Clube 15 – Parte V (cont.)

Parte V (cont.)

(…)

-Fala, Gab! Como foi? – veio Enrico, palrador.

-O que? – perguntei, sem saber do que falava.

-O beijo, oras. Eu vi lá da pista.

-Um beijo no rosto?

-Progressos. Faz uma semana que não se falam. Uma amiga, mais tarde, pode…

-…Pode?

-Pode – confirmou ele, rindo-se.

Os convidados não paravam de chegar, até que todas as mesas do ambiente apresentaram-se todas ocupadas e podia se ver muitos dançando animados ao som das músicas da moda de então. Eu, ainda um pouco desajeitado, integrei-me ao grupo arriscando alguns movimentos na pista. Aos poucos, conseguia interagir sem tantos receios ou timidez.

Flavinha e Marcelle não cansavam de manter aqueles sorrisos não muito naturais ao lado do trio de ouro e de Alice. Aliás, a bela Helena se mostrava a mais natural naquela representação juvenil.

-Não cansa de olhar para ela?

-Não, Enrico.

-Puxa, Gab! Tanta garota legal por aqui e você só tem olhos pra Alice.

-Helena.

-Aí enlouqueceu de vez.

-Não, seu amigo está bem.

-Valeu, pelo “amigo”. E por isso mesmo que te falo, vai curtir mais. Esquece um pouco sua Helena.

-Vou tentar. Estou aqui na festa, dançando…Estou melhorando nisso.

-Ponto pra você – concluiu ele.

Quando parei para descansar um pouco e sentei-me para comer alguma coisa e tomar uma água, percebi Flavinha e Renan juntos, mais próximos. E na mesa seguinte, Marcelle e Marcelo Augusto, o Neto.

-Aí, garotinho. Foi só eu me ambientar melhor e as coisas aconteceram. A Mulher-Gato está me esperando lá fora?

-Que?

-Calma, é só a Marcinha da sua sala, em noite de vilania.

-Então, achou alguém para embarcar no seu navio?

-Acho que sim. A gente se vê por aqui perto da hora de ir embora.

-Tudo bem. Vai lá, perna-de-pau – fiz troça.

Notei quando Enrico olhou para Marcelle e Neto, antes de ir ao encontro de sua vilã.

 

Enfim, estava sozinho naquela mesa, vendo Alice ao longe com o dono de beijos mais demorados que o meu, sorvendo um copo de água e marcando o ritmo ao tamborilar os dedos.

Edu parecia animado com sua festa, distribuindo sorrisos e andando pelo salão com Isadora para conversar um pouco com cada convidado, portando-se como exímios anfitriões. Talvez aproveitássemos mais a festa do que eles, naquela necessidade de agradar a maioria.

A festa era tão grandiosa que parecia que todos deveriam sair ganhando, tanto que em determinado momento tivemos de preencher umas fichas, indicando a melhor fantasia, a qual acabei por não completar.

Conversei com outros colegas, passei novamente pela pista e fui pego de surpresa quando anunciaram os mais bem trajados da noite:

-Eu e o Edu, agradecemos a presença de todos vocês e queria aproveitar para desejar o melhor para o meu namorado, o Edu, neste aniversário. E vamos à escolha de vocês. 

-Obrigado, Isa. E obrigado a vocês por virem – completou Edu, sorridente.

Todos aplaudiram como se fosse a entrega de um grande prêmio, como um Oscar americano.

-E a escolha de vocês vai para Gabriel e Alice, por Zorro e Helena de Tróia.

Alice soltou a mão de Deco e veio o meu encontro.

-Acertei no seu cavanhaque – riu-se ela, entrelaçando o seu braço ao meu.

-E o que a gente faz agora?

-Sorria e agradeça.

Subimos ao palco, ao som do aplauso dos convidados e Alice tomou a iniciativa de ir ao microfone e agradecer, primeiro:

-Obrigada a todos por nos elegerem. Mas todo mérito vai pra esses grandes personagens, Helena e Zorro, não é isso, Gab?

-É isso. Obrigado.

Eis que em meio à multidão, quando já me preparava para sair, começou Enrico:

-Beija, beija!

E o pior, para maior constrangimento, a maioria decidiu por acompanhá-lo. Alice, sem perder seu brilho e atenta ao semblante pesado que se marcava em Deco, próximo ao palco, beijou-me o rosto, num gesto delicado e bem pensado.

Após o lance quase fantástico, descemos do palco e tive de voltar à realidade, vendo Alice voltar aos braços de André.

-Mandou bem, garoto! Acho que conviver comigo está te fazendo bem.

-E a Mulher-Gato?

-Teve de ir embora. Mas foi bom enquanto durou – sorria Enrico.

-A sua cara já está dizendo.

-E você?

-Perdi Helena para Tróia de vez.

-Nunca se sabe.

A festa continuou com os acontecimentos de sempre, entrada do bolo, parabéns, doces como sobremesa e as despedidas finais.

A mãe de Enrico foi buscar-nos no Hotel Schneider à hora marcada e acabei entrando na madrugada de sábado para domingo com a luz da luminária do criado-mudo acesa, terminando mais um de meus poemas:

 

Helena

Hoje viajei sem sair do lugar

E encontrei a fada dos contos em minha realidade,

Dessa vez como a mais bela de todos os tempos

Inspirando poetas e ofuscando as outras flores,

Helena foi única esta noite

E desfrutar seu ar foi mais que voltar no tempo em segundos

Fiz parte da História, em anacronismo

E dei-me a permissão de ao menos sonhar

És objeto de meu sonho

Sem harpas, trajar toga ou quebrar pratos,

fui às ruínas e dei a meus olhos a chance

de ver a melhor filha da terra de Zeus

E tomei a mão da princesa sem fazer reverências

E fui feliz, sem ter de mostrar os dentes

Cavaleiro apeia de seu cavalo

E sai das sombras da noite

Para dar lugar à luz dos sonhos.

 

Dei nome ao meu delírio em tinta e papel e adormeci tranqüilo, sem pensar muito para ter como lembrança a melhor imagem de minha noite.

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Clube 15 – Parte V

Parte V

 

Em poucas semanas, minha vida dera de me pregar muitas peças. Sim, porque se apaixonar, lidar com os próprios sentimentos já se faz complicado, então se tudo isso vem acompanhado de mais um competidor com armadura melhor elaborada, o quadro ganha seus agravantes. Ainda mais grave é quando o objeto de seu desejo tem um status de popularidade a ser mantido e os conceitos de estar “na onda” ou não, muda constantemente.

Na semana seguinte já era possível notar a diminuição dos cumprimentos que eu recebia à porta do Santa Marta, obviamente pelas atenções terem se voltado diretamente para o casal dos já populares, Alice e Deco. Se houvesse uma passagem de faixa pela manutenção de líderes do colégio, certamente, a feminina iria para Alice e a masculina para André, deixando para trás a dinastia de Edu e Isadora.

Aliás, após os cinco dias de aula tendo de encarar Alice e André pelos corredores trocando olhares e outras coisas, não poderia ter melhor recompensa que uma festa no fim de semana para colaborar com minha falta de ânimo e impotência perante seres os quais pareciam, realmente, apaixonados. E mais, um amigo insistente:

-Oi, Gab. Sou eu, o Rico.

-Fala, Enrico. Beleza? – respondi ao alô do outro lado da linha.

-Tudo bem. E aí…?

-Não.

-Não o que? Espere que eu termine de falar.

-Vai, continua.

-Então, vamos pra festa de aniversário do Edu?

-Não.

-Está certo, então vai perder uma festa à fantasia no Hotel Schneider?

-Festa à fantasia ainda. O pessoal poderia ser mais autêntico, não?

-Está certo, digamos que seja mais uma festa à fantasia lá no hotel do avô da Isadora, mas em qual delas você foi?

-Nenhuma?

-É, nem precisa se mostrar em dúvida. Se você for, vai ser só a segunda festa no hotel em que você aparece.

-Está certo, eu vou lá e fico aplaudindo o casal do ano?

-Está vendo só como fala. Você que acaba colocando empecilho em tudo. Por isso é que…

-Não, fala.

-…Por isso é que não tem tantos amigos.

Fiquei em silêncio, afinal não havia o que dizer diante de uma análise direta e certa, de qualquer modo.

-Gabriel?

-Fala – disse eu, num tom mais baixo de voz.

-Está aí?

-Estou.

-Então, vai de Pitágoras? – disse Enrico, aos risos.

-Ah, com certeza. – respondi em ironia.

-Não, acho que talvez Romeu caia bem pra você.

-Quem sabe…

Na verdade, não tinha nem idéia do que vestir para ir a tal festa, até porque não estava com a menor vontade de ir. Todavia, meus pais já sabiam do evento e eu ficar em casa, tendo sido convidado, só colaboraria com a idéia deles de me acharem um pouco louco por ser mais reservado e ficar a maior parte do tempo fechado no quarto. Eles tinham suas razões, mas acabei por me transformar num adulto saudável, reconheço que por ter me tornado mais flexível e receptivo às pessoas:

-Está pronto, filho?!

-Já desço – respondi ao ouvir minha mãe gritar da escada.

Lá estava eu, à ponta da escada que dava para a sala, trajando preto e ostentando máscara e capa da mesma cor:

-El Zorro! – logo disse, Enrico.

-Si! – respondi com entusiasmo.

-Mas dessa vez terá de deixar seu cavalo de lado, para não chegar atrasado a seu compromisso, guapo. – disse minha mãe, fazendo gracejo.

-Si, madre.

-E o pressente? – questionou ela.

-Aqui, mãe.

-Ah, sua mãe também insistiu pra isso? – interferiu Enrico.

-Foi.

-Minha mãe também. Disse que não tinha nada a ver mais isso de levar presente. Afinal, sem a gente não tem festa, não é mesmo?

-Não, Enrico. Eu e sua mãe estamos certas. Educação não é coisa antiga, não. – disse minha mãe, com seriedade.

-Tudo bem. Mas, então, o que comprou, Gab?

-Um livro de fotos sobre o mar. E você?

-Um game de computador.

-Muito bem, meninos. Vou chamar o Carlos para levá-los ao hotel.

Enrico aproveitou a saída de minha mãe, para lançar uma de suas piadas:

-Então, Zorro. Vai aproveitar a ocasião para disputar sua dama na espada?

-Não. A dama vai vir a mim por si mesma.

Enrico riu-se:

-Assim fácil, quero ver.

-E você, atrás de muito ouro, pirata perna de pau?

-Não, vou procurar alguma dama para embarcar no meu navio.

-Boa tirada.

Hotel Schneider, em festa, sinônimo de grande organização e exclusividade para os convidados da única neta do proprietário, ou seja, Isadora. Ela fizera a festa como um presente ao namorado em celebração não somente de seu aniversário como pelos quase dois anos de relacionamento e parceria. Sim, os dois levavam a sério seus eventos, como verdadeiros profissionais de relações públicas trabalhando em benefício da própria imagem.

Por sorte, não tivera ouvido os conselhos de Enrico, já que o aniversariante Edu aparecera como o mancebo Romeu e Isadora como Julieta, a jovem da família rival. Fiquei aliviado por ter dado preferência à inspiração nos heróis das novelas de cavalaria:

-Zorro, Zorro foi bem pensado, camarada – assentiu Enrico, ao descermos do elevador.

A cobertura estava restrita à lista de Isadora, sendo adultos apenas os responsáveis pelo bufê e alguns seguranças, impostos pela família Schneider e pelos pais de Edu. Queriam evitar desentendimentos de jovens de comportamento típico da idade, garantindo o bem estar dos seus.

-Boa noite, garotos. Obrigada por virem.

-Oi, Isadora. Tudo bem? Seu presente, Edu. – logo, cumprimentei o aniversariante – Espero que curta.

-Ele vai curtir, Gab. – disse Isadora, polida.

-Olha o meu Edu. Tenho certeza que vai gostar. Ah, é um game. – disse Enrico, sem muitas mesuras.

-Obrigado – agradeceu de forma cortês o Romeu da noite – Aproveitem a festa. O som está bem bacana.

-Bacana? Espero que esteja bom. – riu-se, Enrico – Brincadeira, cara. Valeu!

Prontamente, ao passarmos a recepção, vieram garçons nos servir de refrigerante e algum salgado. O serviço era esmerado, como se esperava de uma festa organizada pela dupla de líderes do colégio. Ainda que o tema da festividade já tivesse sido apresentado outras vezes, as pessoas pareciam ver tudo com ares de novidade. As festas desse tempo ficaram marcadas em nossas memórias, de uma maneira ou de outra, pelo excesso de brilhos a ser disputado ou pequenez perante os valores reais a serem descobertos um pouco mais tarde.

-Viu a Alice por aí?

-Não, mas deve estar pra chegar com o Deco. Os outros integrantes do “trio de ouro” já chegaram. Ainda falta um mosqueteiro para completar a alegoria.

-Pelo menos seguem uma lógica – concluí.

-Certo, pode ser. Só espero que não cacem meu tesouro, primeiro.

-Não são piratas como você. Mas de agir. Olha quem vem chegando.

-Camarada, acho que vou relembrar os velhos tempos de Rico e Celle.

-Celle?

-É, eu e a Marcelle. Falei do nosso lance, não falei?

-Mais ou menos.

-Depois eu te falo.

-Já disse isso. Mas eu espero para ouvir mais uma de suas histórias.

-Histórias? – disse ele, contrafeito – Quer ver só? Celle!

Sem demorar, Marcelle procurou a voz de Enrico, virando o rosto para onde estávamos. Depois, baixou os olhos e ajeitou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

-Fala aí. História?

-Ponto pra você – respondi.

Entretanto, Enrico parecia não estar com muita sorte, pois quando fez menção de cumprimentar as odaliscas Marcelle e Flavinha, as garotas acenaram para Renan e Neto e foram ao encontro dos mesmos.

Meu amigo disfarçou a tristeza repentina e foi se misturar a um grupo maior que e concentrava já na pista de dança, agitando-se sem vergonha nenhuma de seu exagero rítmico.

Eu, por minha vez, fui até o banheiro para tirar um pouco a máscara a cobrir meus olhos e refrescar-me com água fria. Vestir-me de preto e aproveitar a capa e a máscara usada numa festa de família no ano anterior não havia sido uma boa idéia para o clima quente a imperar àquela noite.

Ao sair do banheiro, encontrei a mais bela mulher da Grécia e por que não, da História do Mundo:

-Helena?

-El Zorro – riu-se, Alice.

-É…

-Eu também…Quer dizer, você acertou. Vim de Helena de Tróia.

-Perfeita – pensei alto.

-O que?

-A festa. Está ótima – tentei disfarçar.

-Não nos falamos mais?

-Os trabalhos do colégio.

-Realmente, isso está tomando nosso tempo.

-E o André?

-O Deco?

-Isso.

-Ele está com os outros mosqueteiros desde que chegamos. Depois, vou lá com eles – disse ela, um tanto desanimada.

-E a Matemática? – questionei-a, referindo-me à matéria quase que numa personificação da mesma.

-Eu e ela nos encontramos, agora. O Deco que anda meio perdido com isso…

-Sei, sei.

-Ah, mas não vamos falar disso agora. E quer saber, gostei muito da sua fantasia.

Devo ter ficado um pouco corado, apresentando um sorriso de lábios cerrados.

-Obrigado.

-Só está faltando uma coisa, señor.

-O que?

-Zorro se apresenta de bigode e um cavanhaque.

Alice abriu uma pequena bolsa a qual carregava no braço e tirou um lápis preto desses de maquiagem e deu-me bigode e cavanhaque.

-Assim está melhor – Alice disse-me, sorrindo.

-Obrigado, princesa – beijei-lhe o rosto.

-Por nada.

Deco acenou com seus companheiros:

-Acho que o seu…O Deco está te chamando, ali.

-Obrigada. Depois nos falamos.

Helena delicadamente inclinou a cabeça e partiu.

(Continua)

Clube 15 – Parte IV

Parte IV

 

Quinze anos não é a idade certa para se apaixonar. Não somos maduros o suficiente para lidar com a confusão de sentimentos que passa a existir dentro de nós ao mesmo tempo. O fato de ser correspondido ou não acaba ficando igual apenas em teoria, pois decepções são decepções sempre e quando este momento acontece na adolescência as coisas tendem a ser maiores que são, de fato, e fazemos de um evento isolado um grande acontecimento.

A semana de aulas havia demorado a passar e embora ainda cumprimentado por muitos, acabava respondendo com ares de timidez novamente e apenas erguia as sobrancelhas como correspondência aos acenos de Alice. Não havíamos mais tido conversas nem sobre Matemática. Enrico vinha com piadas novas ou histórias hilárias às quais eu não conseguia ver graça e apostava até mesmo para as aulas de literatura terminarem rápido – fato raro para um leitor assíduo e admirador dos poetas como eu – para que pudesse chegar em casa, deitar-me na cama e ficar olhando para o teto tentando desviar meus pensamentos óbvios, ou seja, Alice com seu companheiro de beijos mais demorados que o meu.

-Gabriel.

-Oi, mãe – ergui o rosto, achando minha mãe à porta do quarto.

-O jantar está na mesa.

-Já vou. Um minuto.

-Não demore.

-Está bem. Vou guardar estes livros na mochila e já desço.

-Hoje é sexta-feira, Gabriel. Deixe para amanhã.

De repente, um fio de alegria passou dentro de mim. Ao menos, por dois dias, não veria aqueles rostos conhecidos. De pronto, levantei-me da cama e desci para a sala de jantar.

As janelas de meu quarto permaneceram fechadas, pois a luz do sol parecia-me ter tonalidade viva demais para quem tinha sensação de desmoronar por dentro. De que adiantava o céu colorir-se de matizes amarelo e laranja se meu dia era cinza, quase sem cor. E mantinha um pensamento dramático, como não fora meu desejo inicial. Quisera enfrentar a situação com força moral, sem transbordamentos daquela mistura de cólera e receios advindos da paixão, todavia sem êxito.

Voltava a permanecer quase o dia todo no quarto, trocando apenas as palavras necessárias com meus pais. E se perguntavam o porquê daquilo, respondia que sempre fora daquele jeito, que não se preocupassem. Recordo-me de terem sugerido uma consulta psicológica ao final do almoço de domingo, o que me chateara um pouco mais. Pensei: Psicólogo? Para que? Meu problema não era para médicos. Até que me dei conta de que psicólogos não se formavam em Medicina e sim os psiquiatras. E então minha mente adolescente passou a questionar-se de uma eventual loucura. Não, não me considerava louco. Estava tornando-me um cara bacana, apenas tinha poucos amigos ou um, de pouco tempo.

-Fala, Gab! Beleza? – apareceu Enrico, à porta de meu quarto.

-Entra, Enrico. Estou lendo, mas pode ficar aí se quiser.

-Valeu, hein? Vejo que estamos animados! Fala aí, seu pai cortou a mesada?

-Mesada? Não.

-Então, qual é? Brigaram com você por alguma coisa?

-Não. Até porque quase não conversei com eles esses dias.

-Até porque não conversou com quase ninguém nem na escola.

-Como se você não soubesse o porquê?

-Alice e André?

Fiz cara de obviedade, com um riso sem graça.

-Calma, já te falei…Isso é agora, daqui a pouco já foi. E depois, vai dizer que ainda está com esse amor todo pela garota.

Não respondi.

-Acho que sim, não é? Então…

-Falaram de psicólogo, hoje.

-Quem? Seus pais?

-Foi.

-Ah, normal. É só a gente agir de um modo diferente e pronto, precisamos de psicólogo. Já passei por isso.

-E?

-Sabe que foi bom. Conversamos e tal.

-Conversaram?

-É. Por que? Está achando que vão te dar um tratamento à base de choque, é isso? – e riu-se – Nada a ver. Você vai lá, conversa. Até que eu gostei quando fui. Bem, ainda vou de vez em quando.

-Por que?

-Começou há uns dois anos quando meus pais se separaram. Acharam que com a orientação de um profissional eu fosse aceitar melhor minha nova realidade, foi o que disseram. E deu certo. Não teve aquele terrorismo todo que acontece muitas vezes.

-Então eu devo ir?

-Pode ser. Mas fica na boa. Se sentir necessidade mesmo, você vai concordar com seus pais se insistirem na idéia. Mas, você mesmo disse que foi só uma sugestão.

-Sim. Não vão me obrigar. E quer saber, me tragam a Alice e tudo está resolvido.

-Vai vendo.

-Hã?

-Não rola isso de marcar sua vida na da garota. Acho que você tem que tentar, mas se não der certo…Paciência.

-Valeu, parceiro! Sábio conselho! – disse, ironizando.

-Conselho não. Só uma idéia. E cara, você está é muito parado por pouca coisa. Já olhou para as outras garotas do instituto?

-Falou o conquistador.

-Eu sou um atleta em fase de descanso. Só isso. Daqui a pouco, apareço de novo.

-Sei.

-Vamos correr?

-Não.

-Vou ficar insistindo. E você está muito gordo pra ficar aqui parado.

Eu devia estar abaixo do peso, na realidade. Mas…

-Se eu disser que não, você vai embora? – perguntei, com voz firme.

-Não. – disse num fôlego só.

-Vamos correr – assenti.

Minha mãe mostrou-se contente ao me ver saindo de casa e meu pai, até colocou o jornal de lado enquanto eu descia as escadas:

-Vai sair, Gabriel?

-Vamos correr na pista do colégio.

-Ótimo. Muito bom vocês se exercitarem.

 -Está vendo, Gab – reforçou Enrico – Seu pai sabe das coisas.

Meu pai riu, cena difícil de se presenciar.

Correr foi a melhor saída para aquele dia. Na verdade, pouco havia mudado em meus sentimentos, ou nada, para ser mais verdadeiro. Minhas pernas resistiram a um bom tempo de corrida, sem descanso ou intervalos para goles de água, como Enrico. Não conversávamos durante a corrida, para poupar fôlego e não desconcentrar, como dizia Enrico buscando ser sério em seus treinamentos físicos. O suor escorria de meu rosto e minha boca passou a ficar seca nos últimos minutos. Meu coração batia descompassado e o fato de não falar, permitiu-me permanecer isolado, de certo modo. E disse ser corrida a melhor saída, por cansar o corpo e fazê-lo parar enquanto não conseguia deixar a alma em paz.

-Gabriel! – era o som da voz de Enrico, ao longe.

Foi a última coisa que ouvi ao estancar o passo e cair com a cara no chão, literalmente. Quase um metro e setenta de humanidade atravessando o caminho dos corredores.

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o rosto de André:

-E aí, cara? Está bem?

-Estou, eu acho.

-Toma aqui, é água – entregou-me um copo descartável.

-Obrigado – sorvia aos poucos o líquido, ainda com sensação de moleza no corpo.

-Fala camarada, está melhor? Você assustou a gente. Também, depois de correr disparado daquele jeito, só podia. Você não comeu bem hoje, não foi?

-É… – tentava responder.

-Espera o cara acordar direito, Enrico. Deixa de ser…Deixa pra lá. Seguinte Gabriel, a senhora aqui da enfermaria mediu sua pressão e está normal. Deve ter sido uma daquelas quedas de glicose, sabe? Mas talvez seja melhor ir ao médico, depois.

-Não – sentei-me – Já estou bem. Foi isso mesmo, queda de glicose. Já tive isso antes. É que não estou acostumado a correr assim.

-Beleza, então. Qualquer coisa, eu estou lá na quadra. Tem jogo agora, mas não demora.

-Valeu, André. Obrigado. – e tinha de agradecer.

André saiu da enfermaria, fazendo um sinal de positivo com o polegar, ao qual correspondi com o mesmo gesto.

Enrico riu, apesar da situação constrangedora:

-Aí, o camarada deu uma força. Você não é tão leve como parece não. Eu e ele te carregamos pra cá.

-Valeu. Acabei exagerando.

-Com certeza. Agora, você come alguma coisa e depois direto para casa, descansar.

-É isso. E ficar com uma dívida de gratidão com você e o André.

-Comigo não. Sabe que amigo é pra isso, ajudar quando precisa. E acho que com o Deco também não. Apesar das nossas diferenças, ele não é mau.

-É, só namora a Alice.

-Detalhes tão pequenos…

-Pequenos?

-Vai, Gab! Anime-se!

Passamos na cantina para que eu ingerisse um pouco de carboidrato e fomos para casa. Enrico tentou me distrair com suas histórias e jogamos um tempo no computador.

Antes de pegar no sono, rememorei as cenas do dia e tentei separar as atitudes das pessoas de meus interesses. Foi quando pensei sobre não cultivar raiva por quem nem sequer tinha culpa de meu insucesso amoroso. O que fazer se eu gostava de Alice que, por sua vez, gostava de André. Coisas poderiam ser mudadas, pessoas não.

 

Insone por você

 

Se ainda faz parte de meu pensamento?

Sim, não posso negar

Nada dura para sempre,

Mas demora a acabar ou morrer dentro de nós

Não posso obrigar-te a ficar comigo

Não é direito nem tese a se comprovar

É a minha cabeça trabalhando,

Insistindo em soltar frases, com sentido só para mim

É essa dor a me consumir

Querendo partir sem ter para onde

E ficando como opção racional

A vida não me deixa escolha para ser feliz

É provável que passe a maioria de meus dias, assim

Sem saber o que fazer como decisão acertada

Sem saber o que dizer, a coisa certa para te conquistar

Sem saber você, querer tirar-te do mundo

Apenas para esquecer, esquecer de que existiu um dia

E que te percebi, do nada

Com olhos úmidos e sem querer chorar

Com a boca fechada, calando aquilo que não é correspondido.

 

E por mais ambíguo que pareça, acabei adormecendo logo após dar um primeiro título a mais algumas palavras as quais chamei poesia. Percebi isso, na manhã seguinte, ao despertar e ver-me com o caderno de rascunhos ao lado e ainda com uma caneta entre os dedos de minha destra.

A semana subseqüente seria um teste pessoal de paciência e cordialidade. Passava a conviver mais, sem saber como agir em determinadas situações. Como ler frases malfeitas de uma redação e não ter como passar a limpo o rascunho, era mais ou menos assim que me sentia ao ter de enfrentar mais uma semana de aulas vendo Alice e André juntos. Por mais que eu tentasse ser racional, era difícil manter um comportamento indiferente para não me ferir e não causar problemas a quem nada tinha a ver com meus anseios ou idéia fixa.

Flashes de memória de um sentimento que deveria ser apagado, definitivamente. Aquele adolescente não estava mais suportando aquele estado o qual não se explicava e parecia tomar-lhe como uma dor física sem sintomas claros como cicatrizes ou manchas micóticas.

Lavei o rosto com água fria duas ou três vezes, apoiei a mochila sobre os ombros e encarei a realidade. Cinco dias em situações-limite, nos corredores do colégio.

Clube 15 – Parte III (cont.)

Parte III (cont.)

Em pouco tempo desfez-se qualquer tentativa de tornar aquele momento apenas feliz, até porque tudo deve ter seus dois lados sempre, como muito se ouve falar e acaba por comprovar-se, em fatos, de modo melancólico e doloroso. Levantei-me de pronto, a encarar com olhos vivos tal realidade. A questão é que não possuía tantas pistas para resolver o enigma Alice, como acabei escrevendo no caderno de rascunhos guardado no criado-mudo ao lado da cama. Só não chorei por não ter coragem suficiente para assumir a complexidade de meus sentimentos àquele tempo.

Naquele mesmo dia não jantei e fui dormir cedo. Ao menos, foi o que disse a meus pais. Na verdade, passei a noite inteira virando de um lado a outro da cama sem conseguir adormecer por um só minuto, teimando em sofrer por antecipação a esperar as coisas acontecerem para que eu pudesse ter motivos para desistir da garota de vez ou acreditar em um universo a conspirar a meu favor.

 Levantei-me mais cedo que de costume, na manhã seguinte, tomei um banho demorado e coloquei o uniforme antes de descer e sentar-me à mesa do café. A fome acumulada resultou em dois copos de iogurte em cinco minutos e um sanduíche com queijo e mais uma fatia do bolo de chocolate que sobrara na geladeira. Finalmente, consegui alimentar-me, por decidir não fazer de uma circunstância particular um drama. Se bem que apenas hoje eu consigo observar a situação numa visão mais madura.

-Falei que deveria ter jantado, Gabriel – repreendeu-me minha mãe.

 -Deixa, Lídia. Está com fome, agora. Talvez ontem não tivesse apetite.

  -Expliquei pai, estava um pouco indisposto. Só isso.

  -Está certo. Mas é melhor comer um pouco mais devagar, para não ficar indisposto hoje, de novo – continuou meu pai.

   -Não vou ficar. Desculpem por ontem.

   -Se passou mal, como disse, não há por que se desculpar – concluiu ele.

    Baixei os olhos e levantei-me da mesa, calado.

   -Gabriel?

    -Fala, pai.

     -Algum problema?

     -Não. Por quê?

      -Não está com cara de quem teve uma noite tranqüila de sono.

      -Na verdade, não dormi – expliquei-me.

      -Essas olheiras não te deixam mentir, meu filho – interferiu minha mãe.

      -Na volta do colégio, desconto o sono. Já vou indo.

 Tratei de ir logo para o colégio, antes de ter de dar maiores explicações para minha insônia repentina. Pensei que com as aulas, na Santa Marta, não haveria tempo de dramatizar ainda mais a situação passada, até que Enrico, sem cerimônias, tocasse no assunto na hora do intervalo:

 -Fala, Gab! – veio ele, na empolgação de sempre.

  -Fala, Enrico. Algo de novo?

  -Nada, Gab. As aulas de sempre, os mesmos professores. Está certo! Uma novidade: o cabelo do professor Paulo começou a crescer. Fala sério, cinco fios espalhados bem no meio da testa – riu-se, sem mesuras.

Confesso que também ri só de imaginar aquele senhor tão sério falando de vetores e movimentos uniformemente variados durante as aulas de Física, chamando a atenção mais para os seus cabelos que para o conteúdo específico de sua matéria.

E tentava passar a não ligar mais quando reduziam meu nome para simplesmente Gab. Até porque poderiam cansar uma hora e eu voltaria a ser o Gabriel de sempre, menos cumprimentado pelos colegas e de volta com meu nome.

 -Bom falar antes mesmo, para eu não rir quando ver isso.

  -Se prepara, camarada. Mas e então, a Alice apareceu para devolver mais alguma pulseira pra você?

  -Não, não tem mais nada pra ela me devolver, agora. Foi só a pulseira, mesmo. Mas se quer saber, ela esteve em casa, ontem.

   -Para…?

   -Aulas de matemática, eu acho.

   -Matemática? Bem que falou que era bom com os números!

   -Não fala.

   -Por que? Se for de um matemático que ela precisa, seja um Pitágoras na vida dela.

   -Não. Acontece que ela chegou do nada no meu quarto…

   -Ela chegou no seu quarto e…

   -Se me deixar falar.

   -Está certo, não interrompo mais.

  -Eu fiz besteira. Primeiro, fui meio sem jeito, perguntando como tinha entrado sem que ninguém me avisasse e depois…

  -Depois?

  -Depois pedi desculpas pela falta de educação, mas ela disse que achava melhor ir embora e…E eu a beijei.

   -Que?! Fala sério, Gab! Você é bem mais rápido do que eu pensava, hein? E ainda se faz de tímido, não fala nada.

   -Ela foi embora e nem sei o que dizer hoje.

   -É, nem sei o que dizer. Mas se ela te correspondeu.

 -Corresponder a uma coisa tão rápida. Acho que foi só o tempo de eu impedi-la de partir e o que aconteceu foi, sei lá, dois segundos.

  -É, precisa melhorar esse tempo – e riu-se, bem à vontade.

Fechei o tempo como se diz, apresentando um semblante nada alegre. Como poder rir depois do que acabara de contar? Deveria ser mais humano, pensei naquele tempo, e hoje percebo que rir fora a atitude apropriada para a situação. Um péssimo tempo e consumição desnecessária:

-Não leve à mal. Não vou dizer que não foi engraçado porque foi. Mas quer saber, que tenha durado dois segundos…Se ela aceitou tem mais é que ficar feliz.

-E o que faço agora?

-Talvez tente de novo, no fim das aulas quem sabe.

O sinal tocou e tivemos de voltar às aulas.

 -Fim das aulas, vai lá. Fala com ela.

 -Vou tentar, falou?

 Enrico fez sinal de positivo e voltamos para nossas salas de aula.

Nunca esperei tanto para que logo passassem aqueles minutos finais de estudo e pudesse fazer o que me enchera de coragem para, ou seja, começar eu mesmo uma conversa com Alice e quem sabe, ganhasse algum gesto de afeto como retribuição pelas minhas belas palavras, ditas num só fôlego.

Procurei guardar logo os livros na mochila e ser rápido descendo pelas escadas, passando pelo corredor:

-Aonde vai, mocinho? – interveio a inspetora.

-Embora, acabaram as aulas por hoje.

-Sim, moço. Mas penso que poderia ser mais educado de sua parte, caminhar normalmente, pelas dependências do instituto – continuava ela, atrasando meu intento.

-Desculpe. Preciso ir – preparava-me para sair.

 -Sim. Espero ter entendido. Depois, pode acabar esbarrando em alguém e causando um acidente.

 -Desculpe. Tchau! – ajeitei a mochila nos ombros e finalmente, consegui passar pela última porta.

 Alice estava com André, o Deco. Beijaram-se, demoradamente, e ela partiu. Certo que antes ela pôde me ver ali, parado à calçada, observando a cena e esmorecendo por dentro. Minha única paga do dia, um olhar furivo.

Percebi quando Marcelle e Flavinha saíram e fizeram-se contentes pelo que viram. Alice ficava com Deco e abria portas para suas investidas com Renan e Neto, uma trama perfeita para fortalecer-lhes imagem e status, nada condenável para adolescentes de então.

 E a minha história abria as portas para marcar momentos de êxtase para os outros personagens, enquanto eu mesmo não via como dar cores mais vivas a minhas partes dos episódios:

 

            Hoje meu mundo caiu

            E embora tenha roubado esta frase de alguém.

            Assim é que me sinto

            Faltam palavras bonitas, bons momentos

            para esquecer-me disso e relembrar,

            de tentar estar próximo dos poetas

           Se eu escrevo é por insistência de minhas mãos

           a se aproximarem do papel sem que eu queira

            Últimos versos:

           Queria eu não ter notado sua presença

           E minha noite de sono seria mais tranqüila.

Fechei o caderno, guardei na gaveta do criado mudo e deitei-me, com os olhos úmidos e sem querer chorar.

Clube 15 – Parte III

Parte III

 

O rei absoluto de uma nação, esse muitas vezes é no íntimo o desejo da maioria das pessoas a viver numa sociedade capitalista, onde as pessoas são muito mais o que aparentam do que são realmente. É o modo como mostram seus cabelos ou as roupas que usam e, principalmente, as pessoas com quem andam. Até me recordo de um dito popular que se encerra na seguinte sentença: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Porém, eu queria descobrir por mim mesmo, na prática, como funcionava essa teoria, dentro de um contexto adolescente, repleto de clichês vendidos barato nas películas e mídia a segmentar-se no público dos doze aos dezenove anos de idade.

Rapidamente, havia chegado a semana de aulas, com o fim do meu domingo mágico, em que até fada tinha recebido em meu quarto. O que mais queria era chegar logo ao Instituto Santa Marta e encará-la, de novo, para ver se tudo de que me lembrava havia acontecido de verdade e convencer os demais dessa minha realidade:

-Fala sério, Gab! Ela apareceu assim do nada? – indagou-me Enrico na entrada do colégio.

-Não, Enrico. Acho que tocou a campainha, não?

-Você está ficando muito engraçado, cara. Fala aí, ficou sem palavras quando a Alice apareceu?

-Olá. Ah, já está com a pulseira. Fiz bem de levá-la ontem, antes de começar a semana de aulas?

-É, é…Obrigado, Alice.

-Não precisa agradecer de novo. Vou entrando…Vocês já vêm?

Enrico deixou sua pasta cair no chão, aberta:

-Daqui a pouco, acho que vou ter que recolher meus documentos, senhorita.

-Está bem, senhor – Alice riu baixinho e despediu-se com um gesto rápido de adeus com uma das mãos.

-Até! – simplesmente disse eu.

-Aha! Sem palavras, pensei certo sobre você.

-Foi, Enrico. Na verdade, quase sem palavras. Tentei ser…

-…Normal? Não venha com essa. Todo mundo é normal. E é normal até ficar assim diante dela. Não que eu queira competir com você na disputa. A garota é sua.

-Valeu, hein?

-Não, é sério. Prometo te ajudar.

-E a pasta?

-Todos documentos salvos, sócio – disse ele com ar de ironia.

-Deixou cair de propósito?

-O que a gente não faz pelos amigos?

-Amigos?

-Amigos, não? Achei que quisesse tomar fôlego antes de vê-la lá dentro.

-Pode ser.

-Então, amigos?

-Com certeza – e estabelecemos um cumprimento.

Curioso como, às vezes, uma simples diferença de salas no colégio, acaba por privar-nos de conhecer ótimas pessoas para darmos início a uma amizade e como o “alguém especial” de quem muitos falam aparecem num momento inesperado. Foi exatamente o que pensei naquele início de manhã ao entrar em minha sala e ver Enrico e Alice entrando na sala ao lado. E pensei ser pena eu não ter nenhuma justificativa para pedir transferência para a outra turma, contentando-me em esperar o segundo ano chegar para que talvez ficássemos na mesma turma, Alice e eu.

Em minha turma estava parte do elenco do trio de ouro, André, o Deco como todos o chamavam. Ele entrou seguido de mim na sala de aula, e para minha surpresa, fomos cumprimentados igualmente pelos demais. Até mesmo, alguns ocupantes das carteiras mais distantes ergueram seus polegares em sinal de cumprimento a mim, de longe. Resultado óbvio, de ter aparecido na festa do hotel ao lado da mais popular do colégio. Se Alice cumprimentava Gabriel, por que não o fazer? Ainda que ele tivesse seu modo reservado, passara a conviver com a elite do primeiro ano do ensino médio do Santa Marta. Devem ter pensado assim.

As aulas transcorreram como de costume e tive uma sensação estranha da segunda para a terceira aula, quando Alice saiu de sua sala e Deco foi ao seu encontro, com aquele sorriso metálico que tive vontade de entortar sem precisar de um alicate para isso. Como a personagem dos meus contos poderia esquecer-se de mim tão facilmente para conversar com um desconhecido de meus livros. Não planejara tê-lo como personagem de minha história. Apenas fitei-a com os olhos, percebendo não ter em nada mudado seus sorrisos mais à vontade derramados sobre o menor dos integrantes do “trio de ouro”. Em estatura, ficávamos à altura um do outro. Então, se duelo houvesse não estaria em desvantagem. Pensei em levantar-me no mesmo instante e acabar logo com aquilo, mas logo entrou a senhora da matemática e impediu meu intento. Ao menos, cada qual voltou para seu território e me concentrei nos números para não me valer de meus anseios e ter de narrar tão cedo uma cena de combate.

Foram minutos longos entre os números e letras da lousa e o do compêndio de exercícios presentes no livro para que treinássemos nosso raciocínio lógico. A professora havia passado matéria nova e resolver os exercícios seria a melhor forma de tirar, posteriormente, nossas dúvidas. Foi o que fiz até a hora do intervalo:

-E aí, boa aula de Matemática? – perguntou Enrico.

-Sou bom com números, já disse. Mas, hoje a matéria nova foi meio complicada, concordo.

-Nem fala, porque hoje ainda tenho mais duas aulas com ela depois do intervalo. Seus exercícios devem ficar para amanhã só.

-Quarta, para falar a verdade.

-Está vendo, depois não se acha um cara de sorte.

-Sorte? Olha ali – apontei Alice e Deco, juntos em frente à cantina.

-Ah, amigos. Não pode ser?

-É, pode ser ou não.

-Quer saber, você não devia se preocupar tanto com isso. Primeiro, a garota vem falar com você na festa e depois vai a sua casa devolver a pulseira que perdeu. Ela poderia ter deixado a Isadora ou o Edu fazerem isso.

-Pode ser.

-Pode ser, não. É. Alguma coisa ela deve estar querendo.

-O que ainda não sabemos.

-Por enquanto. Olha lá, a Marcelle e a Flavinha vêm chegando…Olá, garotas! – disse Enrico, num tom animado.

-Oi, Gab – disseram juntas, as garotas.

-Oi.

-E então, gostou da festa? – continuou Flavinha.

-Gostei. Estava bem legal.

-Estava mesmo. Você deveria ir mais vezes nas festas da Isa e do Edu, eles são ótimos nessas organizações.

Flavinha prosseguia no assunto, enquanto Marcelle fazia expressões de concordância, abria sorrisos leves, de lábios fechados. Não passamos mais o que dois ou três minutos na conversa, até ouvirmos o barulho do sinal e as garotas dizerem algo sobre um livro a buscar na biblioteca. Não lançaram nenhum olhar mais direto a Enrico ou lhe dirigiram a palavra.

-Viu isso?

-O que, Enrico?

-Agora você é o cara, mesmo. Nem disseram um “oi” pra mim.

-Não sei…Talvez… – eu não sabia, realmente, o que dizer.

-Você sabe. Não sou mais um dos colegas mais próximos do “trio de ouro” como você chama os camaradas. E depois, você teve a atenção da Alice, o que conta muito.

-Que besteira!

-Bem-vindo!

-Puxa! Mas não foi você que falou que eu não ligasse para isso?

Dessa vez foi Enrico a ficar sem palavras, me olhando embasbacado. Resolvi mudar de assunto e acabamos por dar boas risadas quando me lembrei dos tombos que levei quando comecei a andar de patins na rua de casa e acabei com dor de cotovelo, literalmente, após uma das quedas.

Voltamos do intervalo para o segundo tempo das aulas, eu para uma maratona de testes de química no laboratório e Enrico para a dobradinha de matemática. Nada mal para uma segunda feira, ficar entre tubos de ensaio no fim do dia de aula a ficar na sala de aula, apesar da frieza do ambiente laboratorial.

Não tive tanto tempo para alimentar aquela sensação estranha ao ter visto Alice e Deco juntos, afinal tinha de concentrar-me nos estudos, como de costume.

Voltei do colégio faminto, acabando por repetir o prato principal e servindo-me de duas fatias generosas de bolo de chocolate de sobremesa. Certo ter sentido um certo desconforto físico no meio da tarde ao terminar de fazer os exercícios de Matemática, sentado à escrivaninha do quarto, mas nada que não passasse com uma boa limonada sem açúcar em poucos minutos.

-Oi, Gabriel. Tudo bem?

-Oi, Alice. Quem abriu pra você?

-Sua mãe. Ela disse que eu podia subir, que você estava fazendo uns exercícios do colégio. Desculpe.

-Minha mãe? Claro! Desculpe o mau jeito.

-Eu acho que não devia ter vindo.

-Não. Eu é que…

-Volto depois.

-Não…

Lembro-me apenas de meu coração batendo forte e de eu ter, praticamente, parado de respirar naquele instante. Segurei a mão de Alice impedindo-a de partir e beijei-lhe os lábios. Um beijo pudico, não planejado, quase que apenas um toque de mãos inocente:

-Matemática. Pode me ajudar?

Quebrou-se o encanto de minhas ilusões. Não pude dizer nada, apenas ouvir:

-Depois nos falamos. Desculpa. – Alice levou a mão delicadamente a seus lábios fechados e partiu.

Eu a vi partir, sem conseguir ir ao seu encontro após o ocorrido. Caí na cama como um tolo e fiquei olhado para o teto por instantes:

-Gabriel.

-Oi, mãe.

-Algum problema? A garota foi embora tão rápido.

-Ah, é que – não podia lhe contar a verdade – ela estava atrasada. Inglês, para o curso de Inglês.

-Ela me pareceu um pouco estranha, mal se despediu.

Encolhi os ombros, como quem não tem resposta para um questionamento.

-Está certo. Vê se sai um pouco desse quarto, Gabriel.

-Vou sair, mãe. Vou sair – e sorria sem porquê.

Posteriormente ao êxtase, pensei alto:

-Matemática? Isso, então ela queria isso comigo, eu acho…É isso! Como eu fui tolo!