Mais uma de amor – Parte I.2

Mais uma de amor – Parte I.2

São Paulo, 11 de fevereiro de 2002. Segunda-feira de Carnaval.

 

-Um papelão, cara. E depois, como foi a festa?

-O pessoal todo foi embora. Normal, sabe como fica o clima quando alguém acaba passando um pouco do ponto. Igual a churrasco, quando a carne fica dura não há quem agüente.

-Só você mesmo, Tony. Mas e a guria, a Raissa, o que falou?

-Você acha o que? Foi embora como os outros, claro. Mas espera que a gatinha amansa, nem todo bichano é traiçoeiro.

-E você me conhece, em dois tempos eu…Ai, minha cabeça…

-Toma, o comprimido e a água já estavam te esperando.

-Valeu. Ai…daqui a pouco passa. Ainda preciso ligar pra guria e desfazer o malfeito.

-Pode ligar, mas já está tudo meio que acertado. Jantar no Porto. Encontro duplo, saca? Eu, a Lisa, você e a Raissa. Topa?

-Que pergunta? Gostei da sua agilidade. E a tia, não reclamou de eu ficar aqui, meio variado?

-Você quer dizer bêbado…Não, minha mãe não falou nada. Ela e o pai viajaram logo cedo. Falei que caiu sua pressão. Nem sei se ela acreditou, mas beleza.

-Valeu, primo.

-Depois você passa no meu quarto e pega umas roupas pra trocar.

-Só mais uma coisa. Quem me tirou do chão?

-Eu e o Pedro.

-O Pedro, aquele mala que trabalha com você na empresa do seu avô?

-Poxa! O cara te ajudou.

-Tudo bem, mas é mala.

-Quando você vai perder esse jeito, Maurício?

-Quando você der mais festas por aqui, por livre e espontânea vontade e não por pressão minha.

-Você sabe que não sou tão ligado assim em festas?

-Mas devia.

Antônio saía do quarto, meio ressabiado, encostando a porta do dormitório.

-Hei!

-Fala.

-Obrigado mesmo por me salvar do desastre da noite.

-Não precisa agradecer. Na boa, não ia te deixar dormindo no chão, sem a sua Julieta. Melhor que sonhasse num local mais confortável – e ironizava com um sorriso aberto no canto dos lábios.

-Você vai ver. Mauricinho, a Fera da Zona Sul, atacando novamente. Agora me deixa dormir um pouco e me livrar dessa dor de cabeça, Jarbas.

-Jarbas?! Sacaneia mesmo.

A noite não havia sido a das mais tranqüilas, o que era de se esperar depois de alguns copos de gim e poucos petiscos. Óbvio que bebendo sem moderação, mal tendo se alimentado, Maurício acabaria com uma desagradável ressaca. E não adiantava falar-se dos truques antigos ou mesmo novos, pois seu mal estar só passaria verdadeiramente depois de um bom descanso. E mais, o truque dos desavisados sobre beber novamente para a cura da bebedeira anterior só geraria mais prejuízos. Porém, definitivamente, ressaca era um assunto o qual não passava pela mente de Raissa.

-Oi, Elisa. Você não podia arrumar um horário mais apropriado para me ligar não?

-Ah, querida. Meio-dia e meia, agora. Que tal um almoço numa cantina italiana?

-Lisa, minha amiga, se é que eu ainda posso te chamar assim?

-Hei, espera aí. Dessa vez eu não fiz nada. Você aceitou o meu convite para ir à festa. E eu quem devia estar chateada contigo.

-Comigo? Quem foi agarrada por um estúpido que ainda se acha alguma coisa só porque, sei lá por que.

-Por isso mesmo. Você foi agarrada por aquele cara, e que cara…E eu, fiquei ali só de papinho com o Antônio. Ficamos os dois como dois executivos nos tratando com aquelas mesuras que nem sempre valem à pena, ainda mais quando se está a fim de alguém. Saca aquela de pedir licença para tudo e pedir desculpas por ter esbarrado seu rosto quando tentava falar mais perto por causo do som alto da música?

-Sei, sei…

-Não. E tem mais, ele ficou preocupado com o infantil do primo dele que não pode beber uma gota de álcool que faz besteira e nem pude me despedir. Sem noção.

-Calma, Lisa. Quando você começa a embarcar de mais na gíria, logo “saco” que o buraco é mais embaixo.

-Fala isso para o Antônio, acho que ele não sabe ainda.

-Lisa!! O que é isso. Maneirar um pouco seria ótimo. Você queria que o cara…

-Não, só queria um beijo. Morri de inveja de você.

-Que feio, sua mãe devia cortar sua sobremesa por cometer um pecado desse. Sabe que inveja é pecado capital, não é?

-Lá vem você me aborrecer logo cedo, também. Criança, sou criança sim…De vez em quando, eu assumo. Normal, certo?

-Não sei. Ah, e não estou te aborrecendo “tão cedo”, você mesma me chamou para o almoço.

-E você vai?

-Não, melhor não. Massa só como se for um macarrão sem molho. Li esses dias que o que engorda é o molho. Ainda mais se acompanhado de carne vermelha.

-Isso, senhorita. Continua com essas dietas malucas e vai parar numa clínica. Pena que ainda não terminei o curso pra ser segura nas minhas dicas de alimentação, se não estaria te colocando nos eixos. Se bem que você não come bem de loucura sua, se fosse gorda vá lá, mas não é o caso.

-Vá, deixe suas dicas pra quando terminar o curso e trabalhar como nutricionista de algum time de futebol.

-Eu chego lá, espera.

-Tenho certeza. E o almoço, então, esquece.

-Come salada, mas vamos comigo. Ainda preciso te contar umas coisas. Ah! Temos compromisso para esta noite.

-Que?

-No restaurante te falo melhor. Agora, levanta da cama, tira esse borrado de rímel dos olhos, te arruma!

Raissa toma o espelho ao lado da cama:

-E como sabe que eu estou de olhos borrados.

-Não precisa ser uma adivinha. Tinha certeza que ia chorar assim que trancasse a porta do apartamento e jogasse a bolsa no sofá.

-Não acredito. Qualquer dia vou te consultar para saber dos projetos da agência. E por favor, sem comentários com seu amiguinho, o Antônio, sobre eu ter chorado por causa do…quer dizer…

-Tudo bem, não falo nada sobre ter chorado pelo Gim (risos). Uma e meia, esteja lá.

-É aquela cantina na Mooca?

-Garota esperta. Tchauzinho!

Dessa vez, Raissa pegou a primeira roupa que viu pela frente, retirou a maquiagem pesada da noite e após o banho, apenas um batom no rosto delicado. Não que fosse desleixada com o visual, mas não gostava de carregar muito nos traços e nas cores, preferia a discrição a exuberância acentuada.

Mais alguns minutos e a organização do quarto também estava completa. Nada de cobertores retorcidos e lençóis amassados, tudo no seu perfeito estado. Espelho, bom, sem olheiras, chave da porta na bolsa e a do carro na mão, elevador, térreo:

-Boa tarde, seu José. Alguma correspondência?

-Hoje não. Feriado, dona Raissa.

-É mesmo. Obrigada.

Garagem, carro, restaurante:

-Olá.

-Dessa vez pensei que fosse se atrasar.

-Não. Pode olhar no seu relógio. Uma e meia, certo?

-Claro. Eu cheguei antes por causa da mesa. Detesto espera de fila em restaurante. E você sabe que feriado é sempre uma disputa.

-Pelo menos você não escolheu uma churrascaria.

-Bem, mas vamos logo ao assunto.

-Assunto…Hum, por acaso esse assunto é sobre uma menininha mimada e um intercâmbio na Inglaterra?

-Engraçado…Tá, é mais ou menos isso.

-Fala. Pelo menos não tem nada a ver comigo.

-Mais ou menos. E se eu disser que temos um jantar no Porto hoje à noite?

Raissa fez aquela cara de quem não quer dizer nada e ao mesmo tempo diz tudo, algo como uma ligeira franzida de sobrancelha e a evasão num silêncio absoluto. Isso porque o Porto era um restaurante daqueles à beira da estrada direcionado a casais apaixonados ou casais conhecidos de tempos que se cansavam do cinema ou da agitação das danceterias aos sábados.

-Fala alguma coisa.

-Falar o que? Complete o seu raciocínio primeiro.

-Certo. Eu assumo, encontro duplo eu, você, o Maurício e o Antônio. Que acha? Bom?

-Péssimo. Como você marca algo assim e só me comunica…Deixe-me ver… – leve olhada no relógio – …Doze horas depois, aproximadamente.

-Aceita. Por favor, depois você não ia fazer nada hoje mesmo. Não disse que sua mãe só vem amanhã para vocês almoçarem?

-Lisa, não dá. Você sabe que…

-…que você está quase caindo no charme da “Fera da Zona Sul”. Sei, claro. Uma ótima chance pra vocês e pra mim e o Antônio, óbvio.

-Hei, o que é isso de “Fera da Zona Sul”?

-É como o seu felino costuma se auto-intitular.

-Meu felino? Enlouqueceu, não é?

-Não, não.

O garçom vinha, solícito, atendê-las.

-Já escolheram, senhoritas.

-Sim. Uma salada mista e uma água, sem gelo, por favor. – adiantava-se Raissa.

-Uma lasanha ao molho à bolanhesa e mais uma soda, por favor.

-Mais alguma coisa? – dispunha-se o garçom.

-Não…Sim, esqueça a salada mista e a água. Veja o mesmo que anotou para a minha amiga.

-Pois não, senhorita.

-Pecado, Raissa. Sabe que a gula também é condenável, não?

-Depois, Lisa. Não vou resistir a um molho vermelho com bastante carne. Mas, vou passar a tarde toda na esteira e sem nada. Só água pra hidratar.

-Não vou nem falar nada. Você sabe que ficar sem comer não é uma boa.

-Só hoje. Não tem problema.

-Vai nessa… – observava Elisa, com ares de desaprovação.

-E quer saber, dessa vez eu vou te ajudar. Confirma o horário e eu me arrumo até a hora combinada.

-Estou gostando de ver. Mais uma vez consigo te tirar de casa e sem muita luta.

-Não, não. Esse round da luta eu ganhei. Afinal, quem decidiu ir fui eu.

-E aí?

-E aí que terás um encontro graças a mim, caríssima.

-Corta essa de terminar esses verbos com esses “terás”, terá você que estar bem para essa noite e sem desmaios, bela!

-Ma claro! E vamo comê que se não a comida esfria – e Raissa forçava no sotaque italiano.

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Mais uma de amor – Parte I.1

Mais uma de amor – Parte I.1

A raiva inicial de Raissa passava aos poucos, até porque tivera raiva de si mesma por não controlar seus impulsos e não de outrem. O rapaz a divertira com seus jogos de palavras e o jeito alegre de quem não tem tantas preocupações com a vida. Afinal, era carnaval e passar os dias de folia trancada em casa, assistindo às mesmices das transmissões dos desfiles de carnaval transmitidos na tv não era um negócio da China, quanto mais do Brasil e especialmente para uma paulistana que já não havia viajado para o litoral nem fugido para o clima da serra – escapara do engarrafamento das estradas e negara a tranqüilidade intimista dos sítios. Festas de amigos, de clubes, até um suco na lanchonete da esquina, mas nada de ficar parado a espera do próximo bonde, a estacionar numa estação da máquina do tempo, por enquanto situação possível só em ficção científica.

 

-Gim, por favor.

E Raissa punha-se a rir ao ver o rapaz tomar a bebida.

-E então. Qual a piada?

-Nada, besteira minha.

E Elisa vinha em auxílio.

-A Raissa é tonta mesmo, está rindo das minhas caretas. Anos de amizade e ainda não se acostumou. Coisa de garota, sabe. – e soltava sua gargalhada sempre natural, até quando improvisada.

-É isso. Besteira, Maurício.

-E como ficou sabendo da festa? Coincidência  a gente se encontrar assim.

-Ah, nenhuma coincidência, Lisa…Posso te chamar assim, certo?

-Claro. Quer dizer, cinco minutos de conversa e já pega intimidade? Estou brincando. Tudo bem. Todos acabam me chamando assim mesmo. Elisa só no registro ou quando a Raissa tende a rever seus modos de boa moça.

-Lisa?!

-Ah, só falei a verdade. Mas diz Maurício, como soube da festa?

-O Tony é meu primo.

-Primos? Tudo em família.Bom, bom.

-Vocês são sempre engraçadas?

-Ele chamou a gente de palhaças, Raissa. Acredita?

-Claro. E quer ver outra gracinha, Maurício querido? Está aqui o seu gim.

Raissa tomou o copo da bandeja do garçom e jogou a bebida na camisa do rapaz. Nem seria preciso notificar quão ele  ficou furioso, mas controlou-se, claro. “Não bater numa garota, nem que seja com uma flor” – imediatamente a frase que ouvira de pequeno veio à sua mente. Curioso como a memória infantil desperta, de vez em quando, em flashes. A frase havia sido proferida da boca de uma tia num dos almoços de família quando as rusgas entre os primos afloravam e  as diferenças entre meninos e meninas terminavam em agressões. Crianças não costumam palestrar para resolver seus problemas.

-Nessa você mandou muito mal, Raissa…Raissa?!

A garota segura e hostil de alguns segundos desabava no meio do salão e só não caía porque Maurício a tomava a tempo. O que se arrebentava em cacos era o copo, não resistindo à perda de firmeza de sua mão.

 

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-Raissa, tudo bem?

-Oi, estou bem. Mas o que eu estou fazendo aqui? Que quarto é esse? E meu vestido, quem abriu assim?—e passava a mão sobre o pescoço, com o cenho perturbado.

-Você despencou no meio do salão e eu te trouxe aqui, pra respirar um pouco. E o quarto é o do meu primo, o Tony.

-Ah, sim…A festa…Desculpa. Bem, mas não precisava abrir meu vestido assim?

E como Maurício a olhava risonho, a garota erguia o braço para atingi-lo, já sentada na cama, de pronto.

-Calma—Maurício segurava seu braço—só fiz isso para você não ter nada te sufocando e o ar passar mais rápido. Ou será que não sabe nem os conceitos básicos de primeiros socorros.

-Tudo bem. Fui meio precipitada. Pode largar o meu braço.

-Esperava um obrigado, pelo menos.

-Obrigada, caríssimo.

-Irônica… Esquece. Vamos voltar pra festa?

-Claro! E os meus sapatos?

-Tá na mão. Deixa eu te ajudar.

-Não precisa, não. A criança já sabe se calçar sozinha.

Raissa levantava um pouco debilitada ainda, zonza pelo desmaio. Tocar o chão era como pisar em ovos sem nem sequer quebrá-los. Alguém diria como andar na lua, como astronauta.

-Cuidado. Você está fraca. Melhor eu pegar alguma coisa pra você aqui. Come barra de cereais, certo?

-Obrigada, não preci…

-Espera, eu te apoio. Não cai não que eu estou ficando mal de reflexos. Que tal comer sim?

-Está bem.

-E toma esse copo de refrigerante também.

-Refrigerante?

-Açúcar para te reanimar. Não te carrego nos braços de novo se não amanhã não saio da cama?

-Está me chamando de gorda. Só se estiver ficando louco. Quem só come queijo branco, de preferência light e aboliu refrigerante do seu cardápio, não pode ganhar mais que meio grama por fim de semana—e disparava a falar num estirão.

-Brincadeira…Vovó te chamaria de varapau se a visse.

-Como você é engraçado. Vê-se bem que você deve gostar das gírias da vovó. Quem nos dias de hoje gosta de gim só pode conservar vocabulário tão antigo.

-Obrigado pelos elogios, Raissa. Dois minutos era pouco tempo pra você dar demonstrações da sua boa educação.

-Eu vou embora. Agradeça seu primo por oferecer o quarto para eu descansar um pouco.

-Bem, então agradeça a mim mesmo pela hospitalidade. Eu e o Tony não temos tais formalidades. Não preciso pedir permissão para auxiliar alguém convalescente.

-Convalescente eu? Ainda tenho mais dois dias de folia. Carnaval, festa!

-Menos mal. Come on lady!

  -Ok, guy. Let’s go!

Voltaram para a festa e aproveitaram bem a noite. Não, não se beijaram novamente, mesmo porque Raissa esmerou-se para permanecer afastada de Maurício, ainda que os préstimos do rapaz a tivessem agradado. Havia recebido de bom grado o auxílio do rapaz, todavia foi só se recuperar da tontura para largar o braço dele e voltar a circular sozinha pelo salão, para efeito de ciúme imediato e mais copos de gim serem entornados pelo mancebo. Por ele, certamente viveriam uma história de Romeu e Julieta, com uma diferença apenas, não desejaria morrer antes de gozar das riquezas da família e antes só, com relacionamentos instáveis para satisfazer seus ímpetos, que morto a desposar sua amada no sepulcro.

-Acho que você devia parar de beber um pouco, senhor.

-Eu, parar de beber – e retrucava ao conselho do garçom – Não. Bebi pouco. O senhor não esqueceu que é carnaval, não é? Passa mais um copo.

-É, Maurício. Melhor você parar. Acho que não vai querer estragar a festa do seu primo.

-Elisa, dá um tempo. Já vi você pegar uns três copos de champanhe – e a olhava risonho – Depois, o Tony sabe que eu gosto de me divertir. Fala aí, primo.

-Tá, mas já passou sua cota. Vamos, eu levo você pra casa. Ou você dorme aqui.

-Isso, eu durmo aqui e então posso aproveitar até o fim da festa.

-Não, vá dormir.

-Não! – e se exasperava como qualquer pessoa embriagada que é contrariada – Antes eu preciso ficar com a gracinha.

Maurício se livrou de Antônio, o empurrando e foi em direção a Raissa. Agarrou-a de súbito e como resposta, obviamente, outros cinco dedos em seu rosto. E pela moleza, facilmente desequilibrou-se, caindo no chão.

(Continua)

Mais uma de amor

Algumas boas doses de açúcar, comicidade e claro, uma pitada de drama. Receita de comédias romênticas, com as quais, certamente, você já se deparou por aí. É com base nessa proposta que começa Mais uma de amor, minha próxima história que se inicia hoje.

 Tudo começa numa noite de Carnaval não muito animada datada de 2002, mas que poderia ter sido a mesma sequência de fatos se passasse nos dias atuais.

Será uma grande alegria tê-lo como leitor e claro, comentarista ativo de suas expectativas e decepções no decorrer dessa história. O convite está feito e se desvendam agora as primeiras impressões de um carnaval. Foco em Raissa, a protagonista da vez.

David Felipe.

Mais uma de amor

Parte I

 São Paulo, 10 de fevereiro de 2002. É carnaval, mas Raissa não quer saber de festas, afinal é um longo dia de reflexões que terá de enfrentar, trancada em seu apartamento, isolada do mundo por alguns instantes, até o porteiro chamá-la ao interfone para dar algum recado ou entregar a correspondência que não recebe há uma semana. Isso na melhor das hipóteses, já que se não tirar o telefone do gancho, deverá atender as ligações de Elisa, a convidando para o baile do clube ou a festa particular na casa de algum amigo em comum. Não que Raissa não goste de festas, mas não hoje, depois dos acontecimentos da noite.

-E lá está ele, parado ali no bar sem sequer olhar ao redor, marcando o passo e em quatro ou cinco goles, terminando de tomar o gim que pediu ao garçom. Costume antigo este, mas fazer o que, provavelmente aprendeu a tomar aquilo com os pais ou os avós. O curioso é que suas roupas são bem modernas.

-Cisma essa a sua, Raissa. Deixe ele terminar a bebida dele em paz. Até agora ele nem olhou para você. Ficar incomodada assim, por quê?

-Por nada, só que me incomoda. Não sei se percebeu, mas sempre que resolvemos sair da pista e descansar um pouco por aqui, ele está lá, como uma sombra.

-Imagine, ele está só descansando também.

-Eu não vi ele dançar.

-Está parecendo doença, Raissa. Esquece isso.

-Tudo bem. Vamos dançar.

A música eletrônica rolava na pista e todos dançavam, freneticamente, movendo seus corpos a cada batida do som. Elisa era uma das que mais se divertia, com seu jeito maroto, fazendo Raissa dar boas risadas de seus passos inventados de pronto.

-Elisa.

-Fala mais alto, não estou escutando nada!

-Olha ele ali de novo!

-Ele quem?!

-O cara da mesa ao lado!

-Que cara?!

-O do gim!

-Ah, sei. O Gim!

-Gim?! Talvez ele tenha um nome mais comum, pelo menos.

-Esquece, já disse.

O rapaz se aproximava, aos poucos, e passava a buscar os olhares de Raissa. Ela não se empenhava em chamar a atenção dos outros, todavia parecia ser isso o que fazia com que fosse observada o tempo todo.

Apesar da cisma, a garota não desviava seus olhares e até que gostava daquilo. Concordava plenamente com aquele conceito de que é bom ter o ego “massageado” de tempos em tempos e a vaidade de uma jovem de vinte anos aflorava, certamente.

Maurício, era esse o nome do rapaz tão misterioso que a fitava a noite toda. Filho de um dos empresários mais bem sucedidos da cidade, trabalhava com marketing e nos seus vinte e dois anos não possuía tantos sonhos de consumo, pois realizava a todos, quase sempre. Embora calado no início e estranho, aparentemente, não era bem aquilo que se podia pensar.

Olhos nos olhos, bocas entre abertas…Beijaram-se, inevitável. Raissa não costumava agir assim. Quando saía à noite, queria apenas curtir o local e espairecer um pouco, dando um tempo nos estudos e saindo da rotina de trabalho. Ela estudava Publicidade no período noturno e durante o dia, era assistente numa agência de comerciais, graças aos contatos do pai, um senhor muito bem relacionado. O emprego ficara por conta de uma antiga cliente do escritório contábil do patriarca da família, a qual a indicara para a vaga. Não que a garota não tivesse capacidade, porém com sua pouca idade e sem o curso completo, seria difícil empregar-se tão rapidamente.

No término do primeiro beijo, apenas seus cinco dedos marcados na vermelhidão do rosto de Maurício, sem que dissesse seu nome ou perguntasse o do rapaz. Nada cortês, foi isso o que também achara depois de sair da danceteria às pressas e voltar ao apartamento.

Cortesia com quem lhe vê a primeira vez e logo te beija? Não seria um modo tão imediato de agir, mas se correspondera ao toque em seus lábios era porque algo a envolvera, provavelmente o certo ar de mistério e o desconhecido que tão suavemente havia se aproximado.

Raissa dormira pouco, acordando cedo e permanecendo prostrada no sofá, mudando a música do rádio pelo controle remoto, não parando em uma estação por mais que cinco minutos. Os cabelos jogados, cobrindo seus olhos e o rosto marcado com algumas olheiras aparentes. 

-Alô. Oi, Elisa. Não, não estou bem para sair hoje – o telefone saía do ostracismo do descanso sobre o móvel – Sério, quem sabe na próxima semana?…Como assim, não vai ter jeito de desistir? Você…

E os ruídos que não dependiam de sua vontade para serem acionados, passavam a querer agir, conjuntamente, sem cerimônias com a dona da casa. A campainha tocava e Raissa era obrigada a ir com o telefone apoiado no ombro para atender a porta.

-Elisa. Não acredito.

-Pronto, pode desligar o telefone que eu não vou te incomodar mais.

-Como o porteiro te deixou entrar?

-Já me conhece. E você sabe, dispenso apresentações.

-Muito engraçado. E ainda gasta crédito do celular com isso.

-Papai que carregou este mês.

-Não sei como você consegue ficar tão dependente.

Raissa tinha a faculdade custeada pelos pais e o apartamento pertencia à família, entretanto as demais despesas ficavam por sua conta, fruto de seu trabalho. Uma independência com teor de protecionismo e facilidades de crediário, ainda que fosse um bom começo para uma jovem que passara a vida toda com as melhores oportunidades e estabilidade financeira. Ela resolvera tentar crescer mais, a seus modos.

-Não sei o que há de tão interessante nessa sua “independência” – e Elisa frisava seus dizeres, em ironias.

-Quer saber? Estou a fim de ficar sozinha.

-Puxa! Eu venho te animar e é assim que você me trata. Tudo bem, eu vou embora. Fica aí curtindo sua fossa, dando uma de adolescente mimada, como se fosse o primeiro beijo da sua vida.

Foi só um, porém cruel demais. Raissa largou o telefone e acertou um tapa violento no rosto da amiga.

Os olhos de Elisa encheram-se de lágrimas e por mais difícil que fosse, tentava manter o equilíbrio:

-Você está com problemas sérios. Isso não é normal. Sabe, eu devia te agredir, mas eu não vou fazer isso…

Raissa ameaçava interrompê-la.

-…Não fala nada, só escuta. Você precisa de uma análise o mais rápido possível ou quem vai ficar desequilibrado seremos nós que pensamos ser amigos e na primeira oportunidade recebemos um “agrado” como esse com que você acabou de me presentear. Lamentável.

-Espera!

Elisa nem sequer esperou pelo elevador, desceu pelas escadas colocando os óculos escuros para esconder seu pranto. Raissa ainda a viu da sacada, arrependida do modo como agira. Estava fora de controle. O que fizera com a amiga fora um claro sinal de seu nervosismo, nunca agiria daquele modo com Elisa. Ela tomou o primeiro elevador que parou no andar, desceu até o estacionamento e tentou achar a amiga pelas ruas próximas. Com sorte, logo visualizou o carro de Elisa e fez sinal para que ela parasse.

-Fala, mas seja rápida.

-Desculpa, Elisa. Não devia ter feito isso. Estou nervosa e devo estar parecendo mesmo uma adolescente. Sei lá, não sou assim.

-Não mesmo. Volta para o carro, que eu não te vi andando pela rua de pijama.

-Pijama?! Ai, meu Deus!…Está certo, mas você me desculpa?

-O que eu posso fazer, dizer não? E aí, você continua com essa cara e passando a maior vergonha, vendo as pessoas repararem no seu visual dormitório urbano. Melhor eu te perdoar, senão irão pensar que sou louca também?

-Está bem. Depois, eu te ligo.

-Ainda não desisti da festa na casa do Antônio.

-Hei, está olhando o que, garoto? Nunca viu uma camisola, não?

-Não tão curta, madame!

-Descarado!

-Raissa, querida, ele não está de todo errado. Vai embora antes de ouvir mais gracejos desses.

-Está bem, mas me liga para explicar melhor de quem é essa tal festa e quem é esse Antônio.

Cada qual entrou no seu carro, voltando a suas ocupações de feriado. Elisa, provavelmente, aproveitaria o tempo vago para arrumar-se e Raissa, a garota ainda não se recuperara muito bem.

-Droga, eu não esqueço! Parece praga e daquelas que acabam com qualquer plantação. E se eu bati nele foi porque eu não gostei, certo? Hei, eu estou falando com você, responde! – e Raissa franzia a sobrancelha, com semblante pesado, olhando-se ao espelho – Como sou tola, se eu e você somos a mesma pessoa…Bem, vamos raciocinar. O beijo, eu até que gostei, mas não tinha de ser assim, tão rápido. Outra coisa, se eu ficar aqui em casa sozinha vai ser pior. À festa, caríssima!

A garota entrou na banheira e usou quase que todos os sais de banho que estavam no armário, sem reservas. Os aromas misturados pareciam acalmar o ambiente e a água que jogava contra o rosto, era como um bálsamo perfumado. Com uma hora imersa nas águas, parecia ter tirado todo e qualquer mau humor. Raissa tirou o telefone do gancho e foi até a cozinha preparar um lanche:

-Oi, Lisa. Beleza?

-Beleza. Vem cá, você está bem?

-Estou ótima. Por que?

-Geralmente você perguntaria se está tudo bem e não “beleza”. Acho até que eu espero um “Como tem passado?” de vez em quando, mas está certo. Fala.

-A que horas é a festa?

-Às dez. Não acredito. Você vai?

-E por que não?

-Está bem, então fique sabendo que a festa vai ser meio hi-tech como a da danceteria ontem, muita música eletrônica.

-Ah, melhor. Assim não preciso improvisar nenhuma fantasia. Ótimo!

-Você acha que alguém está para fantasias? Mundo moderno!

-E conta aí, quem é o Antônio?

-Você deve conhecê-lo de alguma das festas das quais fomos convidadas.

-Espera, você se esquece de que a mais convidada para festas é você. Conheço mais que um Antônio, mas nenhum que me lembre, em especial.

-O Antônio é filho de um dos amigos do papai. Acabei descobrindo que estudamos juntos no tempo em que morei na Inglaterra.

-Coincidência boa. Aliás, éramos vizinhos no intercâmbio. Ficamos em casas que ficavam na mesma rua.

-Paixão antiga?

-Não necessariamente. Também, eu tinha quinze e ele dezoito. Não sairia com uma garotinha, naqueles tempos.

-Garotinha? Sei…Bem, melhor deixar de papo. Tenho que me arrumar. Até mais!

– Passo aí para irmos juntas. Tchauzinho!

 Raissa desligou o telefone e começou a grande maratona. Era sempre assim quando aparecia uma festa para ir. Pilhas e pilhas de roupas sobre a cama e abre e fecha constantes de gavetas para escolher o que mais combinasse com o seu humor, o que acabava levando umas duas horas, sem considerar-se isso apenas como força de expressão. Contabilizando o tempo desde o momento em que desligara o telefone, às sete e quinze, fato certo ela se atrasar, ou não. Isso porque não perdia o senso de organização, mais uma hora para arrumar o armário e gastara exatamente duas horas e quarenta e cinco minutos para estar pronta.

-Alô. Oi, Elisa. Gostei da pontualidade (uma leve olhada no relógio). Exatamente dez horas, em ponto. Estou descendo.

Na porta da casa de Antônio, os carros não paravam de chegar. Nem todos amigos, o que não se podia estranhar. Afinal, festa badalada tem sempre os famosos desconhecidos, amigo do amigo, do amigo e algumas vezes, acontecem péssimos encontros que de coincidências passam a desastres.

-Vem cá, não é o Gim aquele ali? – percebia Elisa.

-Hã? Aham. Droga!

-Olá. – cumprimentava o rapaz.

-Tarde demais.

-Tarde para que, Raissa?

-Lisa, ele sabe meu nome.

-Claro. O cara te beija e…

-Elisa!

-Desculpa. Eu vou entrando. Entrega a chave para mim depois.

-Está bem. Vai.

-Então. O que foi ontem?

-O que? O beijo? Eu nem me lembro, quer dizer, lembro, mas não quero lembrar não. Um engano, sabe? Eu nem sei seu nome.

-Maurício, prazer. Raissa, não leva a mal. Foi só um beijo.

-Ah, foi só. Então você não gostou?

-Gostei, muito.

-Afasta um pouco o rosto, eu estou te ouvindo bem. Ai, seu rosto. Ainda está um pouco…

-Vermelho, mas logo sai. Também, quem sabe eu falo que é um bronzeado. Feriado, praia. Acho que é uma boa explicação para dar a quem perguntar pelo ocorrido.

-Engraçado. Você é sempre assim, ou…

-Só quando eu me apaixono por alguém.

-Ah, pelo amor de Deus. Você só pode estar ficando…

-Louco, louco por você.

-Será que você vai deixar eu terminar…

-O que?…Tá, fala.

-…Terminar uma frase. Por favor, sai do carro.

-Calma, não vou…

-Morder? Espero que não.

-Tá vendo, já pegou uma das minhas manias.

-Como assim?

-Interromper os outros quando falam.

-Hilário. Vamos entrando, já que vim até aqui não vou perder a festa.

-Vamos?

-Você na frente. Depois eu entro.

-Não, não. Vai ter que se desculpar por ontem, entrando comigo.

-Isso é um…

-Abuso. Não, eu sou bonzinho. Ainda não te…

-Mas nem vai. Me beijar de novo?

-Pretensiosa. Pegar na sua mão.

Riam-se. Como se fossem jovens autênticos do século XIX, polidos e receosos pela reação do outro, como os mocinhos dos filmes de época.

-Acompanha-me, senhorita?

-Até passar a porta de entrada, quem sabe?

-Já é um bom começo.

E Maurício estendia o braço à garota. Carro estacionado e no seguro, nenhuma discordância com os medos da cidade grande, aliás temores que já tomam conta também dos interiores. Cidade grande não mais como sinônimo de violência, apenas a primeira a ganhar o adjetivo. Problemas de metrópole, noticiários mais ágeis e cores mais fortes pintando o cenário local.

(…)

Clube 15 – Considerações Finais

Chegou ao fim a história de Clube 15, a primeira de minhas histórias que pude compartilhar com vocês que acompanham o blog desde o início.  Espero que tenham absorvido algo de positivo entre as alegrias e passamentos de Gabriel, que entre outras coisas aprendeu que ser humano vem antes de parecer ou querer vestir-se de algum rótulo específico.

Gostaria de ter um feedback de vocês que acompanharam a história, tecendo suas impressões e deixando sugestões, com comentários, para que eu compartilhe com vocês mais uma de Minhas Histórias.

Agradeço a atenção até aqui e que Clube 15 tenha sido fonte de bons momentos de leitura.

David Felipe.