Clube 15 – Parte VII (cont.)

            Parte VII (cont.)

            O torneio de tênis de mesa havia terminado e assim que chegamos, Flavinha e Marcelle se prontificaram a ajudar Alice no que fosse necessário e Deco, mostrou-se um cuidadoso enamorado, dando-lhe todas as atenções, o que de fato, diminuiu em alguma escala minha alegria.

            -E aí, o príncipe desce de seu cavalo com a desolada donzela…- disse Enrico, disparando gargalhadas.

            -Isso, pode começar com suas brincadeiras…Até porque depois do que aconteceu, não reclamo mais de você.

            -É. O que aconteceu?

            -Ah…

            -Ah…? O que? Diz aí, camarada.

            -Ela me deu um beijo. Quer dizer, eu a beijei e dessa vez ela parece que…

            -A Alice gostou, não foi? Eu sabia. Essas garotas de hoje em dia…

            -Hei!

            -Calma. Só ia dizer que essas garotas fazem qualquer coisa quando estão apaixonadas.

            -Está certo. E você quer que eu acredite nisso? Já fiquei foi muito feliz de ela não ter repudiado meu beijo – e devo ter ficado ruborizado, ao dizer isso.

            -Mandou bem, cara. Eu falei que ela adorava cavalos, sem nenhuma referência a você por isso, que fique bem claro.

            -Sei, sei. Muito bom o seu humor. Mas e o torneio, como foi?

            -Ganhei do Renan numa das últimas partidas e lá foi a Flavinha consolar o perdedor. Grande…

            -Sei como é.

            -Será? A Alice está até cedendo a suas investidas, enquanto eu estou aqui, sem mais…

            -E a Marcelle, não era ela a eleita?

            -Nada. A Marcelle está com o Neto, você sabe. E depois, acho que não é tudo isso que eu pensei não.

            -Pensei que estivesse…

            -…Não – Enrico me interrompeu, antes que eu terminasse a frase – Essa de se apaixonar eu deixo pra você.

            O assunto acabou ali, quando consegui rir de mim mesmo. Rir para não chorar, como se costuma dizer. Lances acontecendo a todo o momento e o pensamento reunindo num só tempo diversos temas, sem querer se perder:

            -Preparados para a fogueira de logo mais? – veio Neto, a participar do assunto.

            -Acho que sim – respondi.

            -Tem que estar pronto, Gabriel. Vai só ouvir as histórias ou tentar nos assustar com seus casos?

            -Não tenho casos de terror para contar. Melhor esperar pelos contos de vocês.

            -Vai ser legal, você vai ver. A galera se reúne e passa o tempo, na boa.

            Eu começava a gostar da idéia de fazer parte de um grupo e entender das diferenças de cada um, para sair da monotonia do próprio mundo:

            -Vai, sim – concluí.

            -Não vai esperando muito, não. Só umas historinhas bem mal contadas – vinha Enrico, acabando com qualquer tipo de divagação positiva.

            E tudo ocorreu conforme o previsto por Enrico. Ele sabia bem do que falava, histórias não muito criativas, mas hilárias, como a de um fazendeiro que se assustava com o barulho de correntes arrastando e descobre que não passava do cachorro do vizinho tentando se livrar da coleira que o prendia ao portão de uma das entradas do terreno. Ainda, de acordo com as expectativas, os casais logo se formaram para curtir o clima romântico do fogo adentrando a noite, o que fez com que Enrico e eu decidíssemos por nos afastar do grupo e conhecer o resto da fazenda numa breve caminhada.

            Eu e meu amigo até tentamos falar de outros assuntos, mas as garotas definitivamente marcavam o tom em nossas conversas.       

            -Nós não podemos nos enganar, fingindo que as coisas estão certas e que está tudo bem em ser assim.

            -Você é muito dramático, Gabriel – disse Enrico, chamando-me pelo nome naquela ocasião.

            -A vida não é das mais alegres. Ela não tem consciência de que há mais alguém do que ela somente por aqui. Ou vou ficar a vida toda esperando por…

            -Por…? – indagou ele.

            -Por…Não sei, por alguma coisa, alguém que não é para mim.

            -Shakespeariano quase, você está se superando, Gab – disse Enrico entre risos, o que diminuiu o tom da conversa.

            -Está bem, não adianta ficar falando desse jeito, se na hora da verdade…

            -“Hora da verdade”? Sabe há quanto tempo não escuto isso?

            -Então, se  “quando as coisas acontecem”…

            -Melhor assim – assentiu ele.

            -…Quando as coisas acontecem, é bem menos poético.

            -Vem cá, quando você tiver trinta anos vai falar só em latim ou grego?

            O que pude fazer foi, então, rir de mim mesmo. Até eu gostaria de escolher um pouco menos as palavras a dizer:

            -Você venceu. Quer saber, por que ela me beija e depois vai lá ficar com ele depois de eu dizer tanta coisa, ficar sem arma nenhuma diante dela – a verdade é que ainda continuava um tanto metafórico.

            -É, pelo menos teve um beijo. E eu aqui, curtindo esse frio todo e nada. Só nos campeonatos de tênis de mesa.

            -Eu não sou dos melhores esportistas.

            -Mas admira a líder da torcida – replicou Enrico.

            Voltamos para o encontro dos outros e então, terminar em sono profundo mais uma noite fria.

            Sem qualquer tentativa de poesia. Férias, longe de meu caderno também a repousar, na gaveta do criado-mudo de meu quarto.

 

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Clube 15 – Parte VII

            Parte VII

             A passagem pela estrada foi tranqüila. Todos contentes com o início das férias de meio de ano, querendo saber de tudo, menos de falar das aulas no colégio. Ria-se de qualquer gracejo mais superficial ou de um simples olhar torto diante de algum comentário sem fundamento de Flavinha ao colocar-se a falar sem parar.

            O que passava por minha cabeça era como passar aquela semana perto de Alice e Deco, aproveitando dos atrativos dos ares do campo e buscando deixar de lado o que sentia por minha Helena.

            Chegando à fazenda, o pai de André deixou-nos aos cuidados de dona Carmem e seu Pedro, pois voltaria ao trabalho na cidade. Os avós de André foram bastante hospitaleiros, levando-nos aos quartos da fazenda para descarregar as malas e descansar um pouco da viagem, o que não demorou muito. O que fiz eu e os outros foi servir-nos da recheada mesa de bolos, pães e doces diversos oferecidos por dona Carmem à varanda.

            Alice com seu jeito polido, logo elogiou os quitutes da avó de André, ao que a senhora retribuiu com sorrisos. Enquanto isso, eu me controlava para não me aproximar de minha Helena e dizer tudo aquilo que pesava em meu coração adolescente.

            -E então, não vai cansar de olhar pra Alice? – gracejava Enrico.

            -Acho que não.

            -Devia aproveitar para uma nova investida com a guria.

            -Você está louco? O André me convida pra vir aqui numa boa e eu…                   

            -E você nada. Não estou dizendo pra partir pra cima, só pra mostrar que ainda está aí.

            -Isso ela está vendo. Óbvio demais.

            -Então, não escute o que eu falo e continue a anos luz da sua musa.

            -Está certo. Então diz qual a sua grande idéia?

            -Sabe andar a cavalo?

            -Não sou nem um grande cavaleiro, mas os passeios na fazenda de meus primos até que me serviram pra alguma coisa. Cair acho que não caio, não.

            -Eu sabia que você não ia deixar a Alice na mão.

            -O que? – olhei-o embasbacado.

            -Cara, você é o cara.

            -É. Por que?

            -Porque o Deco não anda a cavalo, coisa que a Alice adora fazer.

            -Estou achando que você sabe muito da Alice.

            -Não, o que acontece é que você só começou a prestar atenção nela agora. Todo mundo sabe das habilidades da nata do Santa Marta.  O Deco pode ser ótimo em muitos esportes, mas equitação não é o forte dele. E não é segredo pra ninguém que a Alice goste de cavalos.

            -Concorda, Gabriel? – interveio André.

            -Concordar? Não sei – respondi, em estranhamento.

            -Estava falando de logo mais à noite fazermos uma fogueira, não é uma boa idéia?

            -Claro, ótima idéia – assenti, inclinando a cabeça.

            -Então está feito. Depois do lanche, vamos atrás de madeira.

            Assenti ao questionamento quase que mecanicamente, preocupado em saber se André ouvira o que eu e Enrico conversávamos.

            -Não precisa fazer esta cara. Quando o Deco está tendo suas “idéias criativas”, não presta atenção à sua volta – ironizou Enrico.

            Soltei um riso leve e fomos nos juntar aos outros nas dependências da fazenda para nos abrigarmos do frio cada vez mais intenso daquelas paragens.

            Fogueira em férias numa fazenda já se tornara um lugar comum para passeios das turmas de colégio. Só faltavam vir à noite os famosos contos de terror e as investidas de cada um em quem lhe inspirava, algo difícil para mim ao ver minha menina junto a outro. Costumavam ser dramáticos meus pensamentos.

             ##

             -Então, Gabriel? Está curtindo a fazenda? – perguntou-me Alice, após uma leve inclinada de cabeça e mexer no cabelo com delicadeza.

            -Sim, apesar do frio. Pelo menos descansamos das aulas e diminuímos o ritmo, certo?

            -Sim.

            Ficamos assim, por alguns minutos, numa conversa a qual eu diria ter sido sobre assunto nenhum, já que nada falamos de relevante. Estávamos sentados num banco na varanda da casa, enquanto os outros terminavam um torneio de tênis de mesa, desinteressante tanto para mim quanto para a garota do anfitrião. Providencial torneio de tênis de mesa, me permitindo desfrutar mais alguns minutos da garota presente em meus sonhos. Poderia ficar horas olhando para ela sem dizer nada, mas disse:

            -Por que você faz isso comigo?

            -O que? Já sei, estou falando demais. Desculpe, é que quando disparo a falar, acabo…

            -Não é isso.

            -O que então? – perguntou-me, com semblante pesado.

            -Nada – nem eu sabia dizer, ou melhor, não queria dizer que me fazia mal gostar dela.

            -Já sei. Vamos aproveitar que estão todos lá dentro compenetrados no torneio e damos uma volta a cavalo. Que tal? – sugeriu, abrindo um sorriso.

            -Melhor falar com seu Pedro antes?

            -Não. Ele já me deu permissão para isso.

            Claro, seu Pedro e dona Carmem deveriam agradar a garota de seu neto.

            -Então, tudo bem – concluí, concordando com o que dizia.

            Não demoramos a pegar os cavalos e sair em passeio. Alice ficava ainda mais bonita com os cabelos ao vento, com o brilho ressaltado pelos tênues raios da luz do sol aparecendo timidamente naquele dia nublado.

            -Ah, vai continuar assim, tranqüilo nesse trote? – desafiava-me Alice.

            -Por que? Está querendo competir por algum motivo especial? – respondi com outra provocação.

            Minha Helena apenas baixou os olhos, fitou-me e partiu em disparada. Não fiquei atrás e mesmo que não fosse um excepcional cavaleiro, conseguia domar um alazão em curtos trajetos. Pouco tempo após partir a ela, como a disputar um grande prêmio, tal numa reviravolta dos filmes hollywoodianos, a garota veio ao chão. Apeei de meu cavalo e fui em seu auxílio:

            -Alice, está tudo bem?

            Ela não respondeu, ao que lhe tomei nos braços e senti que seria aquele um dos momentos mais importantes de minha adolescência. Lembro de ter o coração disparado e a boca ressequida de pronto, por tê-la ali, tão perto de mim depois de tempos, sabendo que dias pareciam anos para um jovem em pleno desenvolvimento.

            -Alice…- disse baixinho, quase em desespero, por não ouvir sua voz.

            O silêncio foi quebrado num suave ai de dor, seguido de um riso leve:

            -Está tudo bem. Meu amigo não ia me deixar na mão.

            -Amigo?

           – Depois de algum tempo tratando com cavalos, já aprendi a cair melhor – riu-se – Só meu tornozelo dói um pouco, um mau jeito da queda.

            -Melhor você esperar aqui até que eu chame alguém, não sei…

            -Não, está tudo bem. Não me deixa sozinha, não. Ajude-me a levantar.

            Passei o braço de Alice sobre meus ombros e levantei-lhe numa manobra cuidadosa, para que não precisasse apoiar seu peso sobre si e prejudicar a pequena lesão. Pensei ser aquele um dos poucos instantes em que a teria, só para mim naqueles dias, e não hesitei em aproveitar o momento de aproximação e beijar-lhe longa e ternamente. Meu pensamento parecia ter parado naquele breve instante em que fomos um só, num corrente fluxo de sangue por minhas veias.

            -Gabriel, eu não posso…A gente não pode fazer isso, não está certo – disse-me ela, com os olhos úmidos.

            -Desculpe, eu só queria que você soubesse um pouco do que eu sinto…

            -Melhor voltarmos, está bem?

            -Tudo bem…Será que consegue subir?

            -Eu vou sozinha, pode deixar…

            Bem que Alice tentou voltar com o cavalo o qual conduzira durante o passeio, mas a dor no tornozelo impediu-lhe, logo na primeira tentativa de montar. Acabamos juntos, na mesma montaria. Ajudei a garota a subir em Dourado, o cavalo o qual eu montava e voltamos juntos para a casa da fazenda.

            Minha musa não disse palavra alguma durante o caminho de volta, exceto quando se mostrou preocupada sobre como resgatar o outro animal, no que acabou ficando tranqüila ao lembrar-se de que não tínhamos ido longe e que dificilmente, ele se perderia naquelas paragens. Eu, por minha vez, recordo-me de não poder disfarçar meus ares de contentamento por aquele beijo, pelo grande momento daqueles últimos dias.

           (Continua)

Clube 15 – Parte VI (cont.)

Parte VI (cont.)

Segunda-feira, lá estava eu esperando Enrico chegar com meu caderno de Química, o qual ele havia pegado emprestado para colocar o seu em dia com a matéria, para poder fazer minhas anotações da primeira aula do dia, assim que desse o sinal da entrada. Minutos suficientes para a primeira batalha do dia, conversa com o “inimigo”:

            -Oi, Gabriel. Beleza?

            -Tudo bem, André.

            -Seguinte, a Alice me disse que falou com você do meu lance com Matemática.

            -É, falou.

            -Então, pode ser hoje na biblioteca depois das aulas. Eu marco horário lá, aí fica mais tranqüilo.

            -Pode ser.

            -Então está combinado, depois das aulas na biblioteca. Qualquer coisa a gente se fala logo mais, na sala.

            -Beleza.

            -Valeu, mesmo. Não sei se você andou vendo minhas notas.

            Claro que não, o que menos queria era saber das suas notas ou qualquer coisa sobre ele. E tinha motivo o bastante para isso, pensei. Já bastava ele estar com a garota que eu queria para mim.

            -Não – respondi.

            -A situação está complicada. Mas acho que com suas dicas…Bem, do que falam de você…

            -O que? Falam o que de mim?

            -Ah, você sabe. E a gente vê que você pega rápido o conteúdo. Nunca vi você discutindo suas notas, afinal elas sempre são boas. Nem precisa.

            -Sei. É, mas é só estudar um pouco – disse em tom provocativo.

            -Eu estudo. É que com os treinamentos para as competições do próximo semestre, sobra pouco tempo.

            Todo mês de agosto aconteciam jogos entre as classes, era disso que André falava. Eu, até aquele ano não me animara a competir em nenhuma modalidade, diferente de Enrico, que se esmerava nas suas corridas para chegar bem às provas de atletismo no torneio interno do Santa Marta.

            -Cheguei antes do sinal? – chegava Enrico correndo, para não perder o horário.

            O sinal tocou.

            -Valeu, pessoal. Vou entrando. Obrigado, Gabriel.

            Apenas ergui uma das sobrancelhas, em concordância.

            -Fala, professor Pitágoras. Pronto para seu novo aluno?

            -Vai brincando, Enrico. Só vou dar uma força. Também não é para tanto. Se posso ajudar, vou ajudar.

            -Gostei, espírito cavalheiresco.

            -De onde tirou essa? “Espírito cavalheiresco?”.

            -Também leio, meu caro. E tenho avós para me renovarem com uns termos aí. É só recauchutar, que fica novo. – explicou-se.

            -Entendo. E meu caderno?

            -Está na mão.

            Entramos para as aulas, sem mais demora, para não haver atrasos. Passei por Química, História, Literatura, Matemática e depois de algumas horas de estudo, parada para um almoço, lá estava eu sentado à frente de meu colega de turma para continuar a tratar de números.

            -Por onde começamos?

            -Podíamos passar por tudo?

            -Bem… – mostrei-me desanimado – Tudo?

            -Não, brincadeira. O que não peguei mesmo foi a matéria da última unidade do livro. Talvez alguns exercícios e eu entenda por que resolver de um modo ou outro. O que acha?

            -Pode ser.

            Depois de algumas explicações de minha parte, um aluno atento a elas e algumas risadas pelas caretas que a auxiliar da biblioteca fazia a cada riso um pouco mais alto dos alunos, entre seus estudos e pesquisas, inclusive risos meus e de André, fechamos boa parte do conteúdo. E em tom cavalheiresco, como dizia Enrico, apertamos as mãos, cordialmente, deixando para trás aquele recinto cheio de livros até o teto, cheirando a óleo de peroba, provavelmente passado nos móveis quase todos de madeira.

            Foram duas semanas inteiras dedicadas às aulas a André, após o período normal do colégio, com bons resultados.

            -Olha, Gabriel. Fiquei acima da média – disse André, ao olhar sua nota final do semestre no quadro de avisos da sala de aula.

            -Valeu a pena estudar mais um pouco, então.

            -Com certeza. Assim fico mais tranqüilo. E sem dúvidas, graças a você.

            Não era para tanto, pensei. Contudo, havia um sabor especial naquilo, pois de alguma forma eu me encontrava em vantagem na minha corrida por Helena – entenda-se Alice. O André e ela precisando de mim e me agradecendo por minha nobreza em ajudá-los. Certo, meu orgulho marcava presença sem que eu precisasse dizer palavra alguma.

            -Esquece isso.

            -Nada disso. Quer saber, já sei como te agradecer.

            -É? – perguntei, em estranhamento, afinal ele não me conhecia muito para saber como me agradar. E ele não me daria Alice como um presente.

            -Você é meu convidado para a primeira semana de férias na fazenda de meus avós. Que tal?

            Fiquei sem resposta. Na verdade, não havia planejado nada para aproveitar os dias de folga do colégio, mas passar uma semana na companhia de André…

            -Seguinte, vamos eu, os camaradas: Renan, Neto, o Marcelo sabe? As meninas: Flavinha, Marcelle, a Alice…

            Ele parecia ter dito palavras mágicas. Então, respondi com uma pergunta:

            -Posso pensar?

            -Na boa. A gente sai na sexta pela manhã. Mas você vê se fala antes para eu avisar a dona Carmem e o seu Pedro em quantos nós vamos pra eles ajeitarem tudo por lá. Sabe como é, se eu chego lá de repente com mais gente, não reclamam. Mas, preferem que eu avise até pra receberem a gente melhor.

            Sendo quarta-feira, havia praticamente, um dia para pensar:

            -Eu te ligo mais tarde, então. Tenho que ver direito isso lá em casa.

            -O Rico pode ir também. Fala com ele.

            -Beleza.

            -Ah, e hoje à noite tem aquela reunião com os pais. Falo pra minha mãe falar com a sua da fazenda. É bem maneiro lá, tem cavalo, piscina e depois, meus avós estão lá pra qualquer problema.

            -Certo. Valeu!

            O sorriso metálico queria mesmo mostrar-se agradecido por minha ajuda acadêmica e tudo parecia colaborar para que ele conseguisse se livrar de tal pequena dívida de gratidão comigo. Reunião de pais, fazenda dos avós…Embora pensasse parecer isso um tanto careta e infantil para quem queria posar de adulto, ponderava termos quinze anos apenas, e muitas responsabilidades ainda delegadas a nossos pais.

            Meus pais, após longa conversa com os pais de André, acharam uma idéia boa, saudável e segura, deixar-me ir a tal fazenda, afinal poderia me divertir com pessoas de minha idade, respirar ar puro e ainda ter cuidados familiares. E mais, Enrico animou-se em voltar ao convívio dos populares atletas e estar perto de Marcelle, embora em situação parecida à minha em relação à Alice.

            Arrumei minha mala para uma semana de férias numa fazenda próxima à cidade, esperando conseguir alguns dias quentes, ao menos, diante da proximidade do inverno, o que mais tarde não veio a se realizar.

            Enquanto lia minhas próprias palavras feitas em alguma poesia no caderno a ficar trancado na gaveta do criado-mudo, receava não ter coleguismo suficiente para ver Alice e André juntos, sem nada fazer. Então, em mais um desabafo, tomei uma caneta à destra e escrevi mais algumas palavras, na folha seguinte à “Helena”, meu último texto dedicado à garota a tomar minha mente e abalar meus sentidos:

 

            15 versos pensando em você

            Eu receio que surja em mim o gladiador que se faz em meus pensamentos

            E que eu deixe a honra de lado, para ser vil ao atacar um inimigo sem armas

            E entrar numa guerra em que te tomei como motim, sem consultar-te

            É mais que uma associação histórica, mais que ódio ou amor

            É minha falta de poderes para fazer-te sentir por mim o que te devoto

            É minha impotência perante uma aliança pronta, ainda que recente

            Sou eu, sem armas, e querendo lutar

            Sou eu, oferecendo-me em sacrifício de uma ilusão

            Querendo ser poeta e não passando de um pobre mancebo

            Apaixonado talvez, e sem esperanças diante do embate com os leões,

            a poucos segundos para entrar na arena

            É assim que me sinto

            sem ter o que fazer, a não ser te olhar de longe e

            Então, sorrir com seu sorriso

            Se ainda quero fazer parte de sua vida.

           

            Na falta de inspiração para colocar algum título mais criativo, acabei por intitular aquelas linhas de forma literal, chamando-as exatamente do que se tratavam, versos pensando em Alice.

            Fechei o caderno, fechei a mala, tranquei a gaveta do criado-mudo após guardar o caderno e deitei-me. Algumas horas de sono tranqüilo para acordar disposto pela manhã, alimentar-me bem, não esquecer alguns documentos e tomar carona no carro da mãe de Enrico para a casa de André, próxima a rua onde eu morava.

            Tudo pronto, bagagens arrumadas, entramos todos na van do pai de André. Oito adolescentes partindo para mais uma viagem a guardar na memória e recordar pelas fotos feitas para a posteridade.

            Momentos de descontração, controle de sentimentos, risos, lágrimas. Pieguice? Ainda não sabíamos, de fato, o que encontrar naquele passeio. Cenas do próximo capítulo.

 

 

 

 

Clube 15 – Parte VI

Parte VI

 A festa à fantasia no Hotel Schneider fora um dos últimos pontos altos de meu relacionamento platônico com Alice, afinal, não se poderia considerar nada mais além de platônico um romance em que houvera apenas um beijo pueril de poucos segundos o qual tivera realizado sozinho. Ademais, Alice estava com o Deco já havia alguns meses e o que poderia ter passado como apenas mais uma chuva de verão, durava tempo demais para que eu ainda cogitasse uma espera tranqüila para que depois de alguma virada na história, a garota viesse para meus braços.

Enrico passara por muitos bons momentos, enquanto duravam seus relacionamentos alguns dias e às vezes até mesmo uma semana e dizia que eu deveria fazer o mesmo. Até tentava seguir seu conselho, mas era só fechar os olhos e sentir Alice entre mim e a garota sentada ao meu lado na poltrona do cinema. De fato, eu acabava beijando a garota e nós dois ficávamos contentes até a hora do sorvete acabar após a sessão e cada um ir para sua casa, provavelmente pensar em seus verdadeiros amores ou procurar explicação possível para essas sensações estranhas de perder o fôlego e não ter as palavras certas para a pessoa certa.

-E aí? Pensei que não ia aparecer, aqui em casa, para a gente experimentar o novo game enquanto provamos da deliciosa pizza congelada do supermercado aqui da esquina.

-Saí do cinema quase agora com a Ana Cláudia – expliquei-me.

-Sei quem é a guria. E então, tem futuro?

-Não.

-Por que? A Claudinha é tão bacana.

-É, é bacana. Mas não é…

-Mas não é a Alice. Vai esperar ela até quando?

-Não sei se vou esperar. Talvez nem aconteça…

-Por isso mesmo, você devia insistir mais. O máximo que ficou com uma garota nestes tempos foi por dois dias, quando saí eu, a Marcinha, você e uma amiga dela.

-E você, fez diferente?

-É que eu sou conhecido pela variedade, o camarada aqui é requisitado.

-Falou o cara!

-Está certo…Assim, quando diz que sou o cara. Quer saber, estou é com fome, agora.

-Salta uma pizza congelada! – brinquei.

-Não, rola um microondas pra resolver este problema – devolveu Enrico, a piada, aos risos.

Tornara-se costume, jogar no computador e comer pizza aos sábados à noite quando não aparecia nenhuma festa ou não tínhamos o que estudar. Aos poucos, eu aprendia dividir meu tempo para ter algum momento de lazer entre as horas dedicadas aos estudos para o colégio e minhas leituras nem sempre obrigatórias, já que me interessava por literatura.

Enrico tornara-se um grande amigo, sabendo ser companheiro ao falar de meus problemas e ele dos dele, fosse isso alguma dificuldade nas coisas da escola a minhas incertezas em relação a meus sentimentos por Alice e os dele por Marcelle. Foi num desses dias de pizza e games, em que fiquei sabendo do que ocorrera entre ele e uma das inseparáveis integrantes da dupla do Instituto Santa Marta.

-Mais pizza?

-Valeu, obrigado.

-Refrigerante?

-Não, ainda tem aqui no meu copo.

-Pipoca?

-Enrico, você está atrapalhando…Aí, perdi de novo.

-Beleza.

-Beleza? Eu perdi no jogo – repeti, espantado.

-Você recomeça depois. Escuta só.

-Fala.

-Sabe a Celle? – veio ele, dizendo em voz mansa.

-A Marcelle?

-Isso. Falei com ela, hoje.

-E a variedade, camarada? – questionei, em tom de brincadeira.

-Detalhes, meu caro. Detalhes.

-Sei, sei. Mas, e aí? Resolveram relembrar os velhos tempos?

-Nem brinca. Na verdade, eu tentei falar com ela, mas não rolou.

-Ainda assim? Pensei que já estava tudo bem entre você e o pessoal do Santa Marta?

-Os camaradas pelo menos cumprimentam, mas ficou alguma coisa da briga lá no hotel do avô da Isadora. Eles cumprimentam e só. Nenhuma chance de voltar ao grupo.

-Ah, mas isso não interfere nos seus treinamentos.

-Não. O atleta aqui se vira quando você abandona as corridas de fim de semana do colégio. Mas e eu e a Celle?

-Depois sou eu. Nem tenho falado mais da Alice, ultimamente.

-Acho que “o cara” – frisou ele – está meio…

-Apaixonado? – perguntei, irônico.

-Não, a fim de relembrar os velhos tempos.

-E o Neto?

-O que tem o Neto?

-É, nada não -respondi, sem graça.

-Fala aí. Começou, termina.

-Você não sacou os dois na festa?

-Está certo, mas isso já faz uns meses. Nem…Não é mesmo? – inquiriu-me.

-É…

-É…?

-Não.

-Como você sabe?

-Só você não sacou os dois nos intervalos. É que a Marcelle é quieta, eu acho. Quase não fala. Só fica seguindo os passos da Flavinha. Mas ela e o Neto…

-Bem que vi os dois umas vezes, mas como andam em grupo sempre, não achei que fosse… Legal, esquece.

-Vai desistir, assim fácil? Nem parece o cara que me falou pra correr atrás e tal.

-Não é a primeira vez…

Calei-me e fiquei ouvindo a história. Enrico começou a falar do acampamento organizado pelo grêmio, aquele ao qual não fora, e logo compreendi o porquê de seus receios. Marcelle havia ficado com ele durante todos os dias do passeio até encontrar Flavinha e ele juntos, num fim de noite após uma roda de histórias de terror ao redor duma fogueira.

-…Resumindo, perdi a garota por causa de um abraço sem mais.

-Sem mais?

-É, sem mais alguma intenção. A garota se aproximou, meio com medo e demos um abraço inocente.

-E por que só você saiu prejudicado? A Flavinha nem tentou se explicar pelos dois?

-Você acha? Falou que eu a agarrei, que não pôde evitar.

-Típico drama?

-Não, terror. As histórias eram em torno de caveiras, fantasmas…

-Estou falando de você e a dupla dinâmica.

-Ah, entendi. Drama. O que interessa, é que perdi a garota e fiquei assim, sem menos…

-Sem menos?

-Sem mais nem menos, a ver navios, compreende? – devolvia Enrico, espirituoso.

-Compreendo, Descartes.

-Filosofia, agora. Não era bom em Matemática?

-Também. Mas e a garota, como fica?

-Com o Neto. Eles não estão juntos?

-Por enquanto. Ou não vai seguir seus próprios conselhos?

-Posso tentar. É que sou melhor falando mesmo.

-A gente supera – disse-lhe, confiante.

Chocamos as mãos num cumprimento e acabamos com os pedaços restantes de pizza num prato sobre a mesa de computador.

Àquele dia senti-me um pouco melhor diante de mim mesmo, afinal não era só eu a dar doses dramáticas às situações as quais passava. Ouvindo Enrico contar sobre ele e Marcelle, percebi a maneira normal de em determinada faixa etária, carregar mais nas cores dos quadros pessoais ante o cenário real. E isso que, até àquela hora, não pensava serem de grandes proporções os sentimentos de Enrico por Marcelle.

Mais uma vez, eu voltava a pensar na beleza grega de Helena e a ter sinais dela em minha simples vida contemporânea. Depois de uma tarde recheada de molho e mussarela, a História vinha ao nosso encontro pelo fio do telefone:

-Alô… Oi, tudo bem?…Também, estou aqui jogando…É…

-Sua mãe? – perguntei em voz baixa para Enrico.

Ele fez sinal de negativo com o indicador e pediu um minuto ao seu interlocutor do outro lado da linha.

-A Alice, meu caro. Ela te achou.

-A Alice? Como assim?

-Espera aí. Deixa eu falar…Oi – voltou Enrico ao telefone – O Gabriel que não sabia como sair do jogo, aqui no computador…É, pode sim. Vou passar pra ele. Tchau…Quer falar contigo. Aproveita! – e riu-se.

Tomei logo o telefone da mão dele e iniciei a conversa meio sem graça:

-Oi, Alice. Tudo bem?

-Comigo sim…Quer dizer, lembra de quando te perguntei sobre Matemática?– questionou ela do outro lado da linha.

-Lembro…Alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar?

-Não a mim, exatamente. É que o Deco está com alguns problemas na matéria e como está chegando a prova do fim do semestre, com a matéria toda.

-Sei, sei – desanimei-me.

-Então, será que você podia…

Numa fração de segundos, antes que ela terminasse de falar, lembrei-me do incidente no clube, do fato do André ter me ajudado, de ele não ter nada a ver com meu insucesso com Alice…

-…ajudar o Deco, com uns toques depois das aulas? – conclui Alice, seu questionamento.

-Posso – respondi, de pronto.

-Obrigada. E pede desculpa para o Rico, por ligar aí. É que precisava falar com você logo, pra ajudar o Deco. E sua mãe disse que não teria problema de eu ligar, que ela sabia que você estaria aí…

-Tudo bem, sem problemas. É só mandar o André falar comigo, combinar o horário.

-Obrigada de novo. Até mais, então. Um beijo.

-Beijo. Tchau – desliguei – Droga!

-Droga!? Você acabou de falar com a mulher da sua vida, ela te manda um beijo e você…Droga?!

-Ela ligou por causa do André. Problemas com matemática.

-E você vai ajudar o camarada? – perguntou Enrico, com ironia.

-O que você acha?

-Eu acho que…

-Vou – falei, antes que ele concluísse.

-Sabia, é a sua cara. Todo bom garoto faz pelo menos uma ação mais grandiosa no ano. Já pensou em ser escoteiro?

-Muito engraçado.

-É de estranhar, não é Gab? O cara é só “o cara” que namora, fica, sei lá, com a Alice, a garota pra quem você escreveu poema e tal…

-Quem disse?

-O que?

-Que eu escrevi poema?

-Aha! Mais uma! Só lancei e você confirmou – disse ele às gargalhadas.

Em poucos segundos, estávamos nós dois trocando socos. Ele poderia até ser engraçado com suas brincadeiras sem conseqüências, mas não fazer troça do que naquele momento era o mais importante de minha vida.

Numa das vezes em que ergui o braço para socá-lo, Enrico defendeu-se com uma placa de alumínio sobre a mesa – lembrança de alguma competição. Saldo: minha mão vermelha, meu amigo rindo e fim de combate.

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(Continua)