Clube 15 – Parte VI

Parte VI

 A festa à fantasia no Hotel Schneider fora um dos últimos pontos altos de meu relacionamento platônico com Alice, afinal, não se poderia considerar nada mais além de platônico um romance em que houvera apenas um beijo pueril de poucos segundos o qual tivera realizado sozinho. Ademais, Alice estava com o Deco já havia alguns meses e o que poderia ter passado como apenas mais uma chuva de verão, durava tempo demais para que eu ainda cogitasse uma espera tranqüila para que depois de alguma virada na história, a garota viesse para meus braços.

Enrico passara por muitos bons momentos, enquanto duravam seus relacionamentos alguns dias e às vezes até mesmo uma semana e dizia que eu deveria fazer o mesmo. Até tentava seguir seu conselho, mas era só fechar os olhos e sentir Alice entre mim e a garota sentada ao meu lado na poltrona do cinema. De fato, eu acabava beijando a garota e nós dois ficávamos contentes até a hora do sorvete acabar após a sessão e cada um ir para sua casa, provavelmente pensar em seus verdadeiros amores ou procurar explicação possível para essas sensações estranhas de perder o fôlego e não ter as palavras certas para a pessoa certa.

-E aí? Pensei que não ia aparecer, aqui em casa, para a gente experimentar o novo game enquanto provamos da deliciosa pizza congelada do supermercado aqui da esquina.

-Saí do cinema quase agora com a Ana Cláudia – expliquei-me.

-Sei quem é a guria. E então, tem futuro?

-Não.

-Por que? A Claudinha é tão bacana.

-É, é bacana. Mas não é…

-Mas não é a Alice. Vai esperar ela até quando?

-Não sei se vou esperar. Talvez nem aconteça…

-Por isso mesmo, você devia insistir mais. O máximo que ficou com uma garota nestes tempos foi por dois dias, quando saí eu, a Marcinha, você e uma amiga dela.

-E você, fez diferente?

-É que eu sou conhecido pela variedade, o camarada aqui é requisitado.

-Falou o cara!

-Está certo…Assim, quando diz que sou o cara. Quer saber, estou é com fome, agora.

-Salta uma pizza congelada! – brinquei.

-Não, rola um microondas pra resolver este problema – devolveu Enrico, a piada, aos risos.

Tornara-se costume, jogar no computador e comer pizza aos sábados à noite quando não aparecia nenhuma festa ou não tínhamos o que estudar. Aos poucos, eu aprendia dividir meu tempo para ter algum momento de lazer entre as horas dedicadas aos estudos para o colégio e minhas leituras nem sempre obrigatórias, já que me interessava por literatura.

Enrico tornara-se um grande amigo, sabendo ser companheiro ao falar de meus problemas e ele dos dele, fosse isso alguma dificuldade nas coisas da escola a minhas incertezas em relação a meus sentimentos por Alice e os dele por Marcelle. Foi num desses dias de pizza e games, em que fiquei sabendo do que ocorrera entre ele e uma das inseparáveis integrantes da dupla do Instituto Santa Marta.

-Mais pizza?

-Valeu, obrigado.

-Refrigerante?

-Não, ainda tem aqui no meu copo.

-Pipoca?

-Enrico, você está atrapalhando…Aí, perdi de novo.

-Beleza.

-Beleza? Eu perdi no jogo – repeti, espantado.

-Você recomeça depois. Escuta só.

-Fala.

-Sabe a Celle? – veio ele, dizendo em voz mansa.

-A Marcelle?

-Isso. Falei com ela, hoje.

-E a variedade, camarada? – questionei, em tom de brincadeira.

-Detalhes, meu caro. Detalhes.

-Sei, sei. Mas, e aí? Resolveram relembrar os velhos tempos?

-Nem brinca. Na verdade, eu tentei falar com ela, mas não rolou.

-Ainda assim? Pensei que já estava tudo bem entre você e o pessoal do Santa Marta?

-Os camaradas pelo menos cumprimentam, mas ficou alguma coisa da briga lá no hotel do avô da Isadora. Eles cumprimentam e só. Nenhuma chance de voltar ao grupo.

-Ah, mas isso não interfere nos seus treinamentos.

-Não. O atleta aqui se vira quando você abandona as corridas de fim de semana do colégio. Mas e eu e a Celle?

-Depois sou eu. Nem tenho falado mais da Alice, ultimamente.

-Acho que “o cara” – frisou ele – está meio…

-Apaixonado? – perguntei, irônico.

-Não, a fim de relembrar os velhos tempos.

-E o Neto?

-O que tem o Neto?

-É, nada não -respondi, sem graça.

-Fala aí. Começou, termina.

-Você não sacou os dois na festa?

-Está certo, mas isso já faz uns meses. Nem…Não é mesmo? – inquiriu-me.

-É…

-É…?

-Não.

-Como você sabe?

-Só você não sacou os dois nos intervalos. É que a Marcelle é quieta, eu acho. Quase não fala. Só fica seguindo os passos da Flavinha. Mas ela e o Neto…

-Bem que vi os dois umas vezes, mas como andam em grupo sempre, não achei que fosse… Legal, esquece.

-Vai desistir, assim fácil? Nem parece o cara que me falou pra correr atrás e tal.

-Não é a primeira vez…

Calei-me e fiquei ouvindo a história. Enrico começou a falar do acampamento organizado pelo grêmio, aquele ao qual não fora, e logo compreendi o porquê de seus receios. Marcelle havia ficado com ele durante todos os dias do passeio até encontrar Flavinha e ele juntos, num fim de noite após uma roda de histórias de terror ao redor duma fogueira.

-…Resumindo, perdi a garota por causa de um abraço sem mais.

-Sem mais?

-É, sem mais alguma intenção. A garota se aproximou, meio com medo e demos um abraço inocente.

-E por que só você saiu prejudicado? A Flavinha nem tentou se explicar pelos dois?

-Você acha? Falou que eu a agarrei, que não pôde evitar.

-Típico drama?

-Não, terror. As histórias eram em torno de caveiras, fantasmas…

-Estou falando de você e a dupla dinâmica.

-Ah, entendi. Drama. O que interessa, é que perdi a garota e fiquei assim, sem menos…

-Sem menos?

-Sem mais nem menos, a ver navios, compreende? – devolvia Enrico, espirituoso.

-Compreendo, Descartes.

-Filosofia, agora. Não era bom em Matemática?

-Também. Mas e a garota, como fica?

-Com o Neto. Eles não estão juntos?

-Por enquanto. Ou não vai seguir seus próprios conselhos?

-Posso tentar. É que sou melhor falando mesmo.

-A gente supera – disse-lhe, confiante.

Chocamos as mãos num cumprimento e acabamos com os pedaços restantes de pizza num prato sobre a mesa de computador.

Àquele dia senti-me um pouco melhor diante de mim mesmo, afinal não era só eu a dar doses dramáticas às situações as quais passava. Ouvindo Enrico contar sobre ele e Marcelle, percebi a maneira normal de em determinada faixa etária, carregar mais nas cores dos quadros pessoais ante o cenário real. E isso que, até àquela hora, não pensava serem de grandes proporções os sentimentos de Enrico por Marcelle.

Mais uma vez, eu voltava a pensar na beleza grega de Helena e a ter sinais dela em minha simples vida contemporânea. Depois de uma tarde recheada de molho e mussarela, a História vinha ao nosso encontro pelo fio do telefone:

-Alô… Oi, tudo bem?…Também, estou aqui jogando…É…

-Sua mãe? – perguntei em voz baixa para Enrico.

Ele fez sinal de negativo com o indicador e pediu um minuto ao seu interlocutor do outro lado da linha.

-A Alice, meu caro. Ela te achou.

-A Alice? Como assim?

-Espera aí. Deixa eu falar…Oi – voltou Enrico ao telefone – O Gabriel que não sabia como sair do jogo, aqui no computador…É, pode sim. Vou passar pra ele. Tchau…Quer falar contigo. Aproveita! – e riu-se.

Tomei logo o telefone da mão dele e iniciei a conversa meio sem graça:

-Oi, Alice. Tudo bem?

-Comigo sim…Quer dizer, lembra de quando te perguntei sobre Matemática?– questionou ela do outro lado da linha.

-Lembro…Alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar?

-Não a mim, exatamente. É que o Deco está com alguns problemas na matéria e como está chegando a prova do fim do semestre, com a matéria toda.

-Sei, sei – desanimei-me.

-Então, será que você podia…

Numa fração de segundos, antes que ela terminasse de falar, lembrei-me do incidente no clube, do fato do André ter me ajudado, de ele não ter nada a ver com meu insucesso com Alice…

-…ajudar o Deco, com uns toques depois das aulas? – conclui Alice, seu questionamento.

-Posso – respondi, de pronto.

-Obrigada. E pede desculpa para o Rico, por ligar aí. É que precisava falar com você logo, pra ajudar o Deco. E sua mãe disse que não teria problema de eu ligar, que ela sabia que você estaria aí…

-Tudo bem, sem problemas. É só mandar o André falar comigo, combinar o horário.

-Obrigada de novo. Até mais, então. Um beijo.

-Beijo. Tchau – desliguei – Droga!

-Droga!? Você acabou de falar com a mulher da sua vida, ela te manda um beijo e você…Droga?!

-Ela ligou por causa do André. Problemas com matemática.

-E você vai ajudar o camarada? – perguntou Enrico, com ironia.

-O que você acha?

-Eu acho que…

-Vou – falei, antes que ele concluísse.

-Sabia, é a sua cara. Todo bom garoto faz pelo menos uma ação mais grandiosa no ano. Já pensou em ser escoteiro?

-Muito engraçado.

-É de estranhar, não é Gab? O cara é só “o cara” que namora, fica, sei lá, com a Alice, a garota pra quem você escreveu poema e tal…

-Quem disse?

-O que?

-Que eu escrevi poema?

-Aha! Mais uma! Só lancei e você confirmou – disse ele às gargalhadas.

Em poucos segundos, estávamos nós dois trocando socos. Ele poderia até ser engraçado com suas brincadeiras sem conseqüências, mas não fazer troça do que naquele momento era o mais importante de minha vida.

Numa das vezes em que ergui o braço para socá-lo, Enrico defendeu-se com uma placa de alumínio sobre a mesa – lembrança de alguma competição. Saldo: minha mão vermelha, meu amigo rindo e fim de combate.

##

(Continua)

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