Parte XII

Parte XII

 

Último dia do ano letivo, todos agitados com o fim das aulas e o começo de novas férias que pareciam ter chegado tão rápido quanto o virar das páginas de um livro, sem saltos dos melhores momentos dos acontecimentos.

Dessa vez, não fora convidado para semana na casa dos avós de Deco na serra. O período de descanso para a última fase pré-vestibular começava sem grandes planos, apenas o de voltar ao colégio à tarde e nadar por algumas horas:

-Combinado, Gab?

-Certo. Merecemos um refresco. Combinado. Almoçar e mais tarde, damos uns mergulhos.

-Falou, o profissional.

-Ganhei medalha, não foi?

-Seis meses e o sucesso não saiu de sua cabeça?

-Isso é só o começo – e ri, sem mais.

Logo após a pausa para a refeição do meio do dia, arrumei minha mochila e fui direto para o colégio, ainda aberto no mês de dezembro para utilizar a área de esportes. Sem treinador para dirigir nossa ação, esquecemos as marcações de tempo e apenas nos divertimos, em competições pessoais, com comentários breves sobre as garotas a transitar pela área e de certo modo, não deixar passar despercebidos os rostos dos recentes atletas campeões, como nos classificávamos, sem muita modéstia.

-E então, vamos embora? Acho que chega de tietagem por hoje. Todas as gurias já se foram? – dizia Enrico, irônico.

-Está certo, só mais um mergulho e já vou.

-Bem, vou indo tomar uma ducha. Depois a gente se fala.

-Está certo. Até mais! – despedi-me e imergi nas águas cloradas.

Na volta, subi num único impulso, dispensando o uso da escada e vi o que me fez o momento perfeito daquele ano. Recém-chegada da Califórnia, com a pele ligeiramente bronzeada, os mesmos olhos furtivos, dissimulados, a boca rosada e os cabelos um pouco mais claros. Não disse nada nem ela e desconsiderando o fato de eu estar todo molhado, com os cabelos cobrindo-me a fronte, senti-me tocar os lábios delicadamente e permitindo-me um abraço. Meu mar extrapolava o limite das praias e o que me parecia inimaginável, tornei-me um inteiro oceano.

-Hi.

-Está tudo bem?

-So much.

-Chega, Gab! Como está?

-Não poderia estar melhor – e vesti-me de um clichê.

-Eu que faço intercâmbio e você que se confunde de idioma?

-Qualquer coisa para você perceber o quanto pensei em você.

Alice apenas sorriu e me olhou de modo diferente, como num encanto, não mais um simples olhar.

-Fica comigo, hoje? – disse, sem muito pensar.

-Toma uma ducha e conversamos. Eu espero no pátio.

A ducha não durou mais que dez minutos e ainda sem amarrar o cadarço do tênis, lá estava eu ao seu lado, querendo aproveitar cada momento de sua volta. Senti ela ser minha naquelas horas e isso pude dizer a meu modo, ainda que fosse louco, pueril, desmedido, verdadeiro. Alice me retribuiu um ano de espera com um fim de tarde e início de noite perfeito em que pude sentir o calor de suas mãos, sem medo de perdê-la no instante seguinte. Mas a perdi.

 Minha Helena não poderia parar em minhas mãos. Coisas do destino ou não, Alice partiu um ano depois de volta aos Estados Unidos, realizando sua graduação por lá, Artes como soube por suas cartas datadas até dois meses depois de nosso rompimento.

  Hoje sei de um Deco, com placa de Doutor André num consultório odontológico próximo de casa, de um Enrico advogado e meu bom amigo, casado e dois filhos;  Flavinha e Marcelle, donas de butique; Renan, jogador profissional de um time de pólo aquático e Neto, destacado publicitário no mercado. Dos anfitriões do Santa Marta, ficaram algumas poucas recordações já que após terminarem o colégio, Edu e Isadora não mais permaneceram como figuras notáveis para a turma.

 Em meus arquivos de fotografias no computador, algumas minhas junto de Alice e outras das que passei a colecionar dos jornais, trazendo-a figurando como grande entusiasta das restaurações de antiguidades gregas.

 Eu, vinte e poucos anos, escritor, conservando o espírito dos poetas e não descartando a possibilidade da paixão ser uma patologia como a que ouvia anos atrás no telejornal, firme em pegar o próximo vôo e novamente, buscar os afagos de Helena garota, guria, para agora de vez, aceitar ser Alice minha, para sempre. Seja na Europa, nos Estados Unidos, farei de qualquer lugar a Tróia perfeita de minha aspiração.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s