou indo nessa, a gente se fala depois.

-Está bem. Tchau!

-Vai com ele, por mim.

-Nada feito.

-Certo, meu poder de convencimento acabou. Eu me conformo, sem problemas.

-Se eu for, te conto tudo depois.

-Gostei! Até mais!

E a Fera da Zona Sul, ainda descontente com a falta de retorno de Raissa. Maurício não estava acostumado a receber tantos “não” e as garotas costumavam apreciar seus modos, até mesmo porque nos tempos de colégio fizera parte do grupo dos populares, como costumavam dizer nos seus quinze anos. As namoradas do rapaz eram sempre as mais belas, cobiçadas pela maioria dos garotos. Talvez fosse esta última investida em relacionamentos, a única em que não se beneficiara de pronto ou num tom menos convencido – mas que relutava a aceitar – a que mais estava demorando em obter êxito.

-Oi, Maurício. Fala, é sobre a Raissa?

-É. Você sabe que…

-…Que não rolou nada?

-Não, rolou sim. Bem, antes rolou. Agora está me evitando, na frieza habitual, e um pouco pior.

-Acho que entendi. Olha só, por que não aparece de surpresa?

-Ela mora em prédio. O porteiro não ia deixar eu subir assim.

-É verdade. Quem sabe se…

-O que? Flores, bombons?

-Não, não. A flor pode murchar e os bombons derreterem, com o calor que está fazendo.

-Valeu…

-Só fui sincero, oras. Melhor esperar um pouco. Se ela não retornar a ligação…

-Eu perco minha última noite de carnaval?

-Não, liga pra Verônica.

-Não, hoje não era pra ser essa de uma noite e nada mais?

-Mas você não curte a garota?

-Claro. Mas não tô nessa. Hoje era pra ser especial.

-Vai me dizer…Não?! Está apaixonado pela Raissa?

-Sim, digo, não. Sei lá, é cedo pra dizer alguma coisa.

-Entendo. E acho melhor você não perder muito tempo não. Sabe que não sou de muita empolgação ou de resolver tudo de última hora…

-Fala. O que acontece?

-O Luca ligou aqui pra casa. Vai ter um churrasco logo mais na chácara. A fim de ir?

-Ah…Bem, até agora a Raissa não ligou. E já são quase sete horas. Se for pra eu ir, a gente tem de sair logo por causa da estrada.

-Quanto à estrada, fica tranqüilo. Você vai comigo.

-Você sabe que eu não curto muito dirigir à noite.

-Sei, sei.

-Então você passa aqui. Vou só separar uma mala com umas roupas e a gente vai.

-Vamos ficar por lá mesmo, viu?

-Com certeza. E vou até deixar o celular em casa pra minha mãe não ficar ligando muito.

-Está bem, Mauricinho.

-Brinca mesmo. Desliga logo o telefone e vem pra cá. Tchau!

-Falou!

E foram. Sempre aconteciam dessas reuniões no círculo de amizades comum entre Maurício e Antônio, os primos estavam acostumados a freqüentar a casa dos amigos que se dispunham a oferecer tais momentos de diversão e confraternização entre os mesmos. Isso porque a maioria se conhecia desde a infância, agregando os colegas do tempo de colégio os quais realmente haviam se preocupado em manter contato.

 Luca era um desses, amigo do colégio que ficara praticamente como integrante da família, visto que desde pequeno era companheiro de Maurício e Antônio nos acampamentos de férias ou nas viagens à casa de veraneio. Ele só afastara-se de Antônio durante as aulas da faculdade, já que esse optara por economia, a mesma carreira do pai, embora fugisse à regra dos tipos mais centrados estereotipados de acordo com a profissão das pessoas. O rapaz marcava-se mais pelo seu ar extrovertido que por seus conhecimentos acadêmicos os quais guardava para as análises de escritório.

A estrada estava livre pelo horário em que viajavam, ainda mais por não estarem nas vias preferidas pela maioria atraída pelas praias e a agitação habitual do litoral aos feriados. Logo os rapazes chegariam a chácara para desfrutar das maravilhas do local mais reservado, um bálsamo para o estresse da metrópole e remédio para curar os amores de carnaval, como Raissa.

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-Olá, infelizmente não posso atender no momento, é claro, você já deve ter percebido ao ouvir o sinal…Bem, o que te resta a fazer é deixar seu recado e assim que puder eu entro em contato. Tchau!

-Oi, Maurício, liguei para agradecer o convite, mas não poderei ir. Obrigada e bom feriado. Até qualquer dia. Tchau.

E o telefone, arremessado para o sofá, assim como a faixa do cabelo.

-Tanto trabalho por nada. Quando eu decido por fazer alguma coisa ou tentar alguma coisa, quem me atende? A secretária eletrônica! Belo! Bem, Rá, você completa o nosso programa. Hahaha, muito engraçado, Maurício. Aposto que…Raissa, chega! Você sabe que falar sozinha muitas vezes pode ser um distúrbio de comportamento, certo?

Raissa foi até o banheiro e jogou água no rosto várias vezes, esfregando para tirar a maquiagem, apenas um batom e uma sombra discreta, porém o suficiente para deixá-la com o rosto borrado, mesmo porque ela friccionara o rosto com tamanha raiva que deixara-o ruborizado pela irritação da pele.

A situação desagradável de certa forma havia sido criada pela própria garota, vagarosa ao tomar a atitude de investir num novo relacionamento, ainda que hesitante por não ser de seu agrado os caracteres todos do rapaz. Raissa sabia disso e por isso sua reação exasperada perante seu insucesso. Não demorou a trocar a roupa escolhida cuidadosamente para o passeio por um pijama simples e se entregar ao controle remoto buscando algo na televisão que não fosse desfile de carnaval ou cobertura do baile dos famosos. Inútil tentativa para quem ainda insistia em não pagar os canais da tv a cabo, pois ainda que estivesse às voltas com a modernidade da publicidade buscando novas idéias a cada dia, persistia em alguns conservadorismos descabidos perante o olhar da maioria disposta a arcar com as diferenças da globalização e pronta a conviver com os valores díspares da cultura ianque e brasileira. Para Raissa, rir do humor hermético das sitcoms, fugia a seus pensamentos.

A televisão, um pouco cansativa com a programação do feriado era trocada pela releitura de Castelo Branco. As emoções passavam a ser mais interessantes perante a realidade adversa, visto que Simão e Teresa possuíam um destino certo para a leitora em potencial, conhecedora do enredo e que reprisava as cenas do romance em sua mente como quem revê seu filme preferido assistido várias vezes no cinema e alugado ao chegar às locadoras. Os heróis românticos a faziam recuperar um pouco da sensibilidade abandonada muitas vezes em suas respostas irônicas, dadas de pronto perante alguns questionamentos ou comentários contrários a suas crenças. A estante da garota era repleta de livros, não só dos clássicos da literatura, mas também dos escritores contemporâneos os quais lhe atraíam deveras ao tratar de assuntos voltados a realidade social com a qual nem sempre convivia, pelo tempo dedicado ao trabalho e aos estudos ou por passar despercebida muitas vezes diante das mazelas populares por repúdio às diferenças e receio de encarar tão de perto a realidade.

Contudo, a vida de Raissa não permeava apenas o campo da literatura ou a análise dos produtos dos meios de comunicação, ela vivia seus conflitos com a carga dramática a que costumam dizer ser própria dos latinos. Fechou o livro e tomou à mão o telefone e recolocou a faixa para livra-se do incômodo dos cabelos nos olhos. De certo, ligaria para a única a entender seus feitos:

-Oi, Elisa. Sou eu, a Raissa.

-E aí, ficou em casa mesmo. Devia ter seguido meu conselho e ido passear com a fera.

-Não, não. Melhor ter ficado em casa lendo um pouco e tentando me distrair.

-Se queria distrair-se devia ter aceitado o convite do Maurício.

-Não estava disposta a ouvir as bobagens daquele…

-Olha só o que vai falar, certas palavras não cabem no seu vocabulário.

-Obrigada, só ia dizer aquele, aquele…

-Olha…

-Idiota!

-Eu?

-Não, o Maurício, claro.

-Ah, acho que você não queria ter ficado em casa, certo?

-Certo. Eu desisti de relutar tanto em aceitar as insistências investidas dele e decidi sair, pelo menos me distrair e não sei, gostei de ele ter sugerido lanche light.

-Boa pedida pra uma maníaca como você.

-Maníaca não, prevenida.

-Sim, claro. Mas por que deu errado?

-Já ouviu falar em caixa postal?

-A secretária eletrônica dos celulares desligados ou fora da área de cobertura.

-Isso.

-Entendo, mas que sacana! Como assim não atender uma ligação sua?

-E quem sou eu? A Gisele Bündchen por acaso?

-Se for pela magreza, tá ali.

-Que senso de humor. Já percebeu que eu estou…

-Arrasada. Fazer o que, não é? Pelo menos a fera te ligou antes, fez um convite. Se você dormiu no ponto, a culpa não é dele.

-Nossa! Valeu pela força, está me ajudando muito.

-Puxa vida! Olha o lado dele também. Cansou de esperar.

-Elisa, eu te liguei pra desabafar e não…

-Pra ouvir a verdade.

-Está bem, fala então que eu sou uma idiota, louca.

-Não exagera também. Eu sou sua amiga pra ser tão profunda – e ria do próprio gracejo.

-Tudo bem. O fato é que eu mudei de idéia. Será que ele não podia ter esperado, sei lá.

-Dê-se por contente. O Tony, por exemplo, nem me ligou e não é por isso que eu vou ficar prostrada em casa, olhando as moscas passarem pelo pão.

-Essa é nova. Moscas, pão.

-Sabe quando você está tão baixo astral, que até as infames das moscas de padaria comendo do seu pão parecem mais importantes.

-Ah, entendo. Só você mesmo, Lisa.

-E o que será que a dupla dinâmica faz a esta hora?

-Não quero nem saber. Esses primos estão causando problemas demais em muito pouco tempo.

-Saquei, mas gostaria bem de ser uma das moscas para voar até onde eles estão.

(…)

Mais uma de amor – Parte I.3

Mais uma de amor – Parte I.3

(…)

A Fera da Zona Sul tratou de passar em seu apartamento após mais algumas horas de descanso na casa do primo, livrando-se da ressaca, e escolheu cuidadosamente a roupa para o encontro da noite. Certamente caberia o comentário de que quando um homem é vaidoso acaba por ser mais demorado que uma mulher ao se arrumar para sair. Depois de pelo menos uma hora imerso na banheira, mais uns vinte para separar e vestir a roupa que viera da lavanderia e mais uns quinze para alinhar os cabelos com gel em frente ao espelho, Maurício chegava ao Porto:

-Olá. Muito atrasado?

-Não.

-Muito – contrariava Raissa.

-Está certo, Tony. Não precisa disfarçar. Mas o que são cinco minutos? A noite é uma criança.

-Lá vem ele com esse papo aranha?

-Opa! Papo aranha também não é termo atual não. Acho que a Rá andou fazendo umas visitas à vovó, Tony.

-Então Maurício, tudo bem? Melhor sentar pra gente fazer o pedido.

-Claro, Lisa. Estou ótimo e você?

-Maravilha – e Elisa nem disfarçava o riso forçado.

-Garçom. Por favor, um coquetel de frutas e você Elisa?

-Uma soda.

-Raissa?

-Um uísque, duplo. Obrigada, Tony.

-Não, Raissa. Você não pode beber, depois desmaia e…

-Dá pra não se intrometer.

-Não. Desculpa o transtorno. Vê mais dois sucos de maracujá. Um pra mim e outro pra nervosinha, digo, pra Raissa, essa distinta senhorita. Obrigado.

-Você realmente apareceu para infernizar minha vida, tudo bem. Eu sei fazer o seu joguinho. Espera só para ver, querido.

-Raissa, por favor. Vamos jantar em paz, certo?

-Claro, eu tenho educação, Lisa. Não se preocupe, será um jantar inesquecível.

Vieram as bebidas, o prato principal e os quatro deliciaram-se logo após, com a sobremesa, uma torta de chocolate regada com uma calda de framboesa, um pouco mais de calorias a serem descontadas depois nas dietas malucas de Raissa, embora a garota entrasse nisso por alguns dias e na primeira oportunidade abandonasse os hábitos para comer uma barra inteira de chocolate sozinha ou devorar uma lata inteira de doce de leite. Na verdade, era notório que ela não necessitava de tais esforços para manter o peso e não sair das medidas, mas como teimar com alguém ainda mais dotado de tal característica:

-Já falei, Lisa. Amanhã, só uma fatia fina de queijo branco no café da manhã.

-Por favor, depois passa mal e sabe que à toa. Nunca engorda um grama sequer.

-Exagero seu.

-Pode ser, talvez engorde um grama num dia e o perca no outro na correria da rotina que se impõe.

-Estou gostando desse papo, Tony. Que tal a gente começar sobre os últimos lances dos campeonatos de futebol ou falar das preciosidades que a gente vê na academia nas aulas de step.

-Só se for mesmo um troglodita.

-Até que a musculação tem dado resultados, Rá.

-Hilário.

-É, está certo sim Raissa. Falar de dieta diante de uma torta de chocolate como essa devia estar fora de cogitação – ponderava Elisa.

-Não falo mais nada se achar melhor, Lisa e aí você continua no papo cabeça dos seus amigos. Até porque minha cabeça está começando a doer e é melhor eu ir pra casa descansar.

-Se quiser eu te levo, sem problemas.

-Obrigada, Maurício. Eu estou de carro.

-Ah, então eu vou fazendo escolta. Acho que ainda não contratou um segurança para te acompanhar, não é?

-Não, mas quando contratar, certamente não vai ser alguém como você. Seguranças usam roupas com tons mais discretos.

-O que? Achou minha roupa um pouco exagerada?

-Não, acho que são seus cabelos.

-Meu cabelo? – e Maurício passava a mão na cabeça para alinhá-los.

Todos já riam à mesa. Num simples jogo psicológico, Raissa chegava ao ponto chave da estima de Maurício. Não que ele fosse dessas pessoas doentias que se olham em todos os espelhos com que se deparam, contudo de certo que era vaidoso e queria manter uma certa aparência por si mesmo e pelos outros – certa feita ouvira que as pessoas deviam estar bonitas e se arrumar para que os outros também desfrutassem de sua boa aparência. Talvez tivesse levado o conselho a sério demais, a partir disso não descuidara mais do visual.

-Por favor, ferinha, se situa. Por mais que eu implique com você, está muito bem. Não entende uma ironia não?

-Entendo, mas sabe como é, de repente.

-De repente, a sobremesa acabou e eu preciso ir pra casa. Será que você pode me levar pra casa, Tony? – disparava Elisa, objetiva.

-Claro, por favor.

Tony chamou o garçom e fez questão de arcar sozinho com as despesas, afinal, disse ele que aquele quem convida deveria proporcionar a noite aos amigos. Embora Elisa quisesse ser um pouco mais que sua amiga, o que ficava claro em suas investidas francas que de início aparentavam ser um tanto agressivas:

-E saímos de novo quando?

-Não sei, Elisa. Podemos marcar alguma coisa para…

-Amanhã? – interrompia Elisa.

-Não sei, tenho de ver algumas coisas, assuntos da empresa.

-Ah, claro. Bem, melhor irmos que esses dois acabam se acertando.

Elisa e Tony se despediram, enquanto Raissa e Maurício continuavam no impasse do caso de ter ou não um a companhia do outro ao caminho de casa, ou melhor, uma tivesse a companhia do outro.

-Já disse que tudo bem. Vou pra casa sozinha e pronto. Depois, vai gastar gasolina à toa indo até lá.

-Nada é à toa com você, por você…

-Pára, nada de romantismo a essa hora da noite. Acho que percebeu que não vai rolar nada, certo garoto? – e tocava o nariz do rapaz com o indicador, num gesto maroto.

-Errado.

Mais um beijo roubado na seqüência, porém sem os cinco dedos marcados no rosto da Fera da Zona Sul, que passava a ver êxito em seus truques. O beijo foi duradouro, digno das cenas de filme onde o resto do restaurante passa a aplaudir ao casal central do enredo. E foi isso mesmo o fato ocorrido, o suficiente para que Raissa passasse a mão na bolsa e corresse pra pegar o carro no estacionamento. Maurício ainda aguardou um instante, dizendo a famosa frase a seguir nestas cenas, com um quê definitivamente convencido:

-Ela me ama! Ela me ama!

Sim, ele teve de repetir ao menos uma vez mais para que tivesse o ego realmente massageado e levasse a “platéia” ao riso.

Já no estacionamento:

-Que sorte a minha. Ainda não trouxeram seu carro.

-Senhorita – vinha o manobrista.

-Obrigada.

-Espera, meu amor. Volta!

Raissa saía com o carro, olhando pelo retrovisor o rapaz com os braços erguidos a chamando.

Infelizmente para o nosso Romeu às avessas, o tempo não colaborou para que seguisse sua amada, colaborando para sua decepção. Nada que um telefonema no dia seguinte não resolvesse, ainda que conseguisse somente deixar um recado na secretária eletrônica.

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São Paulo, 12 de fevereiro de 2002. Terça-feira de Carnaval.

 

Oi, Rá. Aqui é o Maurício, você sabe né? Bem, já que são dez da manhã de uma terça-feira de carnaval, minha bela deve estar no primeiro dos bons sonos ainda, então meu recado é curto, acho que não vai querer ficar revendo as cenas dos desfiles nos telejornais, certo? Então, estou te convidando pra tomar uma lanche light num quiosque aqui perto de casa e depois ficar rodando pela cidade, sei lá…Você completa o nosso programa. Beijos e mais beijos. Tchau!