Clube 15 – Parte II (cont.)

Parte II (cont.)

Terminei estas palavras no verso das outras linhas escritas no dia em que me atentei aos atos dissimulados daquela que se tornou figura constante de meus pensamentos e guardei logo o caderno na gaveta do criado-mudo quando de súbito alguém bateu à porta do quarto.

-Gabriel?

-Oi, mãe. Fala.

-Tem uma colega sua aqui, posso mandar entrar?

Lembro de ter feito com a cabeça que não, não estava para receber ninguém, além de ninguém do colégio costumar aparecer sem aviso, ainda mais num domingo. Não houve tempo para dispensar quem fosse:

-Oi, Gab, é…Gabriel.

Aquelas palavras saíram tão levemente sonoras, quase como um sussurro das fadas dos grandes clássicos da literatura infantil. Vesti a camiseta jogada na cama, rapidamente, e levantei-me para cumprimentá-la:

-Oi, Alice – não gaguejei, por ter falado num só fôlego – Desculpa o jeito, é que eu não…

Alice balançou a cabeça, como quem dissesse que não havia problema em eu estar de bermuda, descalço e sem camisa. Preferi continuar como estava, afinal não era nenhum atleta para expor músculos. O fato é que eu era magro, de estatura mediana, sem traços de uma escultura grega.

-Bem, fique à vontade… – disse minha mãe, numa atitude polida.

-…Alice.

-Isso. Fique à vontade, Alice.

Alice agradeceu à minha mãe com um leve sorriso e virou-se para mim, jogando os cabelos num jeito dissimulado:

-Então, Gabriel. Eu vim porque encontrei isso – ela abriu a mão direita e estendeu uma pulseira de prata.

-Minha pulseira. Acho que perdi quando… – até então, não me dera conta de ter perdido a tal pulseira.

-…Quando estava dançando com o Rico no meio do salão. Estava bem animado.

-É, foi isso…Eu, eu…Eu devo ter me distraído e não vi a pulseira cair.

-Acho que sim. Bem, é isso. Está entregue.

Alice ergueu o braço até mim e eu estendi a mão para que me entregasse a pulseira. Aquele gesto de segundos pareceu-me durar uma eternidade, quando senti o calor de sua mão na minha, mesmo que por um breve instante.

-Obrigado.

-Vou indo, então.

-Eu te levo lá embaixo.

-Não, não precisa. Eu sei o caminho. É só descer a escada e sair à direita, certo?

-Certo. Mas não tem problema, eu te levo.

A fada derramou um pouco de sua magia, inclinando de leve a cabeça e esperou que eu calçasse os chinelos postos ao lado da cama, para acompanhar-lhe. Um coadjuvante deveria ser ao menos cortês. Foi o que fiz, fui cortês levando-a até a porta e agradecendo mais uma vez pela gentileza. Fechei a porta e dei de cara com meus pais, me olhando sem dizer nada e com ar dúvida, até que eu disse:

-Ah, a Alice? Uma colega do Santa Marta.

-Sim, tudo bem filho. Muito educado da parte dela vir lhe trazer a pulseira, não achou? – veio minha mãe a dizer, tentando ser natural comigo.

-Ah, claro. Claro.

-Vai, Gabriel. Pode voltar para o computador – disse meu pai, enquanto continuava a ler seu jornal.

-Estou subindo – baixei a cabeça e subi, sem mais palavras.

Minhas palavras se concentraram novamente naquele caderno de rascunhos. Resolvi continuar meu poema:

 

Passam a surgir páginas novas

Talvez um dia me ajude a escrever essas palavras,

e elas passem a ser mais bonitas, por si mesmas

Por representarem uma sensação boa,

de alguém que tem por o que sonhar

Por um toque superficial de mãos

A aproximar-me mais de sua essência.

 

E usei a palavra “essência” para não ser tão piegas ou querer não acreditar na profundidade daquilo que não queria estar certo de estar sentindo, embora meu primeiro impulso tenha sido finalizar aquele verso com “coração”.

Dizer que estava apaixonado por Alice para Enrico fora um risco de virar o assunto do colégio, mas sentia poder confiar nele como um bom amigo, do modo que geralmente as pessoas sentem quando olham alguém nos olhos e percebem a veracidade de suas palavras. A questão é que eu parecia ter ganhado um novo e bom amigo, ao mesmo tempo em que uma das fadas dos contos saía dos livros para entrar em minha vida. Era desse modo que pensava minha mente adolescente, parecendo-me um tanto pueril, agora que puxo tais ocasiões guardadas na memória.

Não é preciso dizer que aquele garoto que eu era encheu-se de expectativas perante a visita de Alice e pensou a noite toda nas cenas passadas, desde os seus furtivos olhares à maneira como falava com suavidade. Virei-me algumas vezes na cama até conseguir adormecer e não pensar mais ou sonhar com aquilo, considerando que não me recordava de meus sonhos.

Ressurgir das cinzas como a fênix, embora não tivesse ficado em evidência por mais do que trinta segundos ao receber algum elogio dos professores por causa das boas notas ou trabalhos de pesquisa realizados.

Atitude – reação ou maneira de ser, em relação às pessoas, um dos significados encontrados para a palavra a guiar-me na semana de aula a se iniciar. Minha atitude mudaria e ganharia novos contornos minha personalidade se eu ainda quisesse ter a esperança de um dia ser colocado ao lado de Alice, como um igual.

Magia e realidade lado a lado, fazendo-me enxergar com clareza o que sentia ou começava a sentir por uma criação minha ou uma bela garota tão somente.

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