Clube 15 -Parte I (cont.)

Parte I (cont.)

Alice ria como os outros e se exibia sem saber, com suas jogadas de cabelo e expressões dissimuladas saindo-lhe tão naturalmente:

-E como sabe de tudo isso?

-Biologia, aula de Biologia e testes de Educação Física.

-Certo.

-Certo?!

-E o que quer que eu diga? Olhei, admirei, acabou.

-Assim fácil?

-Fácil? Você mesmo disse, “popular” – e frisava o adjetivo.

-E você liga se te chamam de Gab, Rico…”Aproveita a festa, hein?” O que tem isso de especial?

-…

-Sem resposta, claro. Cara, já ouviu falar de gente como a gente?

-Certo.

-Certo?

-E…

-…O que quer que eu diga? Não é isso?

-Então…

-Você sempre é assim, desiste de tudo? Não presta atenção no que os outros falam? A Alice é de carne e osso, como eu, você, todo mundo.

Olhei para ele com expressão de raiva e descaso, como fazemos às vezes ao ficar sem resposta para dar a quem nos interpela tão diretamente e sem constrangimentos. Sim, porque Enrico não era de fazer rodeios. Embora não fôssemos tão próximos, qualquer um podia notar seu caráter irreverente durante as aulas.

-Não, não sei. E você está exagerando, só achei a garota bonita, o que não me leva necessariamente…

-…A querer alguma coisa? Ficar, dar um beijo, uns beijos – e ria-se – Por que não tentar? Quem sabe ela não tem um gosto exótico?

-Exótico, eu?

-Eu não sou lá de achar homem bonito, mas ainda que você não seja tão “normal” como aos outros, não chega a ser feio.

-Você continua brincando, não é?

-Não, também sei falar sério. Ihhh!

-O que foi agora? – perguntava, estranhando o ar risonho a estampar-se no rosto de Enrico.

-Olá, Alice. Tudo bem? – cumprimentava, simpático.

-Tudo bem. E você, aproveitando a festa?

-É, acabei de chegar. Mas vou lá dançar um pouco, o som está fervendo.

Enrico foi para a pista e deixou-me ali, em pé, sem saber o que dizer:

-Oi – pensei e disse o mais óbvio, para desconhecidos.

-Oi. Eu sou a…

-…Alice – mostrei-me bom de memória.

-Isso. Você é o Gab, não é isso?

-É, Gabriel – lembro-me de ter baixado os olhos e a encarado, novamente, meio encabulado, não gostava muito de apelidos.

-Não estamos na mesma turma no colégio, não é?

-Acho que não, quer dizer, não – odiava quando gaguejava desse jeito.

-É, não mesmo. Sou boa de fisionomia.

-E será que vai guardar um rosto como o meu?

-Por que não? – e sorria, de modo suave.

Havia pensado alto, como se costuma dizer, me exposto. O que fiz foi sorrir de volta e ficar sem mais palavras, até que ela prosseguiu:

-Então a gente se vê.

-É. A gente se vê.

Apenas sentei-me e terminei de tomar a metade do copo de refrigerante pesando sobre minha mão. Olhei as pessoas dançando na pista e notei-me apenas marcando o ritmo com os pés, sem sair do lugar, prostrado naquela mesma cadeira há uns vinte minutos.

-E aí? Ganhou a garota? – Enrico quebrava o meu isolamento.

-Hã?

-A Alice. Vi que conversaram.

-Se chama um “oi” de conversa?

-Já é um começo. Sabe que eu já fui assim isolado, ficava quieto no meu canto. Mas não vale a pena.

E quem era ele para dar-me conselhos? Tínhamos a mesma idade, nada de dar uma de tio para cima de mim ou colocar-se como um sábio milenar.

-Saquei, está achando que eu devia ficar na minha, não falar demais como um velho chato. Eu sei como é, mas ficar aí parado a noite inteira, enchendo a cara de refrigerante…? Não, levanta daí e vamos lá com o pessoal.

Verdade que de início fiz pouco-caso, dando uma negativa com a cabeça, mas fiquei em pé e fui até a pista dançar, ou tentar arriscar alguns gestos ao som da música a qual tocava. Em poucos minutos, fiquei com o rosto molhado de suor e pálido de vergonha, foi esta a figura que vi ao ver-me no espelho ao ir ao banheiro. Lavei o rosto umas três vezes e sequei com as toalhas de papel ao lado da pia.

-Aha! Gostei de ver, Gabriel. Percebeu como é fácil aproveitar um pouco. Mexa o corpo rápido, faça cara de “uau, que som!” e pronto. Está feito!

Enrico era uma daquelas pessoas que ainda encontravam graça diante de situações adversas, ainda que o conceito de adversidade variasse dentre os indivíduos.

No tempo gasto para eu lavar o rosto, recompor-me um pouco do embaraço de dançar diante de todos, adentraram o ambiente o trio de ouro do Instituto Santa Marta, assim como eram conhecidos Deco, Neto e Renan, os atletas de destaque:

-Fala, Rico! Continua com o patinho de mascote? – chegava Neto, em tom provocativo.

-Muito engraçado, Neto. Valeu, hein? A piada da noite.

-Não liga, Neto. O cara está sem senso de humor – continuava Deco, ostentando o aparelho nos dentes diante daquele largo sorriso aberto.

-Aí, Renan, está faltando você para completar o conjunto. Alguma gracinha do tipo? – indagou Enrico, com o cenho carregado.

Renan puxou Enrico pela gola da camisa e encostou-o no granito da pia, ameaçando-o:

-Aí, ainda preciso ser engraçado?

Enrico não titubeou, fitou-o e bateu sua testa firmemente na testa de Renan. Era possível que em situação mais previsível, os dois colegas viessem em auxílio do amigo atingido, mas não foi o que ocorreu. Renan caiu com a pancada e precisou do amparo do restante do trio para recompor-se. Eu mesmo, não tive tempo suficiente para esboçar qualquer tipo de reação, logo Enrico apontou a porta e encaminhamo-nos para voltar ao salão. Edu entrava no banheiro, tranqüilamente, até perceber a testa de Renan arroxeada:

-Algum problema, pessoal?

-Não, foi só o Renan que tropeçou e bateu a cabeça na pia. Só isso – adiantou-se André, o Deco.

Enrico apressou-se em sair de lá e eu, por minha vez, fiz o mesmo. Já havia pessoas demais para dar assistência ao acidentado, até mesmo o dono da festa chegara. Uma coisa, porém, não compreendia, por que tanta zombaria com um cara legal como o Enrico e que há pouco tempo era dos mais chegados a trinca de ouro do Santa Marta:

-Não vai querer saber do que aconteceu lá dentro, não é Gabriel?

-Perguntar por que bateu nele nem precisa. O Renan provocou, deu sopa…

-Na boa, tive sorte dele cair. Eles não iam deixar por isso mesmo. Se bem, que um pouco de gelo resolve o problema.

Os três amigos passaram por nós como se nada tivesse ocorrido e se acomodaram perto à mesa de som, junto à rodinha dos descolados de então. Duas meninas com trajes praticamente iguais pareceram parar o assunto o qual desenvolviam apenas para vê-los passar de um lado a outro do salão com a atenção devida. Talvez montassem um fã-clube se o colégio tivesse recebido patrocínio para os seus esportistas mais exemplares. Flavinha e Marcelle, saberia logo seus nomes, assim ditos como uma dupla, elas sempre apareciam juntas.

-A Marcelle mora perto de casa.

-Marcelle?

-É, a garota de rosa.

-Qual delas? – perguntei, visto que as duas trajavam roupas cor de rosa.

-A do lado direito, de nariz empinado.

-Sim, sei. E vocês já estiveram juntos?

-Como assim?

-Ficar, dar um beijo, uns beijos?

-Você aprende rápido.

-Com certeza.

-Ah, e sobre a Marcelle e eu, outra hora eu falo.

 -Está certo.

A noite continuou como todos esperavam, muitas risadas, as músicas de sucesso da época, algum clima de romance por parte de alguns, outros afastados ou deixados pelos cantos, indo embora no anonimato.

Alice sorriu para mim algumas vezes ao me ver, ao menos foi o que achei quando a vi passando por mim e se juntando ao trio de ouro e à dupla de rosa. Aliás, notava-se como Flavinha e Marcelle tendiam a parecer mais seguras na presença de Alice, como se a garota fosse o principal combustível da locomotiva de suas relações extraclasse. A garota que me fizera ficar de boca seca, sabia como se destacar com simples gestos, talvez pensamentos de um recém-apaixonado, mas acho que era assim vista pelos outros, igualmente. Enrico, tão sabedor de suas qualidades, saberia esclarecer meu equívoco, quando já amigos, conversaríamos sobre o assunto.

Acabei ficando na festa mais tempo do que planejara ao entrar no hotel e dirigir-me ao salão da cobertura, de segundos passei para três horas pelo menos. O evento começara às oito:

-E você tem carona, Gabriel?

-Fiquei de ligar pra casa, quando quisesse ir.

-Já ligou?

-Não, mas estou querendo ir embora.

-Então, não precisa ligar. Minha mãe te dá uma carona.

-É caminho?

-Você mora a umas duas quadras do colégio, não é?

-Isso.

-Então, fica perto. A gente te deixa lá. Onze horas – conferia no relógio de pulso – ela deve estar lá embaixo esperando na porta. Vamos, ou vai aproveitar e ficar mais pra apreciar a líder da torcida?

-Muito engraçado, hein? Vamos. E obrigado pela carona.

Isadora e Edu já estavam à porta do salão, despedindo-se dos primeiros a partir e não éramos eu e Enrico. O mal-entendido ocorrido no banheiro masculino havia desanimado um dos atletas, Renan deixava o local com a testa ainda marcada pelo choque, seguido por seus companheiros, os quais não poderiam figurar como uma banda incompleta pelo salão.

Como pensava Enrico, sua mãe já estava à porta esperando. Subimos no carro e partimos.

Pouco antes de dormir naquela mesma noite, refleti um pouco sobre os dados da reportagem do telejornal que fora ao ar no início da tarde. Isso porque, ainda que sem muito entender, sentia já algum efeito daquela patologia. A paixão, enfim, chegara até mim. E era estranho pensar assim, mas não podia controlar as idas e vindas da imagem do rosto de Alice em meus pensamentos, até que acabei levantando da cama e busquei um caderno de rascunhos para rabiscar algumas palavras, que mais tarde atrevi-me a chamar poesia:

 

Adentro o castelo em meio a trevas

E apeio ainda são de meu cavalo

A luz da lua não é suficiente para diminuir seus tons

A senhora não se esconde atrás de seus olhos

Não há mais nexo perfeito em minhas palavras

E não posso mais dividir a fantasia do real

Subo só em minha montaria

Insano, parto de meus devaneios

E então, a senhora é parte de meu mundo

E eu, apenas cavaleiro de passagem por seus domínios.

 

Águas de março fechando meu verão e molhando o vidro das janelas de meu quarto. Começava a descobrir sentimentos e habilidades minhas, os quais pensava não possuir.

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Um pensamento sobre “Clube 15 -Parte I (cont.)

  1. Carolzinha disse:

    Caro personagem ficticio todos nós possuímos o amor e as habilidades parte do pressuposto que somos seres humanos que ama e odeia e claro se apaixona..Desejo a você sorte com sua paixão que ela deixe de ser patológica para se tornar humanamente surreal..

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