Clube 15 – Parte V

Parte V

 

Em poucas semanas, minha vida dera de me pregar muitas peças. Sim, porque se apaixonar, lidar com os próprios sentimentos já se faz complicado, então se tudo isso vem acompanhado de mais um competidor com armadura melhor elaborada, o quadro ganha seus agravantes. Ainda mais grave é quando o objeto de seu desejo tem um status de popularidade a ser mantido e os conceitos de estar “na onda” ou não, muda constantemente.

Na semana seguinte já era possível notar a diminuição dos cumprimentos que eu recebia à porta do Santa Marta, obviamente pelas atenções terem se voltado diretamente para o casal dos já populares, Alice e Deco. Se houvesse uma passagem de faixa pela manutenção de líderes do colégio, certamente, a feminina iria para Alice e a masculina para André, deixando para trás a dinastia de Edu e Isadora.

Aliás, após os cinco dias de aula tendo de encarar Alice e André pelos corredores trocando olhares e outras coisas, não poderia ter melhor recompensa que uma festa no fim de semana para colaborar com minha falta de ânimo e impotência perante seres os quais pareciam, realmente, apaixonados. E mais, um amigo insistente:

-Oi, Gab. Sou eu, o Rico.

-Fala, Enrico. Beleza? – respondi ao alô do outro lado da linha.

-Tudo bem. E aí…?

-Não.

-Não o que? Espere que eu termine de falar.

-Vai, continua.

-Então, vamos pra festa de aniversário do Edu?

-Não.

-Está certo, então vai perder uma festa à fantasia no Hotel Schneider?

-Festa à fantasia ainda. O pessoal poderia ser mais autêntico, não?

-Está certo, digamos que seja mais uma festa à fantasia lá no hotel do avô da Isadora, mas em qual delas você foi?

-Nenhuma?

-É, nem precisa se mostrar em dúvida. Se você for, vai ser só a segunda festa no hotel em que você aparece.

-Está certo, eu vou lá e fico aplaudindo o casal do ano?

-Está vendo só como fala. Você que acaba colocando empecilho em tudo. Por isso é que…

-Não, fala.

-…Por isso é que não tem tantos amigos.

Fiquei em silêncio, afinal não havia o que dizer diante de uma análise direta e certa, de qualquer modo.

-Gabriel?

-Fala – disse eu, num tom mais baixo de voz.

-Está aí?

-Estou.

-Então, vai de Pitágoras? – disse Enrico, aos risos.

-Ah, com certeza. – respondi em ironia.

-Não, acho que talvez Romeu caia bem pra você.

-Quem sabe…

Na verdade, não tinha nem idéia do que vestir para ir a tal festa, até porque não estava com a menor vontade de ir. Todavia, meus pais já sabiam do evento e eu ficar em casa, tendo sido convidado, só colaboraria com a idéia deles de me acharem um pouco louco por ser mais reservado e ficar a maior parte do tempo fechado no quarto. Eles tinham suas razões, mas acabei por me transformar num adulto saudável, reconheço que por ter me tornado mais flexível e receptivo às pessoas:

-Está pronto, filho?!

-Já desço – respondi ao ouvir minha mãe gritar da escada.

Lá estava eu, à ponta da escada que dava para a sala, trajando preto e ostentando máscara e capa da mesma cor:

-El Zorro! – logo disse, Enrico.

-Si! – respondi com entusiasmo.

-Mas dessa vez terá de deixar seu cavalo de lado, para não chegar atrasado a seu compromisso, guapo. – disse minha mãe, fazendo gracejo.

-Si, madre.

-E o pressente? – questionou ela.

-Aqui, mãe.

-Ah, sua mãe também insistiu pra isso? – interferiu Enrico.

-Foi.

-Minha mãe também. Disse que não tinha nada a ver mais isso de levar presente. Afinal, sem a gente não tem festa, não é mesmo?

-Não, Enrico. Eu e sua mãe estamos certas. Educação não é coisa antiga, não. – disse minha mãe, com seriedade.

-Tudo bem. Mas, então, o que comprou, Gab?

-Um livro de fotos sobre o mar. E você?

-Um game de computador.

-Muito bem, meninos. Vou chamar o Carlos para levá-los ao hotel.

Enrico aproveitou a saída de minha mãe, para lançar uma de suas piadas:

-Então, Zorro. Vai aproveitar a ocasião para disputar sua dama na espada?

-Não. A dama vai vir a mim por si mesma.

Enrico riu-se:

-Assim fácil, quero ver.

-E você, atrás de muito ouro, pirata perna de pau?

-Não, vou procurar alguma dama para embarcar no meu navio.

-Boa tirada.

Hotel Schneider, em festa, sinônimo de grande organização e exclusividade para os convidados da única neta do proprietário, ou seja, Isadora. Ela fizera a festa como um presente ao namorado em celebração não somente de seu aniversário como pelos quase dois anos de relacionamento e parceria. Sim, os dois levavam a sério seus eventos, como verdadeiros profissionais de relações públicas trabalhando em benefício da própria imagem.

Por sorte, não tivera ouvido os conselhos de Enrico, já que o aniversariante Edu aparecera como o mancebo Romeu e Isadora como Julieta, a jovem da família rival. Fiquei aliviado por ter dado preferência à inspiração nos heróis das novelas de cavalaria:

-Zorro, Zorro foi bem pensado, camarada – assentiu Enrico, ao descermos do elevador.

A cobertura estava restrita à lista de Isadora, sendo adultos apenas os responsáveis pelo bufê e alguns seguranças, impostos pela família Schneider e pelos pais de Edu. Queriam evitar desentendimentos de jovens de comportamento típico da idade, garantindo o bem estar dos seus.

-Boa noite, garotos. Obrigada por virem.

-Oi, Isadora. Tudo bem? Seu presente, Edu. – logo, cumprimentei o aniversariante – Espero que curta.

-Ele vai curtir, Gab. – disse Isadora, polida.

-Olha o meu Edu. Tenho certeza que vai gostar. Ah, é um game. – disse Enrico, sem muitas mesuras.

-Obrigado – agradeceu de forma cortês o Romeu da noite – Aproveitem a festa. O som está bem bacana.

-Bacana? Espero que esteja bom. – riu-se, Enrico – Brincadeira, cara. Valeu!

Prontamente, ao passarmos a recepção, vieram garçons nos servir de refrigerante e algum salgado. O serviço era esmerado, como se esperava de uma festa organizada pela dupla de líderes do colégio. Ainda que o tema da festividade já tivesse sido apresentado outras vezes, as pessoas pareciam ver tudo com ares de novidade. As festas desse tempo ficaram marcadas em nossas memórias, de uma maneira ou de outra, pelo excesso de brilhos a ser disputado ou pequenez perante os valores reais a serem descobertos um pouco mais tarde.

-Viu a Alice por aí?

-Não, mas deve estar pra chegar com o Deco. Os outros integrantes do “trio de ouro” já chegaram. Ainda falta um mosqueteiro para completar a alegoria.

-Pelo menos seguem uma lógica – concluí.

-Certo, pode ser. Só espero que não cacem meu tesouro, primeiro.

-Não são piratas como você. Mas de agir. Olha quem vem chegando.

-Camarada, acho que vou relembrar os velhos tempos de Rico e Celle.

-Celle?

-É, eu e a Marcelle. Falei do nosso lance, não falei?

-Mais ou menos.

-Depois eu te falo.

-Já disse isso. Mas eu espero para ouvir mais uma de suas histórias.

-Histórias? – disse ele, contrafeito – Quer ver só? Celle!

Sem demorar, Marcelle procurou a voz de Enrico, virando o rosto para onde estávamos. Depois, baixou os olhos e ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

-Fala aí. História?

-Ponto pra você – respondi.

Entretanto, Enrico parecia não estar com muita sorte, pois quando fez menção de cumprimentar as odaliscas Marcelle e Flavinha, as garotas acenaram para Renan e Neto e foram ao encontro dos mesmos.

Meu amigo disfarçou a tristeza repentina e foi se misturar a um grupo maior que e concentrava já na pista de dança, agitando-se sem vergonha nenhuma de seu exagero rítmico.

Eu, por minha vez, fui até o banheiro para tirar um pouco a máscara a cobrir meus olhos e refrescar-me com água fria. Vestir-me de preto e aproveitar a capa e a máscara usada numa festa de família no ano anterior não havia sido uma boa idéia para o clima quente a imperar àquela noite.

Ao sair do banheiro, encontrei a mais bela mulher da Grécia e por que não, da História do Mundo:

-Helena?

-El Zorro – riu-se, Alice.

-É…

-Eu também…Quer dizer, você acertou. Vim de Helena de Tróia.

-Perfeita – pensei alto.

-O que?

-A festa. Está ótima – tentei disfarçar.

-Não nos falamos mais?

-Os trabalhos do colégio.

-Realmente, isso está tomando nosso tempo.

-E o André?

-O Deco?

-Isso.

-Ele está com os outros mosqueteiros desde que chegamos. Depois, vou lá com eles – disse ela, um tanto desanimada.

-E a Matemática? – questionei-a, referindo-me à matéria quase que numa personificação da mesma.

-Eu e ela nos encontramos, agora. O Deco que anda meio perdido com isso…

-Sei, sei.

-Ah, mas não vamos falar disso agora. E quer saber, gostei muito da sua fantasia.

Devo ter ficado um pouco corado, apresentando um sorriso de lábios cerrados.

-Obrigado.

-Só está faltando uma coisa, señor.

-O que?

-Zorro se apresenta de bigode e um cavanhaque.

Alice abriu uma pequena bolsa a qual carregava no braço e tirou um lápis preto desses de maquiagem e deu-me bigode e cavanhaque.

-Assim está melhor – Alice disse-me, sorrindo.

-Obrigado, princesa – beijei-lhe o rosto.

-Por nada.

Deco acenou com seus companheiros:

-Acho que o seu…O Deco está te chamando, ali.

-Obrigada. Depois nos falamos.

Helena delicadamente inclinou a cabeça e partiu.

(Continua)

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2 pensamentos sobre “Clube 15 – Parte V

  1. Gabi disse:

    Estou acompanhando David!!!
    Mto Boaaaa… não demore para postar mais!!!!

    BjinhoSSSS
    Saudadesss

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