Clube 15 – Parte V (cont.)

Parte V (cont.)

(…)

-Fala, Gab! Como foi? – veio Enrico, palrador.

-O que? – perguntei, sem saber do que falava.

-O beijo, oras. Eu vi lá da pista.

-Um beijo no rosto?

-Progressos. Faz uma semana que não se falam. Uma amiga, mais tarde, pode…

-…Pode?

-Pode – confirmou ele, rindo-se.

Os convidados não paravam de chegar, até que todas as mesas do ambiente apresentaram-se todas ocupadas e podia se ver muitos dançando animados ao som das músicas da moda de então. Eu, ainda um pouco desajeitado, integrei-me ao grupo arriscando alguns movimentos na pista. Aos poucos, conseguia interagir sem tantos receios ou timidez.

Flavinha e Marcelle não cansavam de manter aqueles sorrisos não muito naturais ao lado do trio de ouro e de Alice. Aliás, a bela Helena se mostrava a mais natural naquela representação juvenil.

-Não cansa de olhar para ela?

-Não, Enrico.

-Puxa, Gab! Tanta garota legal por aqui e você só tem olhos pra Alice.

-Helena.

-Aí enlouqueceu de vez.

-Não, seu amigo está bem.

-Valeu, pelo “amigo”. E por isso mesmo que te falo, vai curtir mais. Esquece um pouco sua Helena.

-Vou tentar. Estou aqui na festa, dançando…Estou melhorando nisso.

-Ponto pra você – concluiu ele.

Quando parei para descansar um pouco e sentei-me para comer alguma coisa e tomar uma água, percebi Flavinha e Renan juntos, mais próximos. E na mesa seguinte, Marcelle e Marcelo Augusto, o Neto.

-Aí, garotinho. Foi só eu me ambientar melhor e as coisas aconteceram. A Mulher-Gato está me esperando lá fora?

-Que?

-Calma, é só a Marcinha da sua sala, em noite de vilania.

-Então, achou alguém para embarcar no seu navio?

-Acho que sim. A gente se vê por aqui perto da hora de ir embora.

-Tudo bem. Vai lá, perna-de-pau – fiz troça.

Notei quando Enrico olhou para Marcelle e Neto, antes de ir ao encontro de sua vilã.

 

Enfim, estava sozinho naquela mesa, vendo Alice ao longe com o dono de beijos mais demorados que o meu, sorvendo um copo de água e marcando o ritmo ao tamborilar os dedos.

Edu parecia animado com sua festa, distribuindo sorrisos e andando pelo salão com Isadora para conversar um pouco com cada convidado, portando-se como exímios anfitriões. Talvez aproveitássemos mais a festa do que eles, naquela necessidade de agradar a maioria.

A festa era tão grandiosa que parecia que todos deveriam sair ganhando, tanto que em determinado momento tivemos de preencher umas fichas, indicando a melhor fantasia, a qual acabei por não completar.

Conversei com outros colegas, passei novamente pela pista e fui pego de surpresa quando anunciaram os mais bem trajados da noite:

-Eu e o Edu, agradecemos a presença de todos vocês e queria aproveitar para desejar o melhor para o meu namorado, o Edu, neste aniversário. E vamos à escolha de vocês. 

-Obrigado, Isa. E obrigado a vocês por virem – completou Edu, sorridente.

Todos aplaudiram como se fosse a entrega de um grande prêmio, como um Oscar americano.

-E a escolha de vocês vai para Gabriel e Alice, por Zorro e Helena de Tróia.

Alice soltou a mão de Deco e veio o meu encontro.

-Acertei no seu cavanhaque – riu-se ela, entrelaçando o seu braço ao meu.

-E o que a gente faz agora?

-Sorria e agradeça.

Subimos ao palco, ao som do aplauso dos convidados e Alice tomou a iniciativa de ir ao microfone e agradecer, primeiro:

-Obrigada a todos por nos elegerem. Mas todo mérito vai pra esses grandes personagens, Helena e Zorro, não é isso, Gab?

-É isso. Obrigado.

Eis que em meio à multidão, quando já me preparava para sair, começou Enrico:

-Beija, beija!

E o pior, para maior constrangimento, a maioria decidiu por acompanhá-lo. Alice, sem perder seu brilho e atenta ao semblante pesado que se marcava em Deco, próximo ao palco, beijou-me o rosto, num gesto delicado e bem pensado.

Após o lance quase fantástico, descemos do palco e tive de voltar à realidade, vendo Alice voltar aos braços de André.

-Mandou bem, garoto! Acho que conviver comigo está te fazendo bem.

-E a Mulher-Gato?

-Teve de ir embora. Mas foi bom enquanto durou – sorria Enrico.

-A sua cara já está dizendo.

-E você?

-Perdi Helena para Tróia de vez.

-Nunca se sabe.

A festa continuou com os acontecimentos de sempre, entrada do bolo, parabéns, doces como sobremesa e as despedidas finais.

A mãe de Enrico foi buscar-nos no Hotel Schneider à hora marcada e acabei entrando na madrugada de sábado para domingo com a luz da luminária do criado-mudo acesa, terminando mais um de meus poemas:

 

Helena

Hoje viajei sem sair do lugar

E encontrei a fada dos contos em minha realidade,

Dessa vez como a mais bela de todos os tempos

Inspirando poetas e ofuscando as outras flores,

Helena foi única esta noite

E desfrutar seu ar foi mais que voltar no tempo em segundos

Fiz parte da História, em anacronismo

E dei-me a permissão de ao menos sonhar

És objeto de meu sonho

Sem harpas, trajar toga ou quebrar pratos,

fui às ruínas e dei a meus olhos a chance

de ver a melhor filha da terra de Zeus

E tomei a mão da princesa sem fazer reverências

E fui feliz, sem ter de mostrar os dentes

Cavaleiro apeia de seu cavalo

E sai das sombras da noite

Para dar lugar à luz dos sonhos.

 

Dei nome ao meu delírio em tinta e papel e adormeci tranqüilo, sem pensar muito para ter como lembrança a melhor imagem de minha noite.

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