Mais uma de amor – Parte I.1

Mais uma de amor – Parte I.1

A raiva inicial de Raissa passava aos poucos, até porque tivera raiva de si mesma por não controlar seus impulsos e não de outrem. O rapaz a divertira com seus jogos de palavras e o jeito alegre de quem não tem tantas preocupações com a vida. Afinal, era carnaval e passar os dias de folia trancada em casa, assistindo às mesmices das transmissões dos desfiles de carnaval transmitidos na tv não era um negócio da China, quanto mais do Brasil e especialmente para uma paulistana que já não havia viajado para o litoral nem fugido para o clima da serra – escapara do engarrafamento das estradas e negara a tranqüilidade intimista dos sítios. Festas de amigos, de clubes, até um suco na lanchonete da esquina, mas nada de ficar parado a espera do próximo bonde, a estacionar numa estação da máquina do tempo, por enquanto situação possível só em ficção científica.

 

-Gim, por favor.

E Raissa punha-se a rir ao ver o rapaz tomar a bebida.

-E então. Qual a piada?

-Nada, besteira minha.

E Elisa vinha em auxílio.

-A Raissa é tonta mesmo, está rindo das minhas caretas. Anos de amizade e ainda não se acostumou. Coisa de garota, sabe. – e soltava sua gargalhada sempre natural, até quando improvisada.

-É isso. Besteira, Maurício.

-E como ficou sabendo da festa? Coincidência  a gente se encontrar assim.

-Ah, nenhuma coincidência, Lisa…Posso te chamar assim, certo?

-Claro. Quer dizer, cinco minutos de conversa e já pega intimidade? Estou brincando. Tudo bem. Todos acabam me chamando assim mesmo. Elisa só no registro ou quando a Raissa tende a rever seus modos de boa moça.

-Lisa?!

-Ah, só falei a verdade. Mas diz Maurício, como soube da festa?

-O Tony é meu primo.

-Primos? Tudo em família.Bom, bom.

-Vocês são sempre engraçadas?

-Ele chamou a gente de palhaças, Raissa. Acredita?

-Claro. E quer ver outra gracinha, Maurício querido? Está aqui o seu gim.

Raissa tomou o copo da bandeja do garçom e jogou a bebida na camisa do rapaz. Nem seria preciso notificar quão ele  ficou furioso, mas controlou-se, claro. “Não bater numa garota, nem que seja com uma flor” – imediatamente a frase que ouvira de pequeno veio à sua mente. Curioso como a memória infantil desperta, de vez em quando, em flashes. A frase havia sido proferida da boca de uma tia num dos almoços de família quando as rusgas entre os primos afloravam e  as diferenças entre meninos e meninas terminavam em agressões. Crianças não costumam palestrar para resolver seus problemas.

-Nessa você mandou muito mal, Raissa…Raissa?!

A garota segura e hostil de alguns segundos desabava no meio do salão e só não caía porque Maurício a tomava a tempo. O que se arrebentava em cacos era o copo, não resistindo à perda de firmeza de sua mão.

 

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-Raissa, tudo bem?

-Oi, estou bem. Mas o que eu estou fazendo aqui? Que quarto é esse? E meu vestido, quem abriu assim?—e passava a mão sobre o pescoço, com o cenho perturbado.

-Você despencou no meio do salão e eu te trouxe aqui, pra respirar um pouco. E o quarto é o do meu primo, o Tony.

-Ah, sim…A festa…Desculpa. Bem, mas não precisava abrir meu vestido assim?

E como Maurício a olhava risonho, a garota erguia o braço para atingi-lo, já sentada na cama, de pronto.

-Calma—Maurício segurava seu braço—só fiz isso para você não ter nada te sufocando e o ar passar mais rápido. Ou será que não sabe nem os conceitos básicos de primeiros socorros.

-Tudo bem. Fui meio precipitada. Pode largar o meu braço.

-Esperava um obrigado, pelo menos.

-Obrigada, caríssimo.

-Irônica… Esquece. Vamos voltar pra festa?

-Claro! E os meus sapatos?

-Tá na mão. Deixa eu te ajudar.

-Não precisa, não. A criança já sabe se calçar sozinha.

Raissa levantava um pouco debilitada ainda, zonza pelo desmaio. Tocar o chão era como pisar em ovos sem nem sequer quebrá-los. Alguém diria como andar na lua, como astronauta.

-Cuidado. Você está fraca. Melhor eu pegar alguma coisa pra você aqui. Come barra de cereais, certo?

-Obrigada, não preci…

-Espera, eu te apoio. Não cai não que eu estou ficando mal de reflexos. Que tal comer sim?

-Está bem.

-E toma esse copo de refrigerante também.

-Refrigerante?

-Açúcar para te reanimar. Não te carrego nos braços de novo se não amanhã não saio da cama?

-Está me chamando de gorda. Só se estiver ficando louco. Quem só come queijo branco, de preferência light e aboliu refrigerante do seu cardápio, não pode ganhar mais que meio grama por fim de semana—e disparava a falar num estirão.

-Brincadeira…Vovó te chamaria de varapau se a visse.

-Como você é engraçado. Vê-se bem que você deve gostar das gírias da vovó. Quem nos dias de hoje gosta de gim só pode conservar vocabulário tão antigo.

-Obrigado pelos elogios, Raissa. Dois minutos era pouco tempo pra você dar demonstrações da sua boa educação.

-Eu vou embora. Agradeça seu primo por oferecer o quarto para eu descansar um pouco.

-Bem, então agradeça a mim mesmo pela hospitalidade. Eu e o Tony não temos tais formalidades. Não preciso pedir permissão para auxiliar alguém convalescente.

-Convalescente eu? Ainda tenho mais dois dias de folia. Carnaval, festa!

-Menos mal. Come on lady!

  -Ok, guy. Let’s go!

Voltaram para a festa e aproveitaram bem a noite. Não, não se beijaram novamente, mesmo porque Raissa esmerou-se para permanecer afastada de Maurício, ainda que os préstimos do rapaz a tivessem agradado. Havia recebido de bom grado o auxílio do rapaz, todavia foi só se recuperar da tontura para largar o braço dele e voltar a circular sozinha pelo salão, para efeito de ciúme imediato e mais copos de gim serem entornados pelo mancebo. Por ele, certamente viveriam uma história de Romeu e Julieta, com uma diferença apenas, não desejaria morrer antes de gozar das riquezas da família e antes só, com relacionamentos instáveis para satisfazer seus ímpetos, que morto a desposar sua amada no sepulcro.

-Acho que você devia parar de beber um pouco, senhor.

-Eu, parar de beber – e retrucava ao conselho do garçom – Não. Bebi pouco. O senhor não esqueceu que é carnaval, não é? Passa mais um copo.

-É, Maurício. Melhor você parar. Acho que não vai querer estragar a festa do seu primo.

-Elisa, dá um tempo. Já vi você pegar uns três copos de champanhe – e a olhava risonho – Depois, o Tony sabe que eu gosto de me divertir. Fala aí, primo.

-Tá, mas já passou sua cota. Vamos, eu levo você pra casa. Ou você dorme aqui.

-Isso, eu durmo aqui e então posso aproveitar até o fim da festa.

-Não, vá dormir.

-Não! – e se exasperava como qualquer pessoa embriagada que é contrariada – Antes eu preciso ficar com a gracinha.

Maurício se livrou de Antônio, o empurrando e foi em direção a Raissa. Agarrou-a de súbito e como resposta, obviamente, outros cinco dedos em seu rosto. E pela moleza, facilmente desequilibrou-se, caindo no chão.

(Continua)

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