Clube 15 – Parte VIII

Parte VIII

             A velha Lua parada no céu e eu começando a tentar encontrar alguma relação entre os astros e minha própria vida, embora na realidade Lua não passe de mero satélite diante do Sol. Continuei a adorá-la feito verdadeira rainha com luz própria:

            -Agora você vai falar comigo, Alice?

            -Gabriel, solta o meu braço.

            -Então, promete que não vai sair correndo – disse eu, como nos filmes.

            -Por que? Será que você não entendeu ainda?

            -O que?

            -Eu não gosto de você.

            No mesmo instante, deveria ter a soltado e saído dali para me enterrar no primeiro buraco, como indicava meu pensamento, mas não foi o que fiz. Movido por um impulso, provavelmente arquitetado segundo minhas lembranças de clímax dos romances clássicos, segurei mais firmemente seu braço e a beijei nos lábios.

            -Você está louco? Quer saber, foi só mais um beijo para você se lembrar de mim, só isso.

            Beijei-a de novo, não me dando por satisfeito. Se não me falham minhas revistas no passado, recordo-me de tê-la visto com lágrimas nos olhos, assim como eu, apesar de sua postura menos hesitante:

            -Pronto. Acabou, Gabriel. Melhor não olhar mais para mim.

            -Culpe minha juventude por conta disso, culpe o Sol, a Lua…

            -Você me faz rir deste jeito.

            -Ah como queria te fazer rir mais vezes e quem sabe…Quem sabe, eu poderia rir mais também.

            -Ria, ria…Sozinho, não de mim.

            -Eu…

            -Você está acreditando numa coisa que eu não sou, é só isso. A garota do colégio que parece feita para ficar com você durante a vida toda. Você nunca sonhou com mais do que isso? Ou pretende passar o resto da sua vida entre estas festas quando todos te olham para saber se dessa vez errou na cor da roupa ou se não exagerou nos acessórios?

            -Mas foi assim que eu pude te conhecer. Foi por essa Alice que eu me apaixonei.

            -Que pena, porque você já devia saber que essa Alice não existe além daqui.

            -Como assim?

            -Eu pensei que alguém poderia me ver de verdade, não ver a garota popular, a mais bonita da turma…

            Modéstia era coisa até então, ausente de seu caráter.

            -…E escolhi você. Não sei, você era diferente dos outros, mas acho que todos se acostumam fácil a isso.

            -Alice, não é nada disso. Eu gosto de você. Quer mais do que isso?

            -E quando eu não quiser sorrir ou rir de suas piadas?

            -Eu nunca fui engraçado.

            -Eu nunca fui assim tão feliz como todos pensam.

            Não houve mais nada que eu pudesse dizer. Apenas fitei mais uma vez aqueles olhos a me extasiar e a deixei partir, sumindo nos cascos do cavalo.

            O encontro casual pelo passeio a cavalo não fora minha melhor oportunidade. Permiti-me chorar na frente de alguém, descumprindo uma das principais leis dos fortes. Tivera exposto minha fraqueza e não poderia voltar atrás.

            Mais um luar perfeito para uma relação desastrosa. O mar de estrelas do céu, prenunciando o dia seguinte brindado pelo Sol não me consolava.

            O resto dos dias na fazenda demoravam a passar e meu humor só tendia à piora. Sem esperanças de levar Helena para Tróia e sem meu caderno para minhas pequenas notas poéticas, despejava todas minhas tempestades sobre Enrico, grande companheiro:

            -Mais um dia e essa tortura acaba.

            -Tortura, até que eu gosto dos ares do campo. Bom para correr, esfriar a cabeça – replicava Enrico.

            -Você não perde o jeito, não? Você nem conseguiu ficar com a Marcelle, a Flavinha se arranjou com o Renan e você está aí, fazendo graça.

            -Você quer que eu fique como você, só lamentando? Tem muita coisa que se pode fazer e nunca alguém são vai morrer por qualquer garota do mundo. Daqui a pouco acaba essa sua história e você descobre outra garota, certo?

            -…

            -…Está certo, pode ser que não. Mas é melhor uma história onde consegue conviver com a garota dos seus sonhos, pelo menos. Ou queria ser como Simão e Teresa, separados pelas agruras de um triste destino.

            -Você leu Castelo Branco? – indaguei.

            -Você não? Claro que já, ou de onde vêm suas inspirações? Mas também citaria aqui Super-Homem e Louis Lane, afinal você deve ter características de um herói um pouco mais moderno, não acha?

            Não pude deixar de rir de sua zombaria.

            -Viu, está rindo.

            Retifico algumas de minhas palavras. Com um amigo como Enrico, alguns minutos de descontração se tornavam possíveis. Isso porque não seria considerado razoável um passeio com pessoas de minha própria idade onde não pudesse sorrir, a mais bonita virtude dos jovens ainda não despertos para algumas realidades implacáveis. O fato é que podíamos sorrir, apesar de dimensionar nossos problemas.

            Deco, como aprendi a chamar André mais comumente, devido ao uso constante do apelido pelos demais, fora um excelente anfitrião. Minhas impressões a seu respeito, de fato haviam começado a mudar das vezes em que estudáramos juntos na biblioteca do colégio para melhorar sua nota em Matemática. Os avós dele eram o que alguns chamariam de umas das melhores pessoas, oferecendo especial atenção à turma dos colegas de seu neto, deixando um convite para breve retorno. Boas recordações daqueles dias, apesar de mais um episódio lamentável junto à minha menina. Minha? Um adolescente pode valorizar em demasia suas divagações.

(Continua)

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