Mais uma de amor

Algumas boas doses de açúcar, comicidade e claro, uma pitada de drama. Receita de comédias romênticas, com as quais, certamente, você já se deparou por aí. É com base nessa proposta que começa Mais uma de amor, minha próxima história que se inicia hoje.

 Tudo começa numa noite de Carnaval não muito animada datada de 2002, mas que poderia ter sido a mesma sequência de fatos se passasse nos dias atuais.

Será uma grande alegria tê-lo como leitor e claro, comentarista ativo de suas expectativas e decepções no decorrer dessa história. O convite está feito e se desvendam agora as primeiras impressões de um carnaval. Foco em Raissa, a protagonista da vez.

David Felipe.

Mais uma de amor

Parte I

 São Paulo, 10 de fevereiro de 2002. É carnaval, mas Raissa não quer saber de festas, afinal é um longo dia de reflexões que terá de enfrentar, trancada em seu apartamento, isolada do mundo por alguns instantes, até o porteiro chamá-la ao interfone para dar algum recado ou entregar a correspondência que não recebe há uma semana. Isso na melhor das hipóteses, já que se não tirar o telefone do gancho, deverá atender as ligações de Elisa, a convidando para o baile do clube ou a festa particular na casa de algum amigo em comum. Não que Raissa não goste de festas, mas não hoje, depois dos acontecimentos da noite.

-E lá está ele, parado ali no bar sem sequer olhar ao redor, marcando o passo e em quatro ou cinco goles, terminando de tomar o gim que pediu ao garçom. Costume antigo este, mas fazer o que, provavelmente aprendeu a tomar aquilo com os pais ou os avós. O curioso é que suas roupas são bem modernas.

-Cisma essa a sua, Raissa. Deixe ele terminar a bebida dele em paz. Até agora ele nem olhou para você. Ficar incomodada assim, por quê?

-Por nada, só que me incomoda. Não sei se percebeu, mas sempre que resolvemos sair da pista e descansar um pouco por aqui, ele está lá, como uma sombra.

-Imagine, ele está só descansando também.

-Eu não vi ele dançar.

-Está parecendo doença, Raissa. Esquece isso.

-Tudo bem. Vamos dançar.

A música eletrônica rolava na pista e todos dançavam, freneticamente, movendo seus corpos a cada batida do som. Elisa era uma das que mais se divertia, com seu jeito maroto, fazendo Raissa dar boas risadas de seus passos inventados de pronto.

-Elisa.

-Fala mais alto, não estou escutando nada!

-Olha ele ali de novo!

-Ele quem?!

-O cara da mesa ao lado!

-Que cara?!

-O do gim!

-Ah, sei. O Gim!

-Gim?! Talvez ele tenha um nome mais comum, pelo menos.

-Esquece, já disse.

O rapaz se aproximava, aos poucos, e passava a buscar os olhares de Raissa. Ela não se empenhava em chamar a atenção dos outros, todavia parecia ser isso o que fazia com que fosse observada o tempo todo.

Apesar da cisma, a garota não desviava seus olhares e até que gostava daquilo. Concordava plenamente com aquele conceito de que é bom ter o ego “massageado” de tempos em tempos e a vaidade de uma jovem de vinte anos aflorava, certamente.

Maurício, era esse o nome do rapaz tão misterioso que a fitava a noite toda. Filho de um dos empresários mais bem sucedidos da cidade, trabalhava com marketing e nos seus vinte e dois anos não possuía tantos sonhos de consumo, pois realizava a todos, quase sempre. Embora calado no início e estranho, aparentemente, não era bem aquilo que se podia pensar.

Olhos nos olhos, bocas entre abertas…Beijaram-se, inevitável. Raissa não costumava agir assim. Quando saía à noite, queria apenas curtir o local e espairecer um pouco, dando um tempo nos estudos e saindo da rotina de trabalho. Ela estudava Publicidade no período noturno e durante o dia, era assistente numa agência de comerciais, graças aos contatos do pai, um senhor muito bem relacionado. O emprego ficara por conta de uma antiga cliente do escritório contábil do patriarca da família, a qual a indicara para a vaga. Não que a garota não tivesse capacidade, porém com sua pouca idade e sem o curso completo, seria difícil empregar-se tão rapidamente.

No término do primeiro beijo, apenas seus cinco dedos marcados na vermelhidão do rosto de Maurício, sem que dissesse seu nome ou perguntasse o do rapaz. Nada cortês, foi isso o que também achara depois de sair da danceteria às pressas e voltar ao apartamento.

Cortesia com quem lhe vê a primeira vez e logo te beija? Não seria um modo tão imediato de agir, mas se correspondera ao toque em seus lábios era porque algo a envolvera, provavelmente o certo ar de mistério e o desconhecido que tão suavemente havia se aproximado.

Raissa dormira pouco, acordando cedo e permanecendo prostrada no sofá, mudando a música do rádio pelo controle remoto, não parando em uma estação por mais que cinco minutos. Os cabelos jogados, cobrindo seus olhos e o rosto marcado com algumas olheiras aparentes. 

-Alô. Oi, Elisa. Não, não estou bem para sair hoje – o telefone saía do ostracismo do descanso sobre o móvel – Sério, quem sabe na próxima semana?…Como assim, não vai ter jeito de desistir? Você…

E os ruídos que não dependiam de sua vontade para serem acionados, passavam a querer agir, conjuntamente, sem cerimônias com a dona da casa. A campainha tocava e Raissa era obrigada a ir com o telefone apoiado no ombro para atender a porta.

-Elisa. Não acredito.

-Pronto, pode desligar o telefone que eu não vou te incomodar mais.

-Como o porteiro te deixou entrar?

-Já me conhece. E você sabe, dispenso apresentações.

-Muito engraçado. E ainda gasta crédito do celular com isso.

-Papai que carregou este mês.

-Não sei como você consegue ficar tão dependente.

Raissa tinha a faculdade custeada pelos pais e o apartamento pertencia à família, entretanto as demais despesas ficavam por sua conta, fruto de seu trabalho. Uma independência com teor de protecionismo e facilidades de crediário, ainda que fosse um bom começo para uma jovem que passara a vida toda com as melhores oportunidades e estabilidade financeira. Ela resolvera tentar crescer mais, a seus modos.

-Não sei o que há de tão interessante nessa sua “independência” – e Elisa frisava seus dizeres, em ironias.

-Quer saber? Estou a fim de ficar sozinha.

-Puxa! Eu venho te animar e é assim que você me trata. Tudo bem, eu vou embora. Fica aí curtindo sua fossa, dando uma de adolescente mimada, como se fosse o primeiro beijo da sua vida.

Foi só um, porém cruel demais. Raissa largou o telefone e acertou um tapa violento no rosto da amiga.

Os olhos de Elisa encheram-se de lágrimas e por mais difícil que fosse, tentava manter o equilíbrio:

-Você está com problemas sérios. Isso não é normal. Sabe, eu devia te agredir, mas eu não vou fazer isso…

Raissa ameaçava interrompê-la.

-…Não fala nada, só escuta. Você precisa de uma análise o mais rápido possível ou quem vai ficar desequilibrado seremos nós que pensamos ser amigos e na primeira oportunidade recebemos um “agrado” como esse com que você acabou de me presentear. Lamentável.

-Espera!

Elisa nem sequer esperou pelo elevador, desceu pelas escadas colocando os óculos escuros para esconder seu pranto. Raissa ainda a viu da sacada, arrependida do modo como agira. Estava fora de controle. O que fizera com a amiga fora um claro sinal de seu nervosismo, nunca agiria daquele modo com Elisa. Ela tomou o primeiro elevador que parou no andar, desceu até o estacionamento e tentou achar a amiga pelas ruas próximas. Com sorte, logo visualizou o carro de Elisa e fez sinal para que ela parasse.

-Fala, mas seja rápida.

-Desculpa, Elisa. Não devia ter feito isso. Estou nervosa e devo estar parecendo mesmo uma adolescente. Sei lá, não sou assim.

-Não mesmo. Volta para o carro, que eu não te vi andando pela rua de pijama.

-Pijama?! Ai, meu Deus!…Está certo, mas você me desculpa?

-O que eu posso fazer, dizer não? E aí, você continua com essa cara e passando a maior vergonha, vendo as pessoas repararem no seu visual dormitório urbano. Melhor eu te perdoar, senão irão pensar que sou louca também?

-Está bem. Depois, eu te ligo.

-Ainda não desisti da festa na casa do Antônio.

-Hei, está olhando o que, garoto? Nunca viu uma camisola, não?

-Não tão curta, madame!

-Descarado!

-Raissa, querida, ele não está de todo errado. Vai embora antes de ouvir mais gracejos desses.

-Está bem, mas me liga para explicar melhor de quem é essa tal festa e quem é esse Antônio.

Cada qual entrou no seu carro, voltando a suas ocupações de feriado. Elisa, provavelmente, aproveitaria o tempo vago para arrumar-se e Raissa, a garota ainda não se recuperara muito bem.

-Droga, eu não esqueço! Parece praga e daquelas que acabam com qualquer plantação. E se eu bati nele foi porque eu não gostei, certo? Hei, eu estou falando com você, responde! – e Raissa franzia a sobrancelha, com semblante pesado, olhando-se ao espelho – Como sou tola, se eu e você somos a mesma pessoa…Bem, vamos raciocinar. O beijo, eu até que gostei, mas não tinha de ser assim, tão rápido. Outra coisa, se eu ficar aqui em casa sozinha vai ser pior. À festa, caríssima!

A garota entrou na banheira e usou quase que todos os sais de banho que estavam no armário, sem reservas. Os aromas misturados pareciam acalmar o ambiente e a água que jogava contra o rosto, era como um bálsamo perfumado. Com uma hora imersa nas águas, parecia ter tirado todo e qualquer mau humor. Raissa tirou o telefone do gancho e foi até a cozinha preparar um lanche:

-Oi, Lisa. Beleza?

-Beleza. Vem cá, você está bem?

-Estou ótima. Por que?

-Geralmente você perguntaria se está tudo bem e não “beleza”. Acho até que eu espero um “Como tem passado?” de vez em quando, mas está certo. Fala.

-A que horas é a festa?

-Às dez. Não acredito. Você vai?

-E por que não?

-Está bem, então fique sabendo que a festa vai ser meio hi-tech como a da danceteria ontem, muita música eletrônica.

-Ah, melhor. Assim não preciso improvisar nenhuma fantasia. Ótimo!

-Você acha que alguém está para fantasias? Mundo moderno!

-E conta aí, quem é o Antônio?

-Você deve conhecê-lo de alguma das festas das quais fomos convidadas.

-Espera, você se esquece de que a mais convidada para festas é você. Conheço mais que um Antônio, mas nenhum que me lembre, em especial.

-O Antônio é filho de um dos amigos do papai. Acabei descobrindo que estudamos juntos no tempo em que morei na Inglaterra.

-Coincidência boa. Aliás, éramos vizinhos no intercâmbio. Ficamos em casas que ficavam na mesma rua.

-Paixão antiga?

-Não necessariamente. Também, eu tinha quinze e ele dezoito. Não sairia com uma garotinha, naqueles tempos.

-Garotinha? Sei…Bem, melhor deixar de papo. Tenho que me arrumar. Até mais!

– Passo aí para irmos juntas. Tchauzinho!

 Raissa desligou o telefone e começou a grande maratona. Era sempre assim quando aparecia uma festa para ir. Pilhas e pilhas de roupas sobre a cama e abre e fecha constantes de gavetas para escolher o que mais combinasse com o seu humor, o que acabava levando umas duas horas, sem considerar-se isso apenas como força de expressão. Contabilizando o tempo desde o momento em que desligara o telefone, às sete e quinze, fato certo ela se atrasar, ou não. Isso porque não perdia o senso de organização, mais uma hora para arrumar o armário e gastara exatamente duas horas e quarenta e cinco minutos para estar pronta.

-Alô. Oi, Elisa. Gostei da pontualidade (uma leve olhada no relógio). Exatamente dez horas, em ponto. Estou descendo.

Na porta da casa de Antônio, os carros não paravam de chegar. Nem todos amigos, o que não se podia estranhar. Afinal, festa badalada tem sempre os famosos desconhecidos, amigo do amigo, do amigo e algumas vezes, acontecem péssimos encontros que de coincidências passam a desastres.

-Vem cá, não é o Gim aquele ali? – percebia Elisa.

-Hã? Aham. Droga!

-Olá. – cumprimentava o rapaz.

-Tarde demais.

-Tarde para que, Raissa?

-Lisa, ele sabe meu nome.

-Claro. O cara te beija e…

-Elisa!

-Desculpa. Eu vou entrando. Entrega a chave para mim depois.

-Está bem. Vai.

-Então. O que foi ontem?

-O que? O beijo? Eu nem me lembro, quer dizer, lembro, mas não quero lembrar não. Um engano, sabe? Eu nem sei seu nome.

-Maurício, prazer. Raissa, não leva a mal. Foi só um beijo.

-Ah, foi só. Então você não gostou?

-Gostei, muito.

-Afasta um pouco o rosto, eu estou te ouvindo bem. Ai, seu rosto. Ainda está um pouco…

-Vermelho, mas logo sai. Também, quem sabe eu falo que é um bronzeado. Feriado, praia. Acho que é uma boa explicação para dar a quem perguntar pelo ocorrido.

-Engraçado. Você é sempre assim, ou…

-Só quando eu me apaixono por alguém.

-Ah, pelo amor de Deus. Você só pode estar ficando…

-Louco, louco por você.

-Será que você vai deixar eu terminar…

-O que?…Tá, fala.

-…Terminar uma frase. Por favor, sai do carro.

-Calma, não vou…

-Morder? Espero que não.

-Tá vendo, já pegou uma das minhas manias.

-Como assim?

-Interromper os outros quando falam.

-Hilário. Vamos entrando, já que vim até aqui não vou perder a festa.

-Vamos?

-Você na frente. Depois eu entro.

-Não, não. Vai ter que se desculpar por ontem, entrando comigo.

-Isso é um…

-Abuso. Não, eu sou bonzinho. Ainda não te…

-Mas nem vai. Me beijar de novo?

-Pretensiosa. Pegar na sua mão.

Riam-se. Como se fossem jovens autênticos do século XIX, polidos e receosos pela reação do outro, como os mocinhos dos filmes de época.

-Acompanha-me, senhorita?

-Até passar a porta de entrada, quem sabe?

-Já é um bom começo.

E Maurício estendia o braço à garota. Carro estacionado e no seguro, nenhuma discordância com os medos da cidade grande, aliás temores que já tomam conta também dos interiores. Cidade grande não mais como sinônimo de violência, apenas a primeira a ganhar o adjetivo. Problemas de metrópole, noticiários mais ágeis e cores mais fortes pintando o cenário local.

(…)

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