Clube 15 – Parte III (cont.)

Parte III (cont.)

Em pouco tempo desfez-se qualquer tentativa de tornar aquele momento apenas feliz, até porque tudo deve ter seus dois lados sempre, como muito se ouve falar e acaba por comprovar-se, em fatos, de modo melancólico e doloroso. Levantei-me de pronto, a encarar com olhos vivos tal realidade. A questão é que não possuía tantas pistas para resolver o enigma Alice, como acabei escrevendo no caderno de rascunhos guardado no criado-mudo ao lado da cama. Só não chorei por não ter coragem suficiente para assumir a complexidade de meus sentimentos àquele tempo.

Naquele mesmo dia não jantei e fui dormir cedo. Ao menos, foi o que disse a meus pais. Na verdade, passei a noite inteira virando de um lado a outro da cama sem conseguir adormecer por um só minuto, teimando em sofrer por antecipação a esperar as coisas acontecerem para que eu pudesse ter motivos para desistir da garota de vez ou acreditar em um universo a conspirar a meu favor.

 Levantei-me mais cedo que de costume, na manhã seguinte, tomei um banho demorado e coloquei o uniforme antes de descer e sentar-me à mesa do café. A fome acumulada resultou em dois copos de iogurte em cinco minutos e um sanduíche com queijo e mais uma fatia do bolo de chocolate que sobrara na geladeira. Finalmente, consegui alimentar-me, por decidir não fazer de uma circunstância particular um drama. Se bem que apenas hoje eu consigo observar a situação numa visão mais madura.

-Falei que deveria ter jantado, Gabriel – repreendeu-me minha mãe.

 -Deixa, Lídia. Está com fome, agora. Talvez ontem não tivesse apetite.

  -Expliquei pai, estava um pouco indisposto. Só isso.

  -Está certo. Mas é melhor comer um pouco mais devagar, para não ficar indisposto hoje, de novo – continuou meu pai.

   -Não vou ficar. Desculpem por ontem.

   -Se passou mal, como disse, não há por que se desculpar – concluiu ele.

    Baixei os olhos e levantei-me da mesa, calado.

   -Gabriel?

    -Fala, pai.

     -Algum problema?

     -Não. Por quê?

      -Não está com cara de quem teve uma noite tranqüila de sono.

      -Na verdade, não dormi – expliquei-me.

      -Essas olheiras não te deixam mentir, meu filho – interferiu minha mãe.

      -Na volta do colégio, desconto o sono. Já vou indo.

 Tratei de ir logo para o colégio, antes de ter de dar maiores explicações para minha insônia repentina. Pensei que com as aulas, na Santa Marta, não haveria tempo de dramatizar ainda mais a situação passada, até que Enrico, sem cerimônias, tocasse no assunto na hora do intervalo:

 -Fala, Gab! – veio ele, na empolgação de sempre.

  -Fala, Enrico. Algo de novo?

  -Nada, Gab. As aulas de sempre, os mesmos professores. Está certo! Uma novidade: o cabelo do professor Paulo começou a crescer. Fala sério, cinco fios espalhados bem no meio da testa – riu-se, sem mesuras.

Confesso que também ri só de imaginar aquele senhor tão sério falando de vetores e movimentos uniformemente variados durante as aulas de Física, chamando a atenção mais para os seus cabelos que para o conteúdo específico de sua matéria.

E tentava passar a não ligar mais quando reduziam meu nome para simplesmente Gab. Até porque poderiam cansar uma hora e eu voltaria a ser o Gabriel de sempre, menos cumprimentado pelos colegas e de volta com meu nome.

 -Bom falar antes mesmo, para eu não rir quando ver isso.

  -Se prepara, camarada. Mas e então, a Alice apareceu para devolver mais alguma pulseira pra você?

  -Não, não tem mais nada pra ela me devolver, agora. Foi só a pulseira, mesmo. Mas se quer saber, ela esteve em casa, ontem.

   -Para…?

   -Aulas de matemática, eu acho.

   -Matemática? Bem que falou que era bom com os números!

   -Não fala.

   -Por que? Se for de um matemático que ela precisa, seja um Pitágoras na vida dela.

   -Não. Acontece que ela chegou do nada no meu quarto…

   -Ela chegou no seu quarto e…

   -Se me deixar falar.

   -Está certo, não interrompo mais.

  -Eu fiz besteira. Primeiro, fui meio sem jeito, perguntando como tinha entrado sem que ninguém me avisasse e depois…

  -Depois?

  -Depois pedi desculpas pela falta de educação, mas ela disse que achava melhor ir embora e…E eu a beijei.

   -Que?! Fala sério, Gab! Você é bem mais rápido do que eu pensava, hein? E ainda se faz de tímido, não fala nada.

   -Ela foi embora e nem sei o que dizer hoje.

   -É, nem sei o que dizer. Mas se ela te correspondeu.

 -Corresponder a uma coisa tão rápida. Acho que foi só o tempo de eu impedi-la de partir e o que aconteceu foi, sei lá, dois segundos.

  -É, precisa melhorar esse tempo – e riu-se, bem à vontade.

Fechei o tempo como se diz, apresentando um semblante nada alegre. Como poder rir depois do que acabara de contar? Deveria ser mais humano, pensei naquele tempo, e hoje percebo que rir fora a atitude apropriada para a situação. Um péssimo tempo e consumição desnecessária:

-Não leve à mal. Não vou dizer que não foi engraçado porque foi. Mas quer saber, que tenha durado dois segundos…Se ela aceitou tem mais é que ficar feliz.

-E o que faço agora?

-Talvez tente de novo, no fim das aulas quem sabe.

O sinal tocou e tivemos de voltar às aulas.

 -Fim das aulas, vai lá. Fala com ela.

 -Vou tentar, falou?

 Enrico fez sinal de positivo e voltamos para nossas salas de aula.

Nunca esperei tanto para que logo passassem aqueles minutos finais de estudo e pudesse fazer o que me enchera de coragem para, ou seja, começar eu mesmo uma conversa com Alice e quem sabe, ganhasse algum gesto de afeto como retribuição pelas minhas belas palavras, ditas num só fôlego.

Procurei guardar logo os livros na mochila e ser rápido descendo pelas escadas, passando pelo corredor:

-Aonde vai, mocinho? – interveio a inspetora.

-Embora, acabaram as aulas por hoje.

-Sim, moço. Mas penso que poderia ser mais educado de sua parte, caminhar normalmente, pelas dependências do instituto – continuava ela, atrasando meu intento.

-Desculpe. Preciso ir – preparava-me para sair.

 -Sim. Espero ter entendido. Depois, pode acabar esbarrando em alguém e causando um acidente.

 -Desculpe. Tchau! – ajeitei a mochila nos ombros e finalmente, consegui passar pela última porta.

 Alice estava com André, o Deco. Beijaram-se, demoradamente, e ela partiu. Certo que antes ela pôde me ver ali, parado à calçada, observando a cena e esmorecendo por dentro. Minha única paga do dia, um olhar furivo.

Percebi quando Marcelle e Flavinha saíram e fizeram-se contentes pelo que viram. Alice ficava com Deco e abria portas para suas investidas com Renan e Neto, uma trama perfeita para fortalecer-lhes imagem e status, nada condenável para adolescentes de então.

 E a minha história abria as portas para marcar momentos de êxtase para os outros personagens, enquanto eu mesmo não via como dar cores mais vivas a minhas partes dos episódios:

 

            Hoje meu mundo caiu

            E embora tenha roubado esta frase de alguém.

            Assim é que me sinto

            Faltam palavras bonitas, bons momentos

            para esquecer-me disso e relembrar,

            de tentar estar próximo dos poetas

           Se eu escrevo é por insistência de minhas mãos

           a se aproximarem do papel sem que eu queira

            Últimos versos:

           Queria eu não ter notado sua presença

           E minha noite de sono seria mais tranqüila.

Fechei o caderno, guardei na gaveta do criado mudo e deitei-me, com os olhos úmidos e sem querer chorar.

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