Parte IX

Parte IX

 

Nenhuma pessoa na sala na sala de aula, nem sequer os professores. Os alunos, há muito já estavam despreocupados com as matérias do ano corrente. Sinal claro de que começara a “Semana do Esporte” no Santa Marta:

-Empolgado com a competição?

-Nem tanto quanto você – respondi a Enrico.

-Está certo, Gab. Mas tenho bons motivos para isso, afinal, treinei bastante e posso ganhar.

-Não sei qual é a de correr por uma medalha do colégio.

-Quem sabe, ganhar um beijo da líder da torcida? – lançou ironicamente o questionamento, Enrico.

-Não vale mais a pena. Depois, ela vai embora e…

-…E nada, Gab. Sem dramas.

-Foi mal. Nada de dramas.

-A “Semana” está só começando.

Após um longo discurso da diretora do colégio e aplausos nos intervalos de suas palavras, buscando fazê-la ser mais concisa, deu-se início à competição. Natação foi a modalidade escolhida para abrir o torneio, trazendo como vencedores principais Renan e Neto, respectivamente primeiro e segundo lugar nos 100m nado livre. Deco não competiu, mas estava na arquibancada a postos com Alice, na torcida por seus companheiros e eu, bem próximo, tentando não dar importância ao que acontecia ao meu lado. O que me sustentava era o fato de, ao menos, manter-me ocupado pelas conversas sem muito conteúdo com os que viam alguma hipótese em se tornarem mais populares na aproximação àquele que passara dias de férias com um dos atletas de destaque do colégio. As notícias corriam rápido, de fato. Uma semana na fazenda dos avós do Deco e meu status social multiplicara-se.

Flavinha e Marcelle não perdiam um movimento do evento, registrando cada cena com suas câmeras digitais, sem esquecer-se de boas recordações do “trio de ouro”.

-Então, Gab, por que não competir em alguma modalidade? – veio Flavinha, iniciando uma conversa.

-Não é para mim. Definitivamente, não sou um atleta.

-Pena não ter equitação no torneio, não? Assim você e a Alice poderiam competir. – disse Flavinha, irônica.

-Não teria com quem competir, não é mesmo? – repliquei, com um questionamento.

-Claro. Bem, vou indo – deu um sorriso pálido e saiu.

Acontecimentos quando assim se definem para determinadas pessoas, são marcantes. O bom disso tudo é que somente eu para saber dizer do sabor certo de ver que por algum tempo eu tivera importância para Alice e que isso, provavelmente, se tornasse claro para as pessoas, sem necessidade de nada se dizer. Ou que muitos estabelecem conceitos sem análise prévia, assim como Flavinha, em seu sarcasmo.

A semana passou com muitos festejos. A cada dia eram atualizados os vencedores num grande painel no pátio e Edu e Isadora distribuíam já na quarta-feira, os convites para a festa da consagração dos atletas a acontecer no sábado daquela mesma semana no Schneider, o hotel do avô da garota.

-Não deixe de aparecer, Gab – disse Isadora.          

-Está certo.

-Todos vão estar lá, Gabriel. Você tem que ir. Ficamos esperando – insistia Edu.

Não era preciso que se esmerassem tanto em suas palavras. Apesar das diferenças, já não me deixava tímido, participar desses eventos.

A semana parecia-me monótona, isso porque não competia em nenhuma das modalidades e ficar assistindo a todos os jogos não era coisa à qual teria paciência. Contudo, não deixaria de ficar torcendo por meu amigo numa das provas da quarta-feira. Enrico estava eufórico:

-Quer saber, até posso dedicar minha medalha a você também, meu camarada. Isso depois de agradecer aos outros fãs e tal, mas se liga, que não vou esquecer de mencionar seu nome.

-Valeu, Enrico. Vou torcer. Vai lá!

Juntei-me a Deco e Alice, os quais assistiam a corrida na torcida por Renan:

-Olha que o Rico não é mal. Mas é uma prova de resistência e acho que o Renan está com mais preparo para a corrida dos 200m.

-É, pode ser. Mas o Enrico também treinou muito. – comentei.

-Melhor assistir à prova. Depois vemos o que acontece – disse Alice, encerrando o assunto.

A prova começou com todos os competidores praticamente sem nenhuma vantagem, até que Enrico e Renan se destacaram do grupo. Nos 50m finais, Enrico parecia ter ganho nova energia. Foi quando deixou Renan para trás e saiu vitorioso. Ele foi mais feliz que criança em noite de Natal.

Deco aplaudiu um pouco constrangido e Alice apenas sorriu levemente, voltando a ter o cenho carregado ao perceber-me fitando-a. Podia controlar minhas palavras, silenciar, controlar meus gestos e fechar-me, mas não deixar de abrir meus olhos e ver o que mais os faziam brilhar.

-Gabriel! Aí, como está seu camarada com esta medalha no peito? – veio Enrico, logo após a premiação.

-Deixe-me ver. Não está pesando não? – gracejei.

-Fala sério! O magrela aqui é você. Isso é seu jeito de dizer parabéns?

Rimos e espalmamos as mãos, num cumprimento habitual.

-Parabéns! – disse, finalmente.

-Valeu! Pena que acabou. Esta foi a única prova pra qual me classifiquei, nos 400m não consegui.

-E ficou em primeiro. Mais alguma coisa?

-Gabriel, Enrico…Beleza?

-Tranqüilidade total. – disse Enrico – E parabéns! Primeiro na natação e segundo no atletismo já valeu pela competição deste ano.

-Não. Ainda falta o revezamento. Mas acho que não podemos correr mais. O Marcelo que ia correr com a gente, teve uma lesão e não vai mais poder competir. Ficamos eu, o Neto e o Deco, sem ter como participar também.

-Mal isso, hein? – lamentava Enrico.

-Mas pensamos em alguém. Que tal correr com a gente, Rico?

-Eu, correr com vocês? Mas, o regulamento permite?

-O regulamento só não permite novas inscrições, mas não há nenhuma restrição quanto a atletas já inscritos na “Semana” no prazo determinado – argumentou Renan.

-Então…- disse Enrico, reticente.

-Então? – questionou Renan.

-…Podem contar comigo.

Após um período de rusgas e discussões por coisas pequenas, o “trio de ouro” tinha de novo velho integrante e pôde formar uma equipe de sucesso. Na corrida dos 4x100m, eles saíram vencedores com facilidade e a amizade adormecida por um tempo ganhou ares de renascimento concreto e verdadeiro. A alegria depois de poucos segundos de corrida valeria mais que escalas de tempo para uma vida.

Mais uma vez eu aprendia a não ter conceitos preconcebidos a respeito dos que estavam à minha volta e percebia as diversas nuances presentes no ser humano, embora ainda isso se colocasse não tão bem numa idéia completa de um pensamento maduro, mas de perfeita compreensão para um adolescente.

-Mais uma, Gabriel! Agora é só comemorar – concluiu Enrico.

 

##

(Continua)

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