Clube 15 – Parte VI (cont.)

Parte VI (cont.)

Segunda-feira, lá estava eu esperando Enrico chegar com meu caderno de Química, o qual ele havia pegado emprestado para colocar o seu em dia com a matéria, para poder fazer minhas anotações da primeira aula do dia, assim que desse o sinal da entrada. Minutos suficientes para a primeira batalha do dia, conversa com o “inimigo”:

            -Oi, Gabriel. Beleza?

            -Tudo bem, André.

            -Seguinte, a Alice me disse que falou com você do meu lance com Matemática.

            -É, falou.

            -Então, pode ser hoje na biblioteca depois das aulas. Eu marco horário lá, aí fica mais tranqüilo.

            -Pode ser.

            -Então está combinado, depois das aulas na biblioteca. Qualquer coisa a gente se fala logo mais, na sala.

            -Beleza.

            -Valeu, mesmo. Não sei se você andou vendo minhas notas.

            Claro que não, o que menos queria era saber das suas notas ou qualquer coisa sobre ele. E tinha motivo o bastante para isso, pensei. Já bastava ele estar com a garota que eu queria para mim.

            -Não – respondi.

            -A situação está complicada. Mas acho que com suas dicas…Bem, do que falam de você…

            -O que? Falam o que de mim?

            -Ah, você sabe. E a gente vê que você pega rápido o conteúdo. Nunca vi você discutindo suas notas, afinal elas sempre são boas. Nem precisa.

            -Sei. É, mas é só estudar um pouco – disse em tom provocativo.

            -Eu estudo. É que com os treinamentos para as competições do próximo semestre, sobra pouco tempo.

            Todo mês de agosto aconteciam jogos entre as classes, era disso que André falava. Eu, até aquele ano não me animara a competir em nenhuma modalidade, diferente de Enrico, que se esmerava nas suas corridas para chegar bem às provas de atletismo no torneio interno do Santa Marta.

            -Cheguei antes do sinal? – chegava Enrico correndo, para não perder o horário.

            O sinal tocou.

            -Valeu, pessoal. Vou entrando. Obrigado, Gabriel.

            Apenas ergui uma das sobrancelhas, em concordância.

            -Fala, professor Pitágoras. Pronto para seu novo aluno?

            -Vai brincando, Enrico. Só vou dar uma força. Também não é para tanto. Se posso ajudar, vou ajudar.

            -Gostei, espírito cavalheiresco.

            -De onde tirou essa? “Espírito cavalheiresco?”.

            -Também leio, meu caro. E tenho avós para me renovarem com uns termos aí. É só recauchutar, que fica novo. – explicou-se.

            -Entendo. E meu caderno?

            -Está na mão.

            Entramos para as aulas, sem mais demora, para não haver atrasos. Passei por Química, História, Literatura, Matemática e depois de algumas horas de estudo, parada para um almoço, lá estava eu sentado à frente de meu colega de turma para continuar a tratar de números.

            -Por onde começamos?

            -Podíamos passar por tudo?

            -Bem… – mostrei-me desanimado – Tudo?

            -Não, brincadeira. O que não peguei mesmo foi a matéria da última unidade do livro. Talvez alguns exercícios e eu entenda por que resolver de um modo ou outro. O que acha?

            -Pode ser.

            Depois de algumas explicações de minha parte, um aluno atento a elas e algumas risadas pelas caretas que a auxiliar da biblioteca fazia a cada riso um pouco mais alto dos alunos, entre seus estudos e pesquisas, inclusive risos meus e de André, fechamos boa parte do conteúdo. E em tom cavalheiresco, como dizia Enrico, apertamos as mãos, cordialmente, deixando para trás aquele recinto cheio de livros até o teto, cheirando a óleo de peroba, provavelmente passado nos móveis quase todos de madeira.

            Foram duas semanas inteiras dedicadas às aulas a André, após o período normal do colégio, com bons resultados.

            -Olha, Gabriel. Fiquei acima da média – disse André, ao olhar sua nota final do semestre no quadro de avisos da sala de aula.

            -Valeu a pena estudar mais um pouco, então.

            -Com certeza. Assim fico mais tranqüilo. E sem dúvidas, graças a você.

            Não era para tanto, pensei. Contudo, havia um sabor especial naquilo, pois de alguma forma eu me encontrava em vantagem na minha corrida por Helena – entenda-se Alice. O André e ela precisando de mim e me agradecendo por minha nobreza em ajudá-los. Certo, meu orgulho marcava presença sem que eu precisasse dizer palavra alguma.

            -Esquece isso.

            -Nada disso. Quer saber, já sei como te agradecer.

            -É? – perguntei, em estranhamento, afinal ele não me conhecia muito para saber como me agradar. E ele não me daria Alice como um presente.

            -Você é meu convidado para a primeira semana de férias na fazenda de meus avós. Que tal?

            Fiquei sem resposta. Na verdade, não havia planejado nada para aproveitar os dias de folga do colégio, mas passar uma semana na companhia de André…

            -Seguinte, vamos eu, os camaradas: Renan, Neto, o Marcelo sabe? As meninas: Flavinha, Marcelle, a Alice…

            Ele parecia ter dito palavras mágicas. Então, respondi com uma pergunta:

            -Posso pensar?

            -Na boa. A gente sai na sexta pela manhã. Mas você vê se fala antes para eu avisar a dona Carmem e o seu Pedro em quantos nós vamos pra eles ajeitarem tudo por lá. Sabe como é, se eu chego lá de repente com mais gente, não reclamam. Mas, preferem que eu avise até pra receberem a gente melhor.

            Sendo quarta-feira, havia praticamente, um dia para pensar:

            -Eu te ligo mais tarde, então. Tenho que ver direito isso lá em casa.

            -O Rico pode ir também. Fala com ele.

            -Beleza.

            -Ah, e hoje à noite tem aquela reunião com os pais. Falo pra minha mãe falar com a sua da fazenda. É bem maneiro lá, tem cavalo, piscina e depois, meus avós estão lá pra qualquer problema.

            -Certo. Valeu!

            O sorriso metálico queria mesmo mostrar-se agradecido por minha ajuda acadêmica e tudo parecia colaborar para que ele conseguisse se livrar de tal pequena dívida de gratidão comigo. Reunião de pais, fazenda dos avós…Embora pensasse parecer isso um tanto careta e infantil para quem queria posar de adulto, ponderava termos quinze anos apenas, e muitas responsabilidades ainda delegadas a nossos pais.

            Meus pais, após longa conversa com os pais de André, acharam uma idéia boa, saudável e segura, deixar-me ir a tal fazenda, afinal poderia me divertir com pessoas de minha idade, respirar ar puro e ainda ter cuidados familiares. E mais, Enrico animou-se em voltar ao convívio dos populares atletas e estar perto de Marcelle, embora em situação parecida à minha em relação à Alice.

            Arrumei minha mala para uma semana de férias numa fazenda próxima à cidade, esperando conseguir alguns dias quentes, ao menos, diante da proximidade do inverno, o que mais tarde não veio a se realizar.

            Enquanto lia minhas próprias palavras feitas em alguma poesia no caderno a ficar trancado na gaveta do criado-mudo, receava não ter coleguismo suficiente para ver Alice e André juntos, sem nada fazer. Então, em mais um desabafo, tomei uma caneta à destra e escrevi mais algumas palavras, na folha seguinte à “Helena”, meu último texto dedicado à garota a tomar minha mente e abalar meus sentidos:

 

            15 versos pensando em você

            Eu receio que surja em mim o gladiador que se faz em meus pensamentos

            E que eu deixe a honra de lado, para ser vil ao atacar um inimigo sem armas

            E entrar numa guerra em que te tomei como motim, sem consultar-te

            É mais que uma associação histórica, mais que ódio ou amor

            É minha falta de poderes para fazer-te sentir por mim o que te devoto

            É minha impotência perante uma aliança pronta, ainda que recente

            Sou eu, sem armas, e querendo lutar

            Sou eu, oferecendo-me em sacrifício de uma ilusão

            Querendo ser poeta e não passando de um pobre mancebo

            Apaixonado talvez, e sem esperanças diante do embate com os leões,

            a poucos segundos para entrar na arena

            É assim que me sinto

            sem ter o que fazer, a não ser te olhar de longe e

            Então, sorrir com seu sorriso

            Se ainda quero fazer parte de sua vida.

           

            Na falta de inspiração para colocar algum título mais criativo, acabei por intitular aquelas linhas de forma literal, chamando-as exatamente do que se tratavam, versos pensando em Alice.

            Fechei o caderno, fechei a mala, tranquei a gaveta do criado-mudo após guardar o caderno e deitei-me. Algumas horas de sono tranqüilo para acordar disposto pela manhã, alimentar-me bem, não esquecer alguns documentos e tomar carona no carro da mãe de Enrico para a casa de André, próxima a rua onde eu morava.

            Tudo pronto, bagagens arrumadas, entramos todos na van do pai de André. Oito adolescentes partindo para mais uma viagem a guardar na memória e recordar pelas fotos feitas para a posteridade.

            Momentos de descontração, controle de sentimentos, risos, lágrimas. Pieguice? Ainda não sabíamos, de fato, o que encontrar naquele passeio. Cenas do próximo capítulo.

 

 

 

 

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