Clube 15 – Parte VII

            Parte VII

             A passagem pela estrada foi tranqüila. Todos contentes com o início das férias de meio de ano, querendo saber de tudo, menos de falar das aulas no colégio. Ria-se de qualquer gracejo mais superficial ou de um simples olhar torto diante de algum comentário sem fundamento de Flavinha ao colocar-se a falar sem parar.

            O que passava por minha cabeça era como passar aquela semana perto de Alice e Deco, aproveitando dos atrativos dos ares do campo e buscando deixar de lado o que sentia por minha Helena.

            Chegando à fazenda, o pai de André deixou-nos aos cuidados de dona Carmem e seu Pedro, pois voltaria ao trabalho na cidade. Os avós de André foram bastante hospitaleiros, levando-nos aos quartos da fazenda para descarregar as malas e descansar um pouco da viagem, o que não demorou muito. O que fiz eu e os outros foi servir-nos da recheada mesa de bolos, pães e doces diversos oferecidos por dona Carmem à varanda.

            Alice com seu jeito polido, logo elogiou os quitutes da avó de André, ao que a senhora retribuiu com sorrisos. Enquanto isso, eu me controlava para não me aproximar de minha Helena e dizer tudo aquilo que pesava em meu coração adolescente.

            -E então, não vai cansar de olhar pra Alice? – gracejava Enrico.

            -Acho que não.

            -Devia aproveitar para uma nova investida com a guria.

            -Você está louco? O André me convida pra vir aqui numa boa e eu…                   

            -E você nada. Não estou dizendo pra partir pra cima, só pra mostrar que ainda está aí.

            -Isso ela está vendo. Óbvio demais.

            -Então, não escute o que eu falo e continue a anos luz da sua musa.

            -Está certo. Então diz qual a sua grande idéia?

            -Sabe andar a cavalo?

            -Não sou nem um grande cavaleiro, mas os passeios na fazenda de meus primos até que me serviram pra alguma coisa. Cair acho que não caio, não.

            -Eu sabia que você não ia deixar a Alice na mão.

            -O que? – olhei-o embasbacado.

            -Cara, você é o cara.

            -É. Por que?

            -Porque o Deco não anda a cavalo, coisa que a Alice adora fazer.

            -Estou achando que você sabe muito da Alice.

            -Não, o que acontece é que você só começou a prestar atenção nela agora. Todo mundo sabe das habilidades da nata do Santa Marta.  O Deco pode ser ótimo em muitos esportes, mas equitação não é o forte dele. E não é segredo pra ninguém que a Alice goste de cavalos.

            -Concorda, Gabriel? – interveio André.

            -Concordar? Não sei – respondi, em estranhamento.

            -Estava falando de logo mais à noite fazermos uma fogueira, não é uma boa idéia?

            -Claro, ótima idéia – assenti, inclinando a cabeça.

            -Então está feito. Depois do lanche, vamos atrás de madeira.

            Assenti ao questionamento quase que mecanicamente, preocupado em saber se André ouvira o que eu e Enrico conversávamos.

            -Não precisa fazer esta cara. Quando o Deco está tendo suas “idéias criativas”, não presta atenção à sua volta – ironizou Enrico.

            Soltei um riso leve e fomos nos juntar aos outros nas dependências da fazenda para nos abrigarmos do frio cada vez mais intenso daquelas paragens.

            Fogueira em férias numa fazenda já se tornara um lugar comum para passeios das turmas de colégio. Só faltavam vir à noite os famosos contos de terror e as investidas de cada um em quem lhe inspirava, algo difícil para mim ao ver minha menina junto a outro. Costumavam ser dramáticos meus pensamentos.

             ##

             -Então, Gabriel? Está curtindo a fazenda? – perguntou-me Alice, após uma leve inclinada de cabeça e mexer no cabelo com delicadeza.

            -Sim, apesar do frio. Pelo menos descansamos das aulas e diminuímos o ritmo, certo?

            -Sim.

            Ficamos assim, por alguns minutos, numa conversa a qual eu diria ter sido sobre assunto nenhum, já que nada falamos de relevante. Estávamos sentados num banco na varanda da casa, enquanto os outros terminavam um torneio de tênis de mesa, desinteressante tanto para mim quanto para a garota do anfitrião. Providencial torneio de tênis de mesa, me permitindo desfrutar mais alguns minutos da garota presente em meus sonhos. Poderia ficar horas olhando para ela sem dizer nada, mas disse:

            -Por que você faz isso comigo?

            -O que? Já sei, estou falando demais. Desculpe, é que quando disparo a falar, acabo…

            -Não é isso.

            -O que então? – perguntou-me, com semblante pesado.

            -Nada – nem eu sabia dizer, ou melhor, não queria dizer que me fazia mal gostar dela.

            -Já sei. Vamos aproveitar que estão todos lá dentro compenetrados no torneio e damos uma volta a cavalo. Que tal? – sugeriu, abrindo um sorriso.

            -Melhor falar com seu Pedro antes?

            -Não. Ele já me deu permissão para isso.

            Claro, seu Pedro e dona Carmem deveriam agradar a garota de seu neto.

            -Então, tudo bem – concluí, concordando com o que dizia.

            Não demoramos a pegar os cavalos e sair em passeio. Alice ficava ainda mais bonita com os cabelos ao vento, com o brilho ressaltado pelos tênues raios da luz do sol aparecendo timidamente naquele dia nublado.

            -Ah, vai continuar assim, tranqüilo nesse trote? – desafiava-me Alice.

            -Por que? Está querendo competir por algum motivo especial? – respondi com outra provocação.

            Minha Helena apenas baixou os olhos, fitou-me e partiu em disparada. Não fiquei atrás e mesmo que não fosse um excepcional cavaleiro, conseguia domar um alazão em curtos trajetos. Pouco tempo após partir a ela, como a disputar um grande prêmio, tal numa reviravolta dos filmes hollywoodianos, a garota veio ao chão. Apeei de meu cavalo e fui em seu auxílio:

            -Alice, está tudo bem?

            Ela não respondeu, ao que lhe tomei nos braços e senti que seria aquele um dos momentos mais importantes de minha adolescência. Lembro de ter o coração disparado e a boca ressequida de pronto, por tê-la ali, tão perto de mim depois de tempos, sabendo que dias pareciam anos para um jovem em pleno desenvolvimento.

            -Alice…- disse baixinho, quase em desespero, por não ouvir sua voz.

            O silêncio foi quebrado num suave ai de dor, seguido de um riso leve:

            -Está tudo bem. Meu amigo não ia me deixar na mão.

            -Amigo?

           – Depois de algum tempo tratando com cavalos, já aprendi a cair melhor – riu-se – Só meu tornozelo dói um pouco, um mau jeito da queda.

            -Melhor você esperar aqui até que eu chame alguém, não sei…

            -Não, está tudo bem. Não me deixa sozinha, não. Ajude-me a levantar.

            Passei o braço de Alice sobre meus ombros e levantei-lhe numa manobra cuidadosa, para que não precisasse apoiar seu peso sobre si e prejudicar a pequena lesão. Pensei ser aquele um dos poucos instantes em que a teria, só para mim naqueles dias, e não hesitei em aproveitar o momento de aproximação e beijar-lhe longa e ternamente. Meu pensamento parecia ter parado naquele breve instante em que fomos um só, num corrente fluxo de sangue por minhas veias.

            -Gabriel, eu não posso…A gente não pode fazer isso, não está certo – disse-me ela, com os olhos úmidos.

            -Desculpe, eu só queria que você soubesse um pouco do que eu sinto…

            -Melhor voltarmos, está bem?

            -Tudo bem…Será que consegue subir?

            -Eu vou sozinha, pode deixar…

            Bem que Alice tentou voltar com o cavalo o qual conduzira durante o passeio, mas a dor no tornozelo impediu-lhe, logo na primeira tentativa de montar. Acabamos juntos, na mesma montaria. Ajudei a garota a subir em Dourado, o cavalo o qual eu montava e voltamos juntos para a casa da fazenda.

            Minha musa não disse palavra alguma durante o caminho de volta, exceto quando se mostrou preocupada sobre como resgatar o outro animal, no que acabou ficando tranqüila ao lembrar-se de que não tínhamos ido longe e que dificilmente, ele se perderia naquelas paragens. Eu, por minha vez, recordo-me de não poder disfarçar meus ares de contentamento por aquele beijo, pelo grande momento daqueles últimos dias.

           (Continua)

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