Clube 15 – Parte III

Parte III

 

O rei absoluto de uma nação, esse muitas vezes é no íntimo o desejo da maioria das pessoas a viver numa sociedade capitalista, onde as pessoas são muito mais o que aparentam do que são realmente. É o modo como mostram seus cabelos ou as roupas que usam e, principalmente, as pessoas com quem andam. Até me recordo de um dito popular que se encerra na seguinte sentença: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Porém, eu queria descobrir por mim mesmo, na prática, como funcionava essa teoria, dentro de um contexto adolescente, repleto de clichês vendidos barato nas películas e mídia a segmentar-se no público dos doze aos dezenove anos de idade.

Rapidamente, havia chegado a semana de aulas, com o fim do meu domingo mágico, em que até fada tinha recebido em meu quarto. O que mais queria era chegar logo ao Instituto Santa Marta e encará-la, de novo, para ver se tudo de que me lembrava havia acontecido de verdade e convencer os demais dessa minha realidade:

-Fala sério, Gab! Ela apareceu assim do nada? – indagou-me Enrico na entrada do colégio.

-Não, Enrico. Acho que tocou a campainha, não?

-Você está ficando muito engraçado, cara. Fala aí, ficou sem palavras quando a Alice apareceu?

-Olá. Ah, já está com a pulseira. Fiz bem de levá-la ontem, antes de começar a semana de aulas?

-É, é…Obrigado, Alice.

-Não precisa agradecer de novo. Vou entrando…Vocês já vêm?

Enrico deixou sua pasta cair no chão, aberta:

-Daqui a pouco, acho que vou ter que recolher meus documentos, senhorita.

-Está bem, senhor – Alice riu baixinho e despediu-se com um gesto rápido de adeus com uma das mãos.

-Até! – simplesmente disse eu.

-Aha! Sem palavras, pensei certo sobre você.

-Foi, Enrico. Na verdade, quase sem palavras. Tentei ser…

-…Normal? Não venha com essa. Todo mundo é normal. E é normal até ficar assim diante dela. Não que eu queira competir com você na disputa. A garota é sua.

-Valeu, hein?

-Não, é sério. Prometo te ajudar.

-E a pasta?

-Todos documentos salvos, sócio – disse ele com ar de ironia.

-Deixou cair de propósito?

-O que a gente não faz pelos amigos?

-Amigos?

-Amigos, não? Achei que quisesse tomar fôlego antes de vê-la lá dentro.

-Pode ser.

-Então, amigos?

-Com certeza – e estabelecemos um cumprimento.

Curioso como, às vezes, uma simples diferença de salas no colégio, acaba por privar-nos de conhecer ótimas pessoas para darmos início a uma amizade e como o “alguém especial” de quem muitos falam aparecem num momento inesperado. Foi exatamente o que pensei naquele início de manhã ao entrar em minha sala e ver Enrico e Alice entrando na sala ao lado. E pensei ser pena eu não ter nenhuma justificativa para pedir transferência para a outra turma, contentando-me em esperar o segundo ano chegar para que talvez ficássemos na mesma turma, Alice e eu.

Em minha turma estava parte do elenco do trio de ouro, André, o Deco como todos o chamavam. Ele entrou seguido de mim na sala de aula, e para minha surpresa, fomos cumprimentados igualmente pelos demais. Até mesmo, alguns ocupantes das carteiras mais distantes ergueram seus polegares em sinal de cumprimento a mim, de longe. Resultado óbvio, de ter aparecido na festa do hotel ao lado da mais popular do colégio. Se Alice cumprimentava Gabriel, por que não o fazer? Ainda que ele tivesse seu modo reservado, passara a conviver com a elite do primeiro ano do ensino médio do Santa Marta. Devem ter pensado assim.

As aulas transcorreram como de costume e tive uma sensação estranha da segunda para a terceira aula, quando Alice saiu de sua sala e Deco foi ao seu encontro, com aquele sorriso metálico que tive vontade de entortar sem precisar de um alicate para isso. Como a personagem dos meus contos poderia esquecer-se de mim tão facilmente para conversar com um desconhecido de meus livros. Não planejara tê-lo como personagem de minha história. Apenas fitei-a com os olhos, percebendo não ter em nada mudado seus sorrisos mais à vontade derramados sobre o menor dos integrantes do “trio de ouro”. Em estatura, ficávamos à altura um do outro. Então, se duelo houvesse não estaria em desvantagem. Pensei em levantar-me no mesmo instante e acabar logo com aquilo, mas logo entrou a senhora da matemática e impediu meu intento. Ao menos, cada qual voltou para seu território e me concentrei nos números para não me valer de meus anseios e ter de narrar tão cedo uma cena de combate.

Foram minutos longos entre os números e letras da lousa e o do compêndio de exercícios presentes no livro para que treinássemos nosso raciocínio lógico. A professora havia passado matéria nova e resolver os exercícios seria a melhor forma de tirar, posteriormente, nossas dúvidas. Foi o que fiz até a hora do intervalo:

-E aí, boa aula de Matemática? – perguntou Enrico.

-Sou bom com números, já disse. Mas, hoje a matéria nova foi meio complicada, concordo.

-Nem fala, porque hoje ainda tenho mais duas aulas com ela depois do intervalo. Seus exercícios devem ficar para amanhã só.

-Quarta, para falar a verdade.

-Está vendo, depois não se acha um cara de sorte.

-Sorte? Olha ali – apontei Alice e Deco, juntos em frente à cantina.

-Ah, amigos. Não pode ser?

-É, pode ser ou não.

-Quer saber, você não devia se preocupar tanto com isso. Primeiro, a garota vem falar com você na festa e depois vai a sua casa devolver a pulseira que perdeu. Ela poderia ter deixado a Isadora ou o Edu fazerem isso.

-Pode ser.

-Pode ser, não. É. Alguma coisa ela deve estar querendo.

-O que ainda não sabemos.

-Por enquanto. Olha lá, a Marcelle e a Flavinha vêm chegando…Olá, garotas! – disse Enrico, num tom animado.

-Oi, Gab – disseram juntas, as garotas.

-Oi.

-E então, gostou da festa? – continuou Flavinha.

-Gostei. Estava bem legal.

-Estava mesmo. Você deveria ir mais vezes nas festas da Isa e do Edu, eles são ótimos nessas organizações.

Flavinha prosseguia no assunto, enquanto Marcelle fazia expressões de concordância, abria sorrisos leves, de lábios fechados. Não passamos mais o que dois ou três minutos na conversa, até ouvirmos o barulho do sinal e as garotas dizerem algo sobre um livro a buscar na biblioteca. Não lançaram nenhum olhar mais direto a Enrico ou lhe dirigiram a palavra.

-Viu isso?

-O que, Enrico?

-Agora você é o cara, mesmo. Nem disseram um “oi” pra mim.

-Não sei…Talvez… – eu não sabia, realmente, o que dizer.

-Você sabe. Não sou mais um dos colegas mais próximos do “trio de ouro” como você chama os camaradas. E depois, você teve a atenção da Alice, o que conta muito.

-Que besteira!

-Bem-vindo!

-Puxa! Mas não foi você que falou que eu não ligasse para isso?

Dessa vez foi Enrico a ficar sem palavras, me olhando embasbacado. Resolvi mudar de assunto e acabamos por dar boas risadas quando me lembrei dos tombos que levei quando comecei a andar de patins na rua de casa e acabei com dor de cotovelo, literalmente, após uma das quedas.

Voltamos do intervalo para o segundo tempo das aulas, eu para uma maratona de testes de química no laboratório e Enrico para a dobradinha de matemática. Nada mal para uma segunda feira, ficar entre tubos de ensaio no fim do dia de aula a ficar na sala de aula, apesar da frieza do ambiente laboratorial.

Não tive tanto tempo para alimentar aquela sensação estranha ao ter visto Alice e Deco juntos, afinal tinha de concentrar-me nos estudos, como de costume.

Voltei do colégio faminto, acabando por repetir o prato principal e servindo-me de duas fatias generosas de bolo de chocolate de sobremesa. Certo ter sentido um certo desconforto físico no meio da tarde ao terminar de fazer os exercícios de Matemática, sentado à escrivaninha do quarto, mas nada que não passasse com uma boa limonada sem açúcar em poucos minutos.

-Oi, Gabriel. Tudo bem?

-Oi, Alice. Quem abriu pra você?

-Sua mãe. Ela disse que eu podia subir, que você estava fazendo uns exercícios do colégio. Desculpe.

-Minha mãe? Claro! Desculpe o mau jeito.

-Eu acho que não devia ter vindo.

-Não. Eu é que…

-Volto depois.

-Não…

Lembro-me apenas de meu coração batendo forte e de eu ter, praticamente, parado de respirar naquele instante. Segurei a mão de Alice impedindo-a de partir e beijei-lhe os lábios. Um beijo pudico, não planejado, quase que apenas um toque de mãos inocente:

-Matemática. Pode me ajudar?

Quebrou-se o encanto de minhas ilusões. Não pude dizer nada, apenas ouvir:

-Depois nos falamos. Desculpa. – Alice levou a mão delicadamente a seus lábios fechados e partiu.

Eu a vi partir, sem conseguir ir ao seu encontro após o ocorrido. Caí na cama como um tolo e fiquei olhado para o teto por instantes:

-Gabriel.

-Oi, mãe.

-Algum problema? A garota foi embora tão rápido.

-Ah, é que – não podia lhe contar a verdade – ela estava atrasada. Inglês, para o curso de Inglês.

-Ela me pareceu um pouco estranha, mal se despediu.

Encolhi os ombros, como quem não tem resposta para um questionamento.

-Está certo. Vê se sai um pouco desse quarto, Gabriel.

-Vou sair, mãe. Vou sair – e sorria sem porquê.

Posteriormente ao êxtase, pensei alto:

-Matemática? Isso, então ela queria isso comigo, eu acho…É isso! Como eu fui tolo!

Anúncios

Um pensamento sobre “Clube 15 – Parte III

  1. kiki disse:

    David!

    To adorando sua história! rsrs
    bjus e escreve mais rsrs

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s