Clube 15 – Parte II

Parte II

 

Há momentos na vida em que é difícil segurar algumas coisas que nos incomodam, seja um milho de pipoca preso no dente do fundo bem no meio da sessão do cinema ou aquela mistura de palavras, sentimentos, impossíveis de serem guardados na nossa mente. Sim, porque costumava pensar assim e ainda penso, tudo nasce dentro de nossas cabeças e por isso se arrastam pelo tempo, ao que damos o nome de memória. Lembro de ter me sentido assim, no dia seguinte após a festa no hotel, mas não tinha exemplos para fazer comparações e tirar minhas próprias conclusões a respeito do que se passara entre minha boca ficar seca e eu ficar sem palavras perante Alice. Aliás, palavras não faltavam para Enrico e foi ele a tirar-me do refúgio de meu quarto naquele domingo de manhã:

-Gabriel! Ô, Gabriel! – era a voz que eu ouvia, ao longe, quase sumida.

Infelizmente, meu quarto tinha uma janela a qual dava para a rua e era difícil continuar na cama, se alguém decidisse fazer barulho bem em frente de casa. De segunda à sexta não era incômodo algum, afinal eu ia para o colégio às sete horas, mas despertar com uma orquestra desafinada num domingo, não era coisa que me deixasse contente:

-Droga! Quem é o imbecil que… – abri a janela -…Enrico…

-Hei, desce aí! Nada como uma boa corrida para começar o dia bem, certo?

-Errado. Oh, se quiser alguma coisa, passa à tarde, está bem? – e fechava a janela.

-Ô, Gabriel!

Por fim, esfreguei os olhos para enxergar melhor e o relógio marcava apenas oito da manhã, mas acabei descendo. Quem sabe uma corrida me faria oxigenar melhor o cérebro e tentar ver as coisas de maneira racional, porque escrever algo como um poema não me parecia nada próximo à razão:

-Estou indo. Vou trocar de roupa, falou?!

-Não, desce de pijama! – e ria, bem-disposto – Falou!

Coloquei a primeira camiseta que vi pela frente, uma bermuda, calcei o tênis deixado no canto do armário e desci, ainda com os olhos cansados e sem nem ter tomado um copo de leite ou um prato de cereais:

-Oi, qual a boa pra essa hora da manhã, num domingo?

-Correr, Gabriel! Eu costumo correr todas as manhãs.

-Eu não.

-Então está na hora de começar. E domingo é bom correr por aqui, ainda mais com o colégio a poucas quadras, a pista lá fica liberada.

-Eu sei, a piscina, a quadra…

-E não se anima?!

-Está bem, hoje pode ser. Afinal, eu me despenquei da cama pra que? Não vou ficar sem fazer nada.

-Assim é que se fala.

Na verdade, correr a princípio eu não iria conseguir, estando um tanto “sonado” ainda e sem nada no estômago. Combinamos de caminhar até o colégio e então, começar a correr. Não fazia nem vinte e quatro horas em que estávamos mais próximos, pelas circunstâncias, e conversávamos como velhos amigos. A vida tem dessas, só basta aproveitar o momento para realizar um grande feito ou descobrir ter encontrado um amigo em alguém. Embora não tivesse eu uma admirável habilidade para isso, tentava descobrir a possibilidade de mundos diferentes e pessoais conviverem e, de fato, ganharem com a troca de idéias a se complementarem.

No caminho, conversamos sobre a festa, o incidente no banheiro que acabou sem uma explicação concreta naqueles poucos minutos de bate-papo. Tentei começar a questionar sobre a Alice, como ela agia com os outros, mas nada que eu não soubesse foi dito. Enrico me disse para encarar a garota como as outras, sem exageros e sem julgamentos preconcebidos, o que era difícil para eu abstrair sem muito saber dela e me achar propenso ao que os apresentadores do telejornal haviam dito ter sido considerado, em alguns casos, uma patologia:

-Apaixonado? – disse assim, sem cerimônia e em tom de dúvida.

-O que? Você acha que está apaixonado pela Alice?

Meu rosto deve ter ficado vermelho, na hora, até porque senti as maçãs da face quentes. Olhei timidamente para baixo e disse com falsa naturalidade:

-Quer saber, acho que estou com sono ainda. É, é isso, estou com sono. Vai correndo aí que eu te alcanço.

-Não, espera. Você disse apaixonado, não foi? Acho que escutei bem.

-Falou, Enrico!

-Calma, Gab.

-Gabriel.

-Então, Ga-bri-el, está na boa. Quer saber, normal isso. Eu também já me apaixonei, mas não rolou, sabe, não deu certo.

-Isso é um incentivo?

-Não, pode ser que você conquiste a garota. A Alice até conversou com você na festa. E isso que você nem vai muito às festas do colégio.

-Esquece, isso. Vamos correr.

-Vamos correr, sim. Mas, a gente ainda ajeita esta história.

Corremos, por fim. Era curioso o modo como havíamos nos dado bem, assim do nada. O fato é que ambos precisavam de apoio para seguir: eu, por minha vez aprendia a dar valor a uma amizade e Enrico, passava pela fase em que nos decepcionamos com as pessoas e apesar disso não desistira de encontrar nelas o que podem oferecer de bom. Foi isso o que se esclareceu na cantina, quando paramos para lanchar:

-Cara, você até que está bem pra quem não é acostumado à atividade física, não?

-Eu estou é com fome. Foi bom mesmo ter parado por aqui. Por favor, um sanduíche de atum e um suco de laranja.

-Vê um sanduíche pra mim também e uma vitamina. Ah, e troca o suco do Gabriel pela vitamina, também.

-Não, eu pedi suco.

-Vitamina, tia. É mais saudável, forte. Está aqui, eu pago – Enrico tirou o dinheiro do bolso e colocou em cima do balcão.

-Assim é demais, Enrico. Trocar meu lanche?

-Vai me dizer que você não toma leite?

-Tomo, mas queria suco.

-Cara, minha mãe sempre fala isso: “quer crescer e ficar saudável, toma leite.”

-Só que você não é minha mãe e eu queria suco.

-Está certo. Então troca. Por favor,…

-Não, agora deixa quieto.

-Foi mal. De vez em quando acabo atravessando as coisas, falo demais. – apresentava o semblante carregado, ao terminar.

-O que foi? Não curtiu a história lá com o “trio de ouro?”

– “Trio de ouro?” – questionou-me, estranhando a expressão.

-É, o Deco, o Neto e o Renan.

-Ah, trio de ouro. Saquei. Sabe o que é, eles são companheiros meus, eram, sei lá.

-Companheiros? E por que ficaram te provocando?

-A gente jogava junto, corria aqui no colégio de fim de semana.

-Sei, sei. – disse, pensando que ele realmente me chamara por falta de companhia.

-Mas não que eu tenha te chamado só porque os caras não estão mais meus camaradas.

-Na boa.

-Então. A gente chegou até a fazer acampamento, tal. Acho que você ficou sabendo do acampamento do grêmio nas férias.

-É, fiquei. – soube, mas não fui convidado.

-Você devia ter ido. Foi bem legal, apesar de…

-Apesar de?

-Está aí o ponto. Quando chegamos de viagem lá em casa, antes de eles irem embora, fomos até o meu quarto ver uns games e eles viram o tal patinho de plástico que o Neto falou lá na festa.

-Só por isso?

-Só isso? O que você acha de chegarem no seu quarto e verem um patinho de plástico e sua mãe ainda aparecer do nada e dizer que o tal brinquedo é seu mascote desde que era pequeno?

Tentei, mas não consegui conter o riso.

-Pode rir, Gabriel. Sabe que depois de ontem, estou bem melhor. Tudo bem brincar, curtir com a minha cara, mas daí a eles se afastarem nas aulas de natação, no cooper do fim de semana, nada a ver.

-Mas e com o resto do pessoal?

-Tudo bem. Não contaram nada, mas sempre que rola uma oportunidade, eles vêm com essa história.

O assunto acabou, fatos esclarecidos pela rusga dos colegas. Todavia, o meu assunto somente começava, para me deixar meio confuso:

– E a Alice?

-Espera, deixa eu terminar a vitamina – tomei meio copo da vitamina com leite e frutas numa golada só.

-Então? É aquilo que você falou mesmo de estar apaixonado?

-Sei lá. Acho que sim – disse, introvertido.

-Relaxa, Gabriel. Primeiro você tenta ficar com a garota e depois…

-Depois…

-Depois você vê o que acontece. Namorar de cara, rapaz? – e ria-se.

-Não. Sei lá, você disse que ela é popular e…Bem, nem precisava falar nada, é só ver. Nem sei porque ela veio conversar comigo.

-Eu sei.

-Sabe?!

-Não, não sei. Mas se ela veio até você, algum interesse tem. Você é algum gênio da Matemática, ou coisa parecida?

-Sou bom com os números.

-É só brincadeira, Gab.

-Ah, saquei. Mas deve ser isso mesmo, está querendo alguma coisa.

-Sem pessimismo, também. Não tem meio de saber o que os outros pensam. E pensar não é o que eu quero fazer agora. Vamos aí?

-Vamos, estou precisando dormir de novo.

-Dormir? Deixa de ser lerdo, cara.

-Pelo menos ficar no quarto sem fazer nada, eu vou. Ah, depois de um bom banho.

-Com certeza.

-Com certeza?

-Está vendo. Estou aprendendo com você, Pitágoras.

Fui para casa, pensando no que conversáramos e cheguei a conclusão de que deveria deixar as coisas acontecerem, tentar falar de novo com a Alice, ou melhor, falar com ela, já que da primeira vez ela quem viera até mim.

Meus pais estranharam o fato de eu ter saído logo cedo, entretanto gostaram de saber que eu havia saído de casa. Até porque não era difícil eu passar o domingo inteiro no quarto, adiantando os estudos para o colégio – aliás, gostava muito de ler os livros de literatura indicados pelo colégio, encarando-os como prazer e não obrigação – ou passando um bom tempo navegando na internet, saindo do meu refúgio apenas para as refeições. Filho único e sem amigos reais, até então, nada mais natural para mim, passar a maior parte do tempo sozinho, o que por vezes me angustiava. Enrico me fizera rir em pouco tempo e o domingo que tinha tudo para ser mais um naufrágio, manteve-me em alto mar e com novas idéias na cabeça. Eu não chegaria ao status de popularidade do “trio de ouro”, contudo poderia ser mais que o garoto tímido a dificilmente marcar presença nos eventos dos colegas.

O lance para essa guinada não seria causado por uma mudança de visual ou algo parecido, isso porque não acreditava em mudanças externas para o amadurecimento, a partir da visão de um adolescente de quinze anos a respeito do que era maturidade. Decidi ter mais atitude, como estava na moda falar àquela estação, começaria a ser mais presente nas festas do Instituto Santa Marta e tentaria ser mais simpático para ganhar a Marília de meus campos, ainda que eu fosse um iniciante nos estudos da poesia árcade e no compêndio de seus sentimentos.

Aquela tarde, eu já passei menos tempo entretido nos games do computador e acessei a internet para ver as mensagens do meu correio eletrônico: apenas propagandas e umas fotos da festa do hotel, encaminhadas por Edu e Isadora. Como era de se esperar, na maioria das fotos aparecia o “trio de ouro” e alguns outros, tão conhecidos como os atletas ou colegas mais próximos dos anfitriões, assim como Alice. Sem gastar muitos minutos, separei o rosto de Alice dos demais e guardei numa pasta particular do micro, em que juntaria mais tarde, minhas incursões poéticas em sua homenagem, como as linhas que surgiram sobre a mesa logo após desconectar-me da rede virtual:

 

Alice, eu a te tenho apenas como nome

Escrito na areia de meu pensamento,

Pronto a apagar-se engolido pelas ondas do mar de minhas ilusões

Está assim, abandonado aos desvarios da natureza

a impelir seus domínios sobre meus sonhos

Eu, calado, não tenho certeza de nada,

nem desse sentimento que hora sim, hora não

Forço-me a acreditar em sua realidade

Medos, dúvidas, incertezas

Não sou poeta, não escrevo para o amanhã

Escrevo o hoje que me fere sem ser gente

Que me pune, sem que eu nada tenha feito por merecer

E passo a culpar os fatos

Quando ainda nem tenho um começo de história,

Um capítulo fechado entre mim e você.

(…)

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