Clube 15 – Parte IV

Parte IV

 

Quinze anos não é a idade certa para se apaixonar. Não somos maduros o suficiente para lidar com a confusão de sentimentos que passa a existir dentro de nós ao mesmo tempo. O fato de ser correspondido ou não acaba ficando igual apenas em teoria, pois decepções são decepções sempre e quando este momento acontece na adolescência as coisas tendem a ser maiores que são, de fato, e fazemos de um evento isolado um grande acontecimento.

A semana de aulas havia demorado a passar e embora ainda cumprimentado por muitos, acabava respondendo com ares de timidez novamente e apenas erguia as sobrancelhas como correspondência aos acenos de Alice. Não havíamos mais tido conversas nem sobre Matemática. Enrico vinha com piadas novas ou histórias hilárias às quais eu não conseguia ver graça e apostava até mesmo para as aulas de literatura terminarem rápido – fato raro para um leitor assíduo e admirador dos poetas como eu – para que pudesse chegar em casa, deitar-me na cama e ficar olhando para o teto tentando desviar meus pensamentos óbvios, ou seja, Alice com seu companheiro de beijos mais demorados que o meu.

-Gabriel.

-Oi, mãe – ergui o rosto, achando minha mãe à porta do quarto.

-O jantar está na mesa.

-Já vou. Um minuto.

-Não demore.

-Está bem. Vou guardar estes livros na mochila e já desço.

-Hoje é sexta-feira, Gabriel. Deixe para amanhã.

De repente, um fio de alegria passou dentro de mim. Ao menos, por dois dias, não veria aqueles rostos conhecidos. De pronto, levantei-me da cama e desci para a sala de jantar.

As janelas de meu quarto permaneceram fechadas, pois a luz do sol parecia-me ter tonalidade viva demais para quem tinha sensação de desmoronar por dentro. De que adiantava o céu colorir-se de matizes amarelo e laranja se meu dia era cinza, quase sem cor. E mantinha um pensamento dramático, como não fora meu desejo inicial. Quisera enfrentar a situação com força moral, sem transbordamentos daquela mistura de cólera e receios advindos da paixão, todavia sem êxito.

Voltava a permanecer quase o dia todo no quarto, trocando apenas as palavras necessárias com meus pais. E se perguntavam o porquê daquilo, respondia que sempre fora daquele jeito, que não se preocupassem. Recordo-me de terem sugerido uma consulta psicológica ao final do almoço de domingo, o que me chateara um pouco mais. Pensei: Psicólogo? Para que? Meu problema não era para médicos. Até que me dei conta de que psicólogos não se formavam em Medicina e sim os psiquiatras. E então minha mente adolescente passou a questionar-se de uma eventual loucura. Não, não me considerava louco. Estava tornando-me um cara bacana, apenas tinha poucos amigos ou um, de pouco tempo.

-Fala, Gab! Beleza? – apareceu Enrico, à porta de meu quarto.

-Entra, Enrico. Estou lendo, mas pode ficar aí se quiser.

-Valeu, hein? Vejo que estamos animados! Fala aí, seu pai cortou a mesada?

-Mesada? Não.

-Então, qual é? Brigaram com você por alguma coisa?

-Não. Até porque quase não conversei com eles esses dias.

-Até porque não conversou com quase ninguém nem na escola.

-Como se você não soubesse o porquê?

-Alice e André?

Fiz cara de obviedade, com um riso sem graça.

-Calma, já te falei…Isso é agora, daqui a pouco já foi. E depois, vai dizer que ainda está com esse amor todo pela garota.

Não respondi.

-Acho que sim, não é? Então…

-Falaram de psicólogo, hoje.

-Quem? Seus pais?

-Foi.

-Ah, normal. É só a gente agir de um modo diferente e pronto, precisamos de psicólogo. Já passei por isso.

-E?

-Sabe que foi bom. Conversamos e tal.

-Conversaram?

-É. Por que? Está achando que vão te dar um tratamento à base de choque, é isso? – e riu-se – Nada a ver. Você vai lá, conversa. Até que eu gostei quando fui. Bem, ainda vou de vez em quando.

-Por que?

-Começou há uns dois anos quando meus pais se separaram. Acharam que com a orientação de um profissional eu fosse aceitar melhor minha nova realidade, foi o que disseram. E deu certo. Não teve aquele terrorismo todo que acontece muitas vezes.

-Então eu devo ir?

-Pode ser. Mas fica na boa. Se sentir necessidade mesmo, você vai concordar com seus pais se insistirem na idéia. Mas, você mesmo disse que foi só uma sugestão.

-Sim. Não vão me obrigar. E quer saber, me tragam a Alice e tudo está resolvido.

-Vai vendo.

-Hã?

-Não rola isso de marcar sua vida na da garota. Acho que você tem que tentar, mas se não der certo…Paciência.

-Valeu, parceiro! Sábio conselho! – disse, ironizando.

-Conselho não. Só uma idéia. E cara, você está é muito parado por pouca coisa. Já olhou para as outras garotas do instituto?

-Falou o conquistador.

-Eu sou um atleta em fase de descanso. Só isso. Daqui a pouco, apareço de novo.

-Sei.

-Vamos correr?

-Não.

-Vou ficar insistindo. E você está muito gordo pra ficar aqui parado.

Eu devia estar abaixo do peso, na realidade. Mas…

-Se eu disser que não, você vai embora? – perguntei, com voz firme.

-Não. – disse num fôlego só.

-Vamos correr – assenti.

Minha mãe mostrou-se contente ao me ver saindo de casa e meu pai, até colocou o jornal de lado enquanto eu descia as escadas:

-Vai sair, Gabriel?

-Vamos correr na pista do colégio.

-Ótimo. Muito bom vocês se exercitarem.

 -Está vendo, Gab – reforçou Enrico – Seu pai sabe das coisas.

Meu pai riu, cena difícil de se presenciar.

Correr foi a melhor saída para aquele dia. Na verdade, pouco havia mudado em meus sentimentos, ou nada, para ser mais verdadeiro. Minhas pernas resistiram a um bom tempo de corrida, sem descanso ou intervalos para goles de água, como Enrico. Não conversávamos durante a corrida, para poupar fôlego e não desconcentrar, como dizia Enrico buscando ser sério em seus treinamentos físicos. O suor escorria de meu rosto e minha boca passou a ficar seca nos últimos minutos. Meu coração batia descompassado e o fato de não falar, permitiu-me permanecer isolado, de certo modo. E disse ser corrida a melhor saída, por cansar o corpo e fazê-lo parar enquanto não conseguia deixar a alma em paz.

-Gabriel! – era o som da voz de Enrico, ao longe.

Foi a última coisa que ouvi ao estancar o passo e cair com a cara no chão, literalmente. Quase um metro e setenta de humanidade atravessando o caminho dos corredores.

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o rosto de André:

-E aí, cara? Está bem?

-Estou, eu acho.

-Toma aqui, é água – entregou-me um copo descartável.

-Obrigado – sorvia aos poucos o líquido, ainda com sensação de moleza no corpo.

-Fala camarada, está melhor? Você assustou a gente. Também, depois de correr disparado daquele jeito, só podia. Você não comeu bem hoje, não foi?

-É… – tentava responder.

-Espera o cara acordar direito, Enrico. Deixa de ser…Deixa pra lá. Seguinte Gabriel, a senhora aqui da enfermaria mediu sua pressão e está normal. Deve ter sido uma daquelas quedas de glicose, sabe? Mas talvez seja melhor ir ao médico, depois.

-Não – sentei-me – Já estou bem. Foi isso mesmo, queda de glicose. Já tive isso antes. É que não estou acostumado a correr assim.

-Beleza, então. Qualquer coisa, eu estou lá na quadra. Tem jogo agora, mas não demora.

-Valeu, André. Obrigado. – e tinha de agradecer.

André saiu da enfermaria, fazendo um sinal de positivo com o polegar, ao qual correspondi com o mesmo gesto.

Enrico riu, apesar da situação constrangedora:

-Aí, o camarada deu uma força. Você não é tão leve como parece não. Eu e ele te carregamos pra cá.

-Valeu. Acabei exagerando.

-Com certeza. Agora, você come alguma coisa e depois direto para casa, descansar.

-É isso. E ficar com uma dívida de gratidão com você e o André.

-Comigo não. Sabe que amigo é pra isso, ajudar quando precisa. E acho que com o Deco também não. Apesar das nossas diferenças, ele não é mau.

-É, só namora a Alice.

-Detalhes tão pequenos…

-Pequenos?

-Vai, Gab! Anime-se!

Passamos na cantina para que eu ingerisse um pouco de carboidrato e fomos para casa. Enrico tentou me distrair com suas histórias e jogamos um tempo no computador.

Antes de pegar no sono, rememorei as cenas do dia e tentei separar as atitudes das pessoas de meus interesses. Foi quando pensei sobre não cultivar raiva por quem nem sequer tinha culpa de meu insucesso amoroso. O que fazer se eu gostava de Alice que, por sua vez, gostava de André. Coisas poderiam ser mudadas, pessoas não.

 

Insone por você

 

Se ainda faz parte de meu pensamento?

Sim, não posso negar

Nada dura para sempre,

Mas demora a acabar ou morrer dentro de nós

Não posso obrigar-te a ficar comigo

Não é direito nem tese a se comprovar

É a minha cabeça trabalhando,

Insistindo em soltar frases, com sentido só para mim

É essa dor a me consumir

Querendo partir sem ter para onde

E ficando como opção racional

A vida não me deixa escolha para ser feliz

É provável que passe a maioria de meus dias, assim

Sem saber o que fazer como decisão acertada

Sem saber o que dizer, a coisa certa para te conquistar

Sem saber você, querer tirar-te do mundo

Apenas para esquecer, esquecer de que existiu um dia

E que te percebi, do nada

Com olhos úmidos e sem querer chorar

Com a boca fechada, calando aquilo que não é correspondido.

 

E por mais ambíguo que pareça, acabei adormecendo logo após dar um primeiro título a mais algumas palavras as quais chamei poesia. Percebi isso, na manhã seguinte, ao despertar e ver-me com o caderno de rascunhos ao lado e ainda com uma caneta entre os dedos de minha destra.

A semana subseqüente seria um teste pessoal de paciência e cordialidade. Passava a conviver mais, sem saber como agir em determinadas situações. Como ler frases malfeitas de uma redação e não ter como passar a limpo o rascunho, era mais ou menos assim que me sentia ao ter de enfrentar mais uma semana de aulas vendo Alice e André juntos. Por mais que eu tentasse ser racional, era difícil manter um comportamento indiferente para não me ferir e não causar problemas a quem nada tinha a ver com meus anseios ou idéia fixa.

Flashes de memória de um sentimento que deveria ser apagado, definitivamente. Aquele adolescente não estava mais suportando aquele estado o qual não se explicava e parecia tomar-lhe como uma dor física sem sintomas claros como cicatrizes ou manchas micóticas.

Lavei o rosto com água fria duas ou três vezes, apoiei a mochila sobre os ombros e encarei a realidade. Cinco dias em situações-limite, nos corredores do colégio.

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