Clube 15 – Parte VII (cont.)

            Parte VII (cont.)

            O torneio de tênis de mesa havia terminado e assim que chegamos, Flavinha e Marcelle se prontificaram a ajudar Alice no que fosse necessário e Deco, mostrou-se um cuidadoso enamorado, dando-lhe todas as atenções, o que de fato, diminuiu em alguma escala minha alegria.

            -E aí, o príncipe desce de seu cavalo com a desolada donzela…- disse Enrico, disparando gargalhadas.

            -Isso, pode começar com suas brincadeiras…Até porque depois do que aconteceu, não reclamo mais de você.

            -É. O que aconteceu?

            -Ah…

            -Ah…? O que? Diz aí, camarada.

            -Ela me deu um beijo. Quer dizer, eu a beijei e dessa vez ela parece que…

            -A Alice gostou, não foi? Eu sabia. Essas garotas de hoje em dia…

            -Hei!

            -Calma. Só ia dizer que essas garotas fazem qualquer coisa quando estão apaixonadas.

            -Está certo. E você quer que eu acredite nisso? Já fiquei foi muito feliz de ela não ter repudiado meu beijo – e devo ter ficado ruborizado, ao dizer isso.

            -Mandou bem, cara. Eu falei que ela adorava cavalos, sem nenhuma referência a você por isso, que fique bem claro.

            -Sei, sei. Muito bom o seu humor. Mas e o torneio, como foi?

            -Ganhei do Renan numa das últimas partidas e lá foi a Flavinha consolar o perdedor. Grande…

            -Sei como é.

            -Será? A Alice está até cedendo a suas investidas, enquanto eu estou aqui, sem mais…

            -E a Marcelle, não era ela a eleita?

            -Nada. A Marcelle está com o Neto, você sabe. E depois, acho que não é tudo isso que eu pensei não.

            -Pensei que estivesse…

            -…Não – Enrico me interrompeu, antes que eu terminasse a frase – Essa de se apaixonar eu deixo pra você.

            O assunto acabou ali, quando consegui rir de mim mesmo. Rir para não chorar, como se costuma dizer. Lances acontecendo a todo o momento e o pensamento reunindo num só tempo diversos temas, sem querer se perder:

            -Preparados para a fogueira de logo mais? – veio Neto, a participar do assunto.

            -Acho que sim – respondi.

            -Tem que estar pronto, Gabriel. Vai só ouvir as histórias ou tentar nos assustar com seus casos?

            -Não tenho casos de terror para contar. Melhor esperar pelos contos de vocês.

            -Vai ser legal, você vai ver. A galera se reúne e passa o tempo, na boa.

            Eu começava a gostar da idéia de fazer parte de um grupo e entender das diferenças de cada um, para sair da monotonia do próprio mundo:

            -Vai, sim – concluí.

            -Não vai esperando muito, não. Só umas historinhas bem mal contadas – vinha Enrico, acabando com qualquer tipo de divagação positiva.

            E tudo ocorreu conforme o previsto por Enrico. Ele sabia bem do que falava, histórias não muito criativas, mas hilárias, como a de um fazendeiro que se assustava com o barulho de correntes arrastando e descobre que não passava do cachorro do vizinho tentando se livrar da coleira que o prendia ao portão de uma das entradas do terreno. Ainda, de acordo com as expectativas, os casais logo se formaram para curtir o clima romântico do fogo adentrando a noite, o que fez com que Enrico e eu decidíssemos por nos afastar do grupo e conhecer o resto da fazenda numa breve caminhada.

            Eu e meu amigo até tentamos falar de outros assuntos, mas as garotas definitivamente marcavam o tom em nossas conversas.       

            -Nós não podemos nos enganar, fingindo que as coisas estão certas e que está tudo bem em ser assim.

            -Você é muito dramático, Gabriel – disse Enrico, chamando-me pelo nome naquela ocasião.

            -A vida não é das mais alegres. Ela não tem consciência de que há mais alguém do que ela somente por aqui. Ou vou ficar a vida toda esperando por…

            -Por…? – indagou ele.

            -Por…Não sei, por alguma coisa, alguém que não é para mim.

            -Shakespeariano quase, você está se superando, Gab – disse Enrico entre risos, o que diminuiu o tom da conversa.

            -Está bem, não adianta ficar falando desse jeito, se na hora da verdade…

            -“Hora da verdade”? Sabe há quanto tempo não escuto isso?

            -Então, se  “quando as coisas acontecem”…

            -Melhor assim – assentiu ele.

            -…Quando as coisas acontecem, é bem menos poético.

            -Vem cá, quando você tiver trinta anos vai falar só em latim ou grego?

            O que pude fazer foi, então, rir de mim mesmo. Até eu gostaria de escolher um pouco menos as palavras a dizer:

            -Você venceu. Quer saber, por que ela me beija e depois vai lá ficar com ele depois de eu dizer tanta coisa, ficar sem arma nenhuma diante dela – a verdade é que ainda continuava um tanto metafórico.

            -É, pelo menos teve um beijo. E eu aqui, curtindo esse frio todo e nada. Só nos campeonatos de tênis de mesa.

            -Eu não sou dos melhores esportistas.

            -Mas admira a líder da torcida – replicou Enrico.

            Voltamos para o encontro dos outros e então, terminar em sono profundo mais uma noite fria.

            Sem qualquer tentativa de poesia. Férias, longe de meu caderno também a repousar, na gaveta do criado-mudo de meu quarto.

 

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