Parte X (Cont.)

Parte X (Cont.)

Em duas semanas, lá estava eu, tentando passar despercebido no saguão do aeroporto para ver Alice, mais uma vez, contentando-me só de olhar aquela garota de estatura mediana, cabelos castanho médio e olhares furtivos a me fascinar. Num desse olhares, acabei fisgado:

-Gabriel? Vai viajar também?

-Vou, quer dizer, não. Estou fazendo uma pesquisa por aqui. Pesquisa de campo, já ouviu falar?

-Ah, pesquisa…de campo, certo? Não precisa disfarçar.

-Disfarçar o que?

-Por que mais estaria aqui?

– Passear num saguão de aeroporto?

-Quem sabe para me ver? Ou não. Esquece isso, pretensiosa demais para uma garota só, não acha?

-Acho, digo, não. Só vim te ver mesmo.

-Por que faz isso? Já disse como são as coisas. Um ano passa e você me esquece.

-Vou tentar, eu acho.

-Tente. Só não me deixa partir, deixando-o chateado.

-Então não se despeça dele, não se despeça de mim. Fique aqui e eu nem te procuro mais.

-Não é assim, Gab. Só resolvi apressar um pouco o que os meus pais já queriam pra mim. Aprendo mais de um idioma diferente e aproveito para pensar em tudo.

-Posso acreditar que vai pensar em mim também? Certo, pretensioso eu…

Alice me interrompeu, dando-me um beijo no rosto e partiu sem olhar para trás.

A imagem dela indo para perto de seus familiares e de Deco, não saiu de minha mente assim como o beijo que depois de anos ainda me faz sentir um calor diferente no lado direito do rosto.

Separei o resto do dinheiro que sobrara da mesada e fui ao cinema assistir a um filme de ficção científica, o que não era de minha preferência, todavia parecia bálsamo para a agitação que fugia a meu controle. Nada como um cenário futurístico, nomes estranhos e formas nada saborosas encontradas para alimentar-se para me fazer emergir de águas paradas demais para um corpo jovem.

Voltei para casa e rabisquei algumas palavras no caderno que ficava sobre o criado-mudo:

 

Tempo de nuvens

 

Pareço derrotado por Esparta

E sem arma alguma na mão,

Sem cavalo para chegar a algum destino

Como um tolo a declamar um poema ao vento

Como um triste Pierrot sem Columbina

Seguem os passos do caminho

E eles se desviam de uma estrada comum

Nada mais a dizer

Nada mais a ver pelas manhãs de segunda-feira

Não cotar mais as horas para um estratégico intervalo

E adormecer, contentando-me com as cores frias de meus sonhos.

 

Nuvens fechando o céu onde podia de longe, ver alguns raios de meu Sol. Agora, alguma chuva, sem cores e ilusões.

 

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2 pensamentos sobre “Parte X (Cont.)

  1. kiki disse:

    Tadinho do Gab!

    • davidfelipe disse:

      Ele é forte, apesar de não estar certo disso aos 15. Aguarde pelas cenas dos próximos capítulos.

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