Mais uma de amor – Parte I.2

Mais uma de amor – Parte I.2

São Paulo, 11 de fevereiro de 2002. Segunda-feira de Carnaval.

 

-Um papelão, cara. E depois, como foi a festa?

-O pessoal todo foi embora. Normal, sabe como fica o clima quando alguém acaba passando um pouco do ponto. Igual a churrasco, quando a carne fica dura não há quem agüente.

-Só você mesmo, Tony. Mas e a guria, a Raissa, o que falou?

-Você acha o que? Foi embora como os outros, claro. Mas espera que a gatinha amansa, nem todo bichano é traiçoeiro.

-E você me conhece, em dois tempos eu…Ai, minha cabeça…

-Toma, o comprimido e a água já estavam te esperando.

-Valeu. Ai…daqui a pouco passa. Ainda preciso ligar pra guria e desfazer o malfeito.

-Pode ligar, mas já está tudo meio que acertado. Jantar no Porto. Encontro duplo, saca? Eu, a Lisa, você e a Raissa. Topa?

-Que pergunta? Gostei da sua agilidade. E a tia, não reclamou de eu ficar aqui, meio variado?

-Você quer dizer bêbado…Não, minha mãe não falou nada. Ela e o pai viajaram logo cedo. Falei que caiu sua pressão. Nem sei se ela acreditou, mas beleza.

-Valeu, primo.

-Depois você passa no meu quarto e pega umas roupas pra trocar.

-Só mais uma coisa. Quem me tirou do chão?

-Eu e o Pedro.

-O Pedro, aquele mala que trabalha com você na empresa do seu avô?

-Poxa! O cara te ajudou.

-Tudo bem, mas é mala.

-Quando você vai perder esse jeito, Maurício?

-Quando você der mais festas por aqui, por livre e espontânea vontade e não por pressão minha.

-Você sabe que não sou tão ligado assim em festas?

-Mas devia.

Antônio saía do quarto, meio ressabiado, encostando a porta do dormitório.

-Hei!

-Fala.

-Obrigado mesmo por me salvar do desastre da noite.

-Não precisa agradecer. Na boa, não ia te deixar dormindo no chão, sem a sua Julieta. Melhor que sonhasse num local mais confortável – e ironizava com um sorriso aberto no canto dos lábios.

-Você vai ver. Mauricinho, a Fera da Zona Sul, atacando novamente. Agora me deixa dormir um pouco e me livrar dessa dor de cabeça, Jarbas.

-Jarbas?! Sacaneia mesmo.

A noite não havia sido a das mais tranqüilas, o que era de se esperar depois de alguns copos de gim e poucos petiscos. Óbvio que bebendo sem moderação, mal tendo se alimentado, Maurício acabaria com uma desagradável ressaca. E não adiantava falar-se dos truques antigos ou mesmo novos, pois seu mal estar só passaria verdadeiramente depois de um bom descanso. E mais, o truque dos desavisados sobre beber novamente para a cura da bebedeira anterior só geraria mais prejuízos. Porém, definitivamente, ressaca era um assunto o qual não passava pela mente de Raissa.

-Oi, Elisa. Você não podia arrumar um horário mais apropriado para me ligar não?

-Ah, querida. Meio-dia e meia, agora. Que tal um almoço numa cantina italiana?

-Lisa, minha amiga, se é que eu ainda posso te chamar assim?

-Hei, espera aí. Dessa vez eu não fiz nada. Você aceitou o meu convite para ir à festa. E eu quem devia estar chateada contigo.

-Comigo? Quem foi agarrada por um estúpido que ainda se acha alguma coisa só porque, sei lá por que.

-Por isso mesmo. Você foi agarrada por aquele cara, e que cara…E eu, fiquei ali só de papinho com o Antônio. Ficamos os dois como dois executivos nos tratando com aquelas mesuras que nem sempre valem à pena, ainda mais quando se está a fim de alguém. Saca aquela de pedir licença para tudo e pedir desculpas por ter esbarrado seu rosto quando tentava falar mais perto por causo do som alto da música?

-Sei, sei…

-Não. E tem mais, ele ficou preocupado com o infantil do primo dele que não pode beber uma gota de álcool que faz besteira e nem pude me despedir. Sem noção.

-Calma, Lisa. Quando você começa a embarcar de mais na gíria, logo “saco” que o buraco é mais embaixo.

-Fala isso para o Antônio, acho que ele não sabe ainda.

-Lisa!! O que é isso. Maneirar um pouco seria ótimo. Você queria que o cara…

-Não, só queria um beijo. Morri de inveja de você.

-Que feio, sua mãe devia cortar sua sobremesa por cometer um pecado desse. Sabe que inveja é pecado capital, não é?

-Lá vem você me aborrecer logo cedo, também. Criança, sou criança sim…De vez em quando, eu assumo. Normal, certo?

-Não sei. Ah, e não estou te aborrecendo “tão cedo”, você mesma me chamou para o almoço.

-E você vai?

-Não, melhor não. Massa só como se for um macarrão sem molho. Li esses dias que o que engorda é o molho. Ainda mais se acompanhado de carne vermelha.

-Isso, senhorita. Continua com essas dietas malucas e vai parar numa clínica. Pena que ainda não terminei o curso pra ser segura nas minhas dicas de alimentação, se não estaria te colocando nos eixos. Se bem que você não come bem de loucura sua, se fosse gorda vá lá, mas não é o caso.

-Vá, deixe suas dicas pra quando terminar o curso e trabalhar como nutricionista de algum time de futebol.

-Eu chego lá, espera.

-Tenho certeza. E o almoço, então, esquece.

-Come salada, mas vamos comigo. Ainda preciso te contar umas coisas. Ah! Temos compromisso para esta noite.

-Que?

-No restaurante te falo melhor. Agora, levanta da cama, tira esse borrado de rímel dos olhos, te arruma!

Raissa toma o espelho ao lado da cama:

-E como sabe que eu estou de olhos borrados.

-Não precisa ser uma adivinha. Tinha certeza que ia chorar assim que trancasse a porta do apartamento e jogasse a bolsa no sofá.

-Não acredito. Qualquer dia vou te consultar para saber dos projetos da agência. E por favor, sem comentários com seu amiguinho, o Antônio, sobre eu ter chorado por causa do…quer dizer…

-Tudo bem, não falo nada sobre ter chorado pelo Gim (risos). Uma e meia, esteja lá.

-É aquela cantina na Mooca?

-Garota esperta. Tchauzinho!

Dessa vez, Raissa pegou a primeira roupa que viu pela frente, retirou a maquiagem pesada da noite e após o banho, apenas um batom no rosto delicado. Não que fosse desleixada com o visual, mas não gostava de carregar muito nos traços e nas cores, preferia a discrição a exuberância acentuada.

Mais alguns minutos e a organização do quarto também estava completa. Nada de cobertores retorcidos e lençóis amassados, tudo no seu perfeito estado. Espelho, bom, sem olheiras, chave da porta na bolsa e a do carro na mão, elevador, térreo:

-Boa tarde, seu José. Alguma correspondência?

-Hoje não. Feriado, dona Raissa.

-É mesmo. Obrigada.

Garagem, carro, restaurante:

-Olá.

-Dessa vez pensei que fosse se atrasar.

-Não. Pode olhar no seu relógio. Uma e meia, certo?

-Claro. Eu cheguei antes por causa da mesa. Detesto espera de fila em restaurante. E você sabe que feriado é sempre uma disputa.

-Pelo menos você não escolheu uma churrascaria.

-Bem, mas vamos logo ao assunto.

-Assunto…Hum, por acaso esse assunto é sobre uma menininha mimada e um intercâmbio na Inglaterra?

-Engraçado…Tá, é mais ou menos isso.

-Fala. Pelo menos não tem nada a ver comigo.

-Mais ou menos. E se eu disser que temos um jantar no Porto hoje à noite?

Raissa fez aquela cara de quem não quer dizer nada e ao mesmo tempo diz tudo, algo como uma ligeira franzida de sobrancelha e a evasão num silêncio absoluto. Isso porque o Porto era um restaurante daqueles à beira da estrada direcionado a casais apaixonados ou casais conhecidos de tempos que se cansavam do cinema ou da agitação das danceterias aos sábados.

-Fala alguma coisa.

-Falar o que? Complete o seu raciocínio primeiro.

-Certo. Eu assumo, encontro duplo eu, você, o Maurício e o Antônio. Que acha? Bom?

-Péssimo. Como você marca algo assim e só me comunica…Deixe-me ver… – leve olhada no relógio – …Doze horas depois, aproximadamente.

-Aceita. Por favor, depois você não ia fazer nada hoje mesmo. Não disse que sua mãe só vem amanhã para vocês almoçarem?

-Lisa, não dá. Você sabe que…

-…que você está quase caindo no charme da “Fera da Zona Sul”. Sei, claro. Uma ótima chance pra vocês e pra mim e o Antônio, óbvio.

-Hei, o que é isso de “Fera da Zona Sul”?

-É como o seu felino costuma se auto-intitular.

-Meu felino? Enlouqueceu, não é?

-Não, não.

O garçom vinha, solícito, atendê-las.

-Já escolheram, senhoritas.

-Sim. Uma salada mista e uma água, sem gelo, por favor. – adiantava-se Raissa.

-Uma lasanha ao molho à bolanhesa e mais uma soda, por favor.

-Mais alguma coisa? – dispunha-se o garçom.

-Não…Sim, esqueça a salada mista e a água. Veja o mesmo que anotou para a minha amiga.

-Pois não, senhorita.

-Pecado, Raissa. Sabe que a gula também é condenável, não?

-Depois, Lisa. Não vou resistir a um molho vermelho com bastante carne. Mas, vou passar a tarde toda na esteira e sem nada. Só água pra hidratar.

-Não vou nem falar nada. Você sabe que ficar sem comer não é uma boa.

-Só hoje. Não tem problema.

-Vai nessa… – observava Elisa, com ares de desaprovação.

-E quer saber, dessa vez eu vou te ajudar. Confirma o horário e eu me arrumo até a hora combinada.

-Estou gostando de ver. Mais uma vez consigo te tirar de casa e sem muita luta.

-Não, não. Esse round da luta eu ganhei. Afinal, quem decidiu ir fui eu.

-E aí?

-E aí que terás um encontro graças a mim, caríssima.

-Corta essa de terminar esses verbos com esses “terás”, terá você que estar bem para essa noite e sem desmaios, bela!

-Ma claro! E vamo comê que se não a comida esfria – e Raissa forçava no sotaque italiano.

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