Clube 15 – Parte II (cont.)

Parte II (cont.)

Terminei estas palavras no verso das outras linhas escritas no dia em que me atentei aos atos dissimulados daquela que se tornou figura constante de meus pensamentos e guardei logo o caderno na gaveta do criado-mudo quando de súbito alguém bateu à porta do quarto.

-Gabriel?

-Oi, mãe. Fala.

-Tem uma colega sua aqui, posso mandar entrar?

Lembro de ter feito com a cabeça que não, não estava para receber ninguém, além de ninguém do colégio costumar aparecer sem aviso, ainda mais num domingo. Não houve tempo para dispensar quem fosse:

-Oi, Gab, é…Gabriel.

Aquelas palavras saíram tão levemente sonoras, quase como um sussurro das fadas dos grandes clássicos da literatura infantil. Vesti a camiseta jogada na cama, rapidamente, e levantei-me para cumprimentá-la:

-Oi, Alice – não gaguejei, por ter falado num só fôlego – Desculpa o jeito, é que eu não…

Alice balançou a cabeça, como quem dissesse que não havia problema em eu estar de bermuda, descalço e sem camisa. Preferi continuar como estava, afinal não era nenhum atleta para expor músculos. O fato é que eu era magro, de estatura mediana, sem traços de uma escultura grega.

-Bem, fique à vontade… – disse minha mãe, numa atitude polida.

-…Alice.

-Isso. Fique à vontade, Alice.

Alice agradeceu à minha mãe com um leve sorriso e virou-se para mim, jogando os cabelos num jeito dissimulado:

-Então, Gabriel. Eu vim porque encontrei isso – ela abriu a mão direita e estendeu uma pulseira de prata.

-Minha pulseira. Acho que perdi quando… – até então, não me dera conta de ter perdido a tal pulseira.

-…Quando estava dançando com o Rico no meio do salão. Estava bem animado.

-É, foi isso…Eu, eu…Eu devo ter me distraído e não vi a pulseira cair.

-Acho que sim. Bem, é isso. Está entregue.

Alice ergueu o braço até mim e eu estendi a mão para que me entregasse a pulseira. Aquele gesto de segundos pareceu-me durar uma eternidade, quando senti o calor de sua mão na minha, mesmo que por um breve instante.

-Obrigado.

-Vou indo, então.

-Eu te levo lá embaixo.

-Não, não precisa. Eu sei o caminho. É só descer a escada e sair à direita, certo?

-Certo. Mas não tem problema, eu te levo.

A fada derramou um pouco de sua magia, inclinando de leve a cabeça e esperou que eu calçasse os chinelos postos ao lado da cama, para acompanhar-lhe. Um coadjuvante deveria ser ao menos cortês. Foi o que fiz, fui cortês levando-a até a porta e agradecendo mais uma vez pela gentileza. Fechei a porta e dei de cara com meus pais, me olhando sem dizer nada e com ar dúvida, até que eu disse:

-Ah, a Alice? Uma colega do Santa Marta.

-Sim, tudo bem filho. Muito educado da parte dela vir lhe trazer a pulseira, não achou? – veio minha mãe a dizer, tentando ser natural comigo.

-Ah, claro. Claro.

-Vai, Gabriel. Pode voltar para o computador – disse meu pai, enquanto continuava a ler seu jornal.

-Estou subindo – baixei a cabeça e subi, sem mais palavras.

Minhas palavras se concentraram novamente naquele caderno de rascunhos. Resolvi continuar meu poema:

 

Passam a surgir páginas novas

Talvez um dia me ajude a escrever essas palavras,

e elas passem a ser mais bonitas, por si mesmas

Por representarem uma sensação boa,

de alguém que tem por o que sonhar

Por um toque superficial de mãos

A aproximar-me mais de sua essência.

 

E usei a palavra “essência” para não ser tão piegas ou querer não acreditar na profundidade daquilo que não queria estar certo de estar sentindo, embora meu primeiro impulso tenha sido finalizar aquele verso com “coração”.

Dizer que estava apaixonado por Alice para Enrico fora um risco de virar o assunto do colégio, mas sentia poder confiar nele como um bom amigo, do modo que geralmente as pessoas sentem quando olham alguém nos olhos e percebem a veracidade de suas palavras. A questão é que eu parecia ter ganhado um novo e bom amigo, ao mesmo tempo em que uma das fadas dos contos saía dos livros para entrar em minha vida. Era desse modo que pensava minha mente adolescente, parecendo-me um tanto pueril, agora que puxo tais ocasiões guardadas na memória.

Não é preciso dizer que aquele garoto que eu era encheu-se de expectativas perante a visita de Alice e pensou a noite toda nas cenas passadas, desde os seus furtivos olhares à maneira como falava com suavidade. Virei-me algumas vezes na cama até conseguir adormecer e não pensar mais ou sonhar com aquilo, considerando que não me recordava de meus sonhos.

Ressurgir das cinzas como a fênix, embora não tivesse ficado em evidência por mais do que trinta segundos ao receber algum elogio dos professores por causa das boas notas ou trabalhos de pesquisa realizados.

Atitude – reação ou maneira de ser, em relação às pessoas, um dos significados encontrados para a palavra a guiar-me na semana de aula a se iniciar. Minha atitude mudaria e ganharia novos contornos minha personalidade se eu ainda quisesse ter a esperança de um dia ser colocado ao lado de Alice, como um igual.

Magia e realidade lado a lado, fazendo-me enxergar com clareza o que sentia ou começava a sentir por uma criação minha ou uma bela garota tão somente.

Clube 15 – Parte II

Parte II

 

Há momentos na vida em que é difícil segurar algumas coisas que nos incomodam, seja um milho de pipoca preso no dente do fundo bem no meio da sessão do cinema ou aquela mistura de palavras, sentimentos, impossíveis de serem guardados na nossa mente. Sim, porque costumava pensar assim e ainda penso, tudo nasce dentro de nossas cabeças e por isso se arrastam pelo tempo, ao que damos o nome de memória. Lembro de ter me sentido assim, no dia seguinte após a festa no hotel, mas não tinha exemplos para fazer comparações e tirar minhas próprias conclusões a respeito do que se passara entre minha boca ficar seca e eu ficar sem palavras perante Alice. Aliás, palavras não faltavam para Enrico e foi ele a tirar-me do refúgio de meu quarto naquele domingo de manhã:

-Gabriel! Ô, Gabriel! – era a voz que eu ouvia, ao longe, quase sumida.

Infelizmente, meu quarto tinha uma janela a qual dava para a rua e era difícil continuar na cama, se alguém decidisse fazer barulho bem em frente de casa. De segunda à sexta não era incômodo algum, afinal eu ia para o colégio às sete horas, mas despertar com uma orquestra desafinada num domingo, não era coisa que me deixasse contente:

-Droga! Quem é o imbecil que… – abri a janela -…Enrico…

-Hei, desce aí! Nada como uma boa corrida para começar o dia bem, certo?

-Errado. Oh, se quiser alguma coisa, passa à tarde, está bem? – e fechava a janela.

-Ô, Gabriel!

Por fim, esfreguei os olhos para enxergar melhor e o relógio marcava apenas oito da manhã, mas acabei descendo. Quem sabe uma corrida me faria oxigenar melhor o cérebro e tentar ver as coisas de maneira racional, porque escrever algo como um poema não me parecia nada próximo à razão:

-Estou indo. Vou trocar de roupa, falou?!

-Não, desce de pijama! – e ria, bem-disposto – Falou!

Coloquei a primeira camiseta que vi pela frente, uma bermuda, calcei o tênis deixado no canto do armário e desci, ainda com os olhos cansados e sem nem ter tomado um copo de leite ou um prato de cereais:

-Oi, qual a boa pra essa hora da manhã, num domingo?

-Correr, Gabriel! Eu costumo correr todas as manhãs.

-Eu não.

-Então está na hora de começar. E domingo é bom correr por aqui, ainda mais com o colégio a poucas quadras, a pista lá fica liberada.

-Eu sei, a piscina, a quadra…

-E não se anima?!

-Está bem, hoje pode ser. Afinal, eu me despenquei da cama pra que? Não vou ficar sem fazer nada.

-Assim é que se fala.

Na verdade, correr a princípio eu não iria conseguir, estando um tanto “sonado” ainda e sem nada no estômago. Combinamos de caminhar até o colégio e então, começar a correr. Não fazia nem vinte e quatro horas em que estávamos mais próximos, pelas circunstâncias, e conversávamos como velhos amigos. A vida tem dessas, só basta aproveitar o momento para realizar um grande feito ou descobrir ter encontrado um amigo em alguém. Embora não tivesse eu uma admirável habilidade para isso, tentava descobrir a possibilidade de mundos diferentes e pessoais conviverem e, de fato, ganharem com a troca de idéias a se complementarem.

No caminho, conversamos sobre a festa, o incidente no banheiro que acabou sem uma explicação concreta naqueles poucos minutos de bate-papo. Tentei começar a questionar sobre a Alice, como ela agia com os outros, mas nada que eu não soubesse foi dito. Enrico me disse para encarar a garota como as outras, sem exageros e sem julgamentos preconcebidos, o que era difícil para eu abstrair sem muito saber dela e me achar propenso ao que os apresentadores do telejornal haviam dito ter sido considerado, em alguns casos, uma patologia:

-Apaixonado? – disse assim, sem cerimônia e em tom de dúvida.

-O que? Você acha que está apaixonado pela Alice?

Meu rosto deve ter ficado vermelho, na hora, até porque senti as maçãs da face quentes. Olhei timidamente para baixo e disse com falsa naturalidade:

-Quer saber, acho que estou com sono ainda. É, é isso, estou com sono. Vai correndo aí que eu te alcanço.

-Não, espera. Você disse apaixonado, não foi? Acho que escutei bem.

-Falou, Enrico!

-Calma, Gab.

-Gabriel.

-Então, Ga-bri-el, está na boa. Quer saber, normal isso. Eu também já me apaixonei, mas não rolou, sabe, não deu certo.

-Isso é um incentivo?

-Não, pode ser que você conquiste a garota. A Alice até conversou com você na festa. E isso que você nem vai muito às festas do colégio.

-Esquece, isso. Vamos correr.

-Vamos correr, sim. Mas, a gente ainda ajeita esta história.

Corremos, por fim. Era curioso o modo como havíamos nos dado bem, assim do nada. O fato é que ambos precisavam de apoio para seguir: eu, por minha vez aprendia a dar valor a uma amizade e Enrico, passava pela fase em que nos decepcionamos com as pessoas e apesar disso não desistira de encontrar nelas o que podem oferecer de bom. Foi isso o que se esclareceu na cantina, quando paramos para lanchar:

-Cara, você até que está bem pra quem não é acostumado à atividade física, não?

-Eu estou é com fome. Foi bom mesmo ter parado por aqui. Por favor, um sanduíche de atum e um suco de laranja.

-Vê um sanduíche pra mim também e uma vitamina. Ah, e troca o suco do Gabriel pela vitamina, também.

-Não, eu pedi suco.

-Vitamina, tia. É mais saudável, forte. Está aqui, eu pago – Enrico tirou o dinheiro do bolso e colocou em cima do balcão.

-Assim é demais, Enrico. Trocar meu lanche?

-Vai me dizer que você não toma leite?

-Tomo, mas queria suco.

-Cara, minha mãe sempre fala isso: “quer crescer e ficar saudável, toma leite.”

-Só que você não é minha mãe e eu queria suco.

-Está certo. Então troca. Por favor,…

-Não, agora deixa quieto.

-Foi mal. De vez em quando acabo atravessando as coisas, falo demais. – apresentava o semblante carregado, ao terminar.

-O que foi? Não curtiu a história lá com o “trio de ouro?”

– “Trio de ouro?” – questionou-me, estranhando a expressão.

-É, o Deco, o Neto e o Renan.

-Ah, trio de ouro. Saquei. Sabe o que é, eles são companheiros meus, eram, sei lá.

-Companheiros? E por que ficaram te provocando?

-A gente jogava junto, corria aqui no colégio de fim de semana.

-Sei, sei. – disse, pensando que ele realmente me chamara por falta de companhia.

-Mas não que eu tenha te chamado só porque os caras não estão mais meus camaradas.

-Na boa.

-Então. A gente chegou até a fazer acampamento, tal. Acho que você ficou sabendo do acampamento do grêmio nas férias.

-É, fiquei. – soube, mas não fui convidado.

-Você devia ter ido. Foi bem legal, apesar de…

-Apesar de?

-Está aí o ponto. Quando chegamos de viagem lá em casa, antes de eles irem embora, fomos até o meu quarto ver uns games e eles viram o tal patinho de plástico que o Neto falou lá na festa.

-Só por isso?

-Só isso? O que você acha de chegarem no seu quarto e verem um patinho de plástico e sua mãe ainda aparecer do nada e dizer que o tal brinquedo é seu mascote desde que era pequeno?

Tentei, mas não consegui conter o riso.

-Pode rir, Gabriel. Sabe que depois de ontem, estou bem melhor. Tudo bem brincar, curtir com a minha cara, mas daí a eles se afastarem nas aulas de natação, no cooper do fim de semana, nada a ver.

-Mas e com o resto do pessoal?

-Tudo bem. Não contaram nada, mas sempre que rola uma oportunidade, eles vêm com essa história.

O assunto acabou, fatos esclarecidos pela rusga dos colegas. Todavia, o meu assunto somente começava, para me deixar meio confuso:

– E a Alice?

-Espera, deixa eu terminar a vitamina – tomei meio copo da vitamina com leite e frutas numa golada só.

-Então? É aquilo que você falou mesmo de estar apaixonado?

-Sei lá. Acho que sim – disse, introvertido.

-Relaxa, Gabriel. Primeiro você tenta ficar com a garota e depois…

-Depois…

-Depois você vê o que acontece. Namorar de cara, rapaz? – e ria-se.

-Não. Sei lá, você disse que ela é popular e…Bem, nem precisava falar nada, é só ver. Nem sei porque ela veio conversar comigo.

-Eu sei.

-Sabe?!

-Não, não sei. Mas se ela veio até você, algum interesse tem. Você é algum gênio da Matemática, ou coisa parecida?

-Sou bom com os números.

-É só brincadeira, Gab.

-Ah, saquei. Mas deve ser isso mesmo, está querendo alguma coisa.

-Sem pessimismo, também. Não tem meio de saber o que os outros pensam. E pensar não é o que eu quero fazer agora. Vamos aí?

-Vamos, estou precisando dormir de novo.

-Dormir? Deixa de ser lerdo, cara.

-Pelo menos ficar no quarto sem fazer nada, eu vou. Ah, depois de um bom banho.

-Com certeza.

-Com certeza?

-Está vendo. Estou aprendendo com você, Pitágoras.

Fui para casa, pensando no que conversáramos e cheguei a conclusão de que deveria deixar as coisas acontecerem, tentar falar de novo com a Alice, ou melhor, falar com ela, já que da primeira vez ela quem viera até mim.

Meus pais estranharam o fato de eu ter saído logo cedo, entretanto gostaram de saber que eu havia saído de casa. Até porque não era difícil eu passar o domingo inteiro no quarto, adiantando os estudos para o colégio – aliás, gostava muito de ler os livros de literatura indicados pelo colégio, encarando-os como prazer e não obrigação – ou passando um bom tempo navegando na internet, saindo do meu refúgio apenas para as refeições. Filho único e sem amigos reais, até então, nada mais natural para mim, passar a maior parte do tempo sozinho, o que por vezes me angustiava. Enrico me fizera rir em pouco tempo e o domingo que tinha tudo para ser mais um naufrágio, manteve-me em alto mar e com novas idéias na cabeça. Eu não chegaria ao status de popularidade do “trio de ouro”, contudo poderia ser mais que o garoto tímido a dificilmente marcar presença nos eventos dos colegas.

O lance para essa guinada não seria causado por uma mudança de visual ou algo parecido, isso porque não acreditava em mudanças externas para o amadurecimento, a partir da visão de um adolescente de quinze anos a respeito do que era maturidade. Decidi ter mais atitude, como estava na moda falar àquela estação, começaria a ser mais presente nas festas do Instituto Santa Marta e tentaria ser mais simpático para ganhar a Marília de meus campos, ainda que eu fosse um iniciante nos estudos da poesia árcade e no compêndio de seus sentimentos.

Aquela tarde, eu já passei menos tempo entretido nos games do computador e acessei a internet para ver as mensagens do meu correio eletrônico: apenas propagandas e umas fotos da festa do hotel, encaminhadas por Edu e Isadora. Como era de se esperar, na maioria das fotos aparecia o “trio de ouro” e alguns outros, tão conhecidos como os atletas ou colegas mais próximos dos anfitriões, assim como Alice. Sem gastar muitos minutos, separei o rosto de Alice dos demais e guardei numa pasta particular do micro, em que juntaria mais tarde, minhas incursões poéticas em sua homenagem, como as linhas que surgiram sobre a mesa logo após desconectar-me da rede virtual:

 

Alice, eu a te tenho apenas como nome

Escrito na areia de meu pensamento,

Pronto a apagar-se engolido pelas ondas do mar de minhas ilusões

Está assim, abandonado aos desvarios da natureza

a impelir seus domínios sobre meus sonhos

Eu, calado, não tenho certeza de nada,

nem desse sentimento que hora sim, hora não

Forço-me a acreditar em sua realidade

Medos, dúvidas, incertezas

Não sou poeta, não escrevo para o amanhã

Escrevo o hoje que me fere sem ser gente

Que me pune, sem que eu nada tenha feito por merecer

E passo a culpar os fatos

Quando ainda nem tenho um começo de história,

Um capítulo fechado entre mim e você.

(…)

Clube 15 -Parte I (cont.)

Parte I (cont.)

Alice ria como os outros e se exibia sem saber, com suas jogadas de cabelo e expressões dissimuladas saindo-lhe tão naturalmente:

-E como sabe de tudo isso?

-Biologia, aula de Biologia e testes de Educação Física.

-Certo.

-Certo?!

-E o que quer que eu diga? Olhei, admirei, acabou.

-Assim fácil?

-Fácil? Você mesmo disse, “popular” – e frisava o adjetivo.

-E você liga se te chamam de Gab, Rico…”Aproveita a festa, hein?” O que tem isso de especial?

-…

-Sem resposta, claro. Cara, já ouviu falar de gente como a gente?

-Certo.

-Certo?

-E…

-…O que quer que eu diga? Não é isso?

-Então…

-Você sempre é assim, desiste de tudo? Não presta atenção no que os outros falam? A Alice é de carne e osso, como eu, você, todo mundo.

Olhei para ele com expressão de raiva e descaso, como fazemos às vezes ao ficar sem resposta para dar a quem nos interpela tão diretamente e sem constrangimentos. Sim, porque Enrico não era de fazer rodeios. Embora não fôssemos tão próximos, qualquer um podia notar seu caráter irreverente durante as aulas.

-Não, não sei. E você está exagerando, só achei a garota bonita, o que não me leva necessariamente…

-…A querer alguma coisa? Ficar, dar um beijo, uns beijos – e ria-se – Por que não tentar? Quem sabe ela não tem um gosto exótico?

-Exótico, eu?

-Eu não sou lá de achar homem bonito, mas ainda que você não seja tão “normal” como aos outros, não chega a ser feio.

-Você continua brincando, não é?

-Não, também sei falar sério. Ihhh!

-O que foi agora? – perguntava, estranhando o ar risonho a estampar-se no rosto de Enrico.

-Olá, Alice. Tudo bem? – cumprimentava, simpático.

-Tudo bem. E você, aproveitando a festa?

-É, acabei de chegar. Mas vou lá dançar um pouco, o som está fervendo.

Enrico foi para a pista e deixou-me ali, em pé, sem saber o que dizer:

-Oi – pensei e disse o mais óbvio, para desconhecidos.

-Oi. Eu sou a…

-…Alice – mostrei-me bom de memória.

-Isso. Você é o Gab, não é isso?

-É, Gabriel – lembro-me de ter baixado os olhos e a encarado, novamente, meio encabulado, não gostava muito de apelidos.

-Não estamos na mesma turma no colégio, não é?

-Acho que não, quer dizer, não – odiava quando gaguejava desse jeito.

-É, não mesmo. Sou boa de fisionomia.

-E será que vai guardar um rosto como o meu?

-Por que não? – e sorria, de modo suave.

Havia pensado alto, como se costuma dizer, me exposto. O que fiz foi sorrir de volta e ficar sem mais palavras, até que ela prosseguiu:

-Então a gente se vê.

-É. A gente se vê.

Apenas sentei-me e terminei de tomar a metade do copo de refrigerante pesando sobre minha mão. Olhei as pessoas dançando na pista e notei-me apenas marcando o ritmo com os pés, sem sair do lugar, prostrado naquela mesma cadeira há uns vinte minutos.

-E aí? Ganhou a garota? – Enrico quebrava o meu isolamento.

-Hã?

-A Alice. Vi que conversaram.

-Se chama um “oi” de conversa?

-Já é um começo. Sabe que eu já fui assim isolado, ficava quieto no meu canto. Mas não vale a pena.

E quem era ele para dar-me conselhos? Tínhamos a mesma idade, nada de dar uma de tio para cima de mim ou colocar-se como um sábio milenar.

-Saquei, está achando que eu devia ficar na minha, não falar demais como um velho chato. Eu sei como é, mas ficar aí parado a noite inteira, enchendo a cara de refrigerante…? Não, levanta daí e vamos lá com o pessoal.

Verdade que de início fiz pouco-caso, dando uma negativa com a cabeça, mas fiquei em pé e fui até a pista dançar, ou tentar arriscar alguns gestos ao som da música a qual tocava. Em poucos minutos, fiquei com o rosto molhado de suor e pálido de vergonha, foi esta a figura que vi ao ver-me no espelho ao ir ao banheiro. Lavei o rosto umas três vezes e sequei com as toalhas de papel ao lado da pia.

-Aha! Gostei de ver, Gabriel. Percebeu como é fácil aproveitar um pouco. Mexa o corpo rápido, faça cara de “uau, que som!” e pronto. Está feito!

Enrico era uma daquelas pessoas que ainda encontravam graça diante de situações adversas, ainda que o conceito de adversidade variasse dentre os indivíduos.

No tempo gasto para eu lavar o rosto, recompor-me um pouco do embaraço de dançar diante de todos, adentraram o ambiente o trio de ouro do Instituto Santa Marta, assim como eram conhecidos Deco, Neto e Renan, os atletas de destaque:

-Fala, Rico! Continua com o patinho de mascote? – chegava Neto, em tom provocativo.

-Muito engraçado, Neto. Valeu, hein? A piada da noite.

-Não liga, Neto. O cara está sem senso de humor – continuava Deco, ostentando o aparelho nos dentes diante daquele largo sorriso aberto.

-Aí, Renan, está faltando você para completar o conjunto. Alguma gracinha do tipo? – indagou Enrico, com o cenho carregado.

Renan puxou Enrico pela gola da camisa e encostou-o no granito da pia, ameaçando-o:

-Aí, ainda preciso ser engraçado?

Enrico não titubeou, fitou-o e bateu sua testa firmemente na testa de Renan. Era possível que em situação mais previsível, os dois colegas viessem em auxílio do amigo atingido, mas não foi o que ocorreu. Renan caiu com a pancada e precisou do amparo do restante do trio para recompor-se. Eu mesmo, não tive tempo suficiente para esboçar qualquer tipo de reação, logo Enrico apontou a porta e encaminhamo-nos para voltar ao salão. Edu entrava no banheiro, tranqüilamente, até perceber a testa de Renan arroxeada:

-Algum problema, pessoal?

-Não, foi só o Renan que tropeçou e bateu a cabeça na pia. Só isso – adiantou-se André, o Deco.

Enrico apressou-se em sair de lá e eu, por minha vez, fiz o mesmo. Já havia pessoas demais para dar assistência ao acidentado, até mesmo o dono da festa chegara. Uma coisa, porém, não compreendia, por que tanta zombaria com um cara legal como o Enrico e que há pouco tempo era dos mais chegados a trinca de ouro do Santa Marta:

-Não vai querer saber do que aconteceu lá dentro, não é Gabriel?

-Perguntar por que bateu nele nem precisa. O Renan provocou, deu sopa…

-Na boa, tive sorte dele cair. Eles não iam deixar por isso mesmo. Se bem, que um pouco de gelo resolve o problema.

Os três amigos passaram por nós como se nada tivesse ocorrido e se acomodaram perto à mesa de som, junto à rodinha dos descolados de então. Duas meninas com trajes praticamente iguais pareceram parar o assunto o qual desenvolviam apenas para vê-los passar de um lado a outro do salão com a atenção devida. Talvez montassem um fã-clube se o colégio tivesse recebido patrocínio para os seus esportistas mais exemplares. Flavinha e Marcelle, saberia logo seus nomes, assim ditos como uma dupla, elas sempre apareciam juntas.

-A Marcelle mora perto de casa.

-Marcelle?

-É, a garota de rosa.

-Qual delas? – perguntei, visto que as duas trajavam roupas cor de rosa.

-A do lado direito, de nariz empinado.

-Sim, sei. E vocês já estiveram juntos?

-Como assim?

-Ficar, dar um beijo, uns beijos?

-Você aprende rápido.

-Com certeza.

-Ah, e sobre a Marcelle e eu, outra hora eu falo.

 -Está certo.

A noite continuou como todos esperavam, muitas risadas, as músicas de sucesso da época, algum clima de romance por parte de alguns, outros afastados ou deixados pelos cantos, indo embora no anonimato.

Alice sorriu para mim algumas vezes ao me ver, ao menos foi o que achei quando a vi passando por mim e se juntando ao trio de ouro e à dupla de rosa. Aliás, notava-se como Flavinha e Marcelle tendiam a parecer mais seguras na presença de Alice, como se a garota fosse o principal combustível da locomotiva de suas relações extraclasse. A garota que me fizera ficar de boca seca, sabia como se destacar com simples gestos, talvez pensamentos de um recém-apaixonado, mas acho que era assim vista pelos outros, igualmente. Enrico, tão sabedor de suas qualidades, saberia esclarecer meu equívoco, quando já amigos, conversaríamos sobre o assunto.

Acabei ficando na festa mais tempo do que planejara ao entrar no hotel e dirigir-me ao salão da cobertura, de segundos passei para três horas pelo menos. O evento começara às oito:

-E você tem carona, Gabriel?

-Fiquei de ligar pra casa, quando quisesse ir.

-Já ligou?

-Não, mas estou querendo ir embora.

-Então, não precisa ligar. Minha mãe te dá uma carona.

-É caminho?

-Você mora a umas duas quadras do colégio, não é?

-Isso.

-Então, fica perto. A gente te deixa lá. Onze horas – conferia no relógio de pulso – ela deve estar lá embaixo esperando na porta. Vamos, ou vai aproveitar e ficar mais pra apreciar a líder da torcida?

-Muito engraçado, hein? Vamos. E obrigado pela carona.

Isadora e Edu já estavam à porta do salão, despedindo-se dos primeiros a partir e não éramos eu e Enrico. O mal-entendido ocorrido no banheiro masculino havia desanimado um dos atletas, Renan deixava o local com a testa ainda marcada pelo choque, seguido por seus companheiros, os quais não poderiam figurar como uma banda incompleta pelo salão.

Como pensava Enrico, sua mãe já estava à porta esperando. Subimos no carro e partimos.

Pouco antes de dormir naquela mesma noite, refleti um pouco sobre os dados da reportagem do telejornal que fora ao ar no início da tarde. Isso porque, ainda que sem muito entender, sentia já algum efeito daquela patologia. A paixão, enfim, chegara até mim. E era estranho pensar assim, mas não podia controlar as idas e vindas da imagem do rosto de Alice em meus pensamentos, até que acabei levantando da cama e busquei um caderno de rascunhos para rabiscar algumas palavras, que mais tarde atrevi-me a chamar poesia:

 

Adentro o castelo em meio a trevas

E apeio ainda são de meu cavalo

A luz da lua não é suficiente para diminuir seus tons

A senhora não se esconde atrás de seus olhos

Não há mais nexo perfeito em minhas palavras

E não posso mais dividir a fantasia do real

Subo só em minha montaria

Insano, parto de meus devaneios

E então, a senhora é parte de meu mundo

E eu, apenas cavaleiro de passagem por seus domínios.

 

Águas de março fechando meu verão e molhando o vidro das janelas de meu quarto. Começava a descobrir sentimentos e habilidades minhas, os quais pensava não possuir.

Clube 15 – Parte I

 Parte I

 

Definitivamente, não há explicação óbvia ou precisa que possa satisfazer a dúvida de saber o que, realmente, nos atrai nas pessoas. Alguns virão a dizer das semelhanças de preferência, englobando música, cores, lugares e até aromas capazes de nos contentar por um instante e outros dirão algo como a razão da química marcante dos animais, o que viria a classificar-se em um envolvimento desencadeado por feromônios, em termos biológicos. O problema, porém, é que no início da juventude, dificilmente se pára a pensar em conceitos quando depois de um dia todo de estudos, ainda tem tempo para discutir o falso brilho da lua ou manter-se atento ao novo hit musical dos românticos. Pior que isso, gastar folhas inteiras com palavras desconexas, a princípio, posteriormente transformadas em ingênuas declarações de um sentimento que ainda não se sabe definir e ao mesmo tempo, recebe classificações variadas dadas por especialistas no assunto a vender revistas nas bancas ou a discutir sua conseqüência na vida do adolescente:

      -E assim, baseado nos últimos estudos desenvolvidos, chega-se à conclusão de que este sentimento que aflige, principalmente, os jovens, dentre suas inúmeras descobertas, dura três anos na maioria dos casos e pode ser considerado uma patologia. Falamos do que realmente o telespectador está pensando, a paixão.

Era esta a fala inicial da repórter no telejornal que ia ao ar no início da tarde. E era simples para um adolescente comum, ouvir aquilo e esquecer-se do mesmo em alguns minutos, mas não foi isso o que aconteceu comigo e entre um dever e outro me pegava a pensar sobre o assunto, tão singelo teoricamente e cheio de minúcias em questões práticas. Não que não me tratasse de um adolescente comum como disse no início do parágrafo, mas talvez perdesse tempo em algumas divagações. Não me lembro do restante do conteúdo da reportagem, até porque se passaram alguns anos e o que posso recobrar na memória é o fato de eu ter me apegado àquelas primeiras palavras e tentar me encontrar diante daquela teoria apresentada entre sorrisos pelos “âncoras” do programa televisivo. Mais tarde comportei-me como os tais âncoras, entre sorrisos, numa reunião planejada pelos líderes da turma, os representantes de classe acostumados a organizar essas festividades para reunir os colegas desde o ginásio. A festa da noite era na casa de um deles, Isadora organizara o salão de festas na cobertura do hotel de seu avô, para juntamente a Edu, seu namorado e companheiro de cargo, receber os calouros do Ensino Médio para o encerramento do bimestre. Sendo eles estudantes do segundo ano, justificava-se a posição de destaque perante os mais novos:

-Olá.

-Oi, Gab, tudo bem? – vinha Isadora, cumprimentando-me com um sorriso largo, a simpatia dos anfitriões.

-Tudo bem. Fala Edu, beleza?

-Tudo bom. Vê se aproveita a festa.

Como eu me comportasse tal um carneiro perdido do rebanho, trataram de me servir logo um copo de refrigerante e levarem-me à mesa dos lanches para ao menos eu manter-me mastigando.

Fazia pouco tempo em que começara a freqüentar essas festas de colégio. E pouco me habituara a animação dos convivas, dançando os sucessos da moda e gargalhando pelas piadas dos populares. Sentia falta de pertencer a um grupo como aquele, mas não me enquadrava de pronto àqueles padrões. Sentei-me numa cadeira próxima a saída do salão, sim, pois era este o meu destino, em poucos segundos, ao menos que meus olhos parassem, minha boca ficasse seca, meu ritmo cardíaco aumentasse e eu entreabrisse meus lábios, paralisado:

-Olá…Alguém aí? – vinha Enrico interromper o meu torpor.

-Oi, Enrico. Tudo bem?

-Na boa. E você, está aí “paradão” olhando para o nada?

Enrico buscou a direção do meu olhar e concluiu, passando a ficha completa:

-Alice, 15 anos recém completos, cabelos castanhos médios, aproximadamente um e sessenta e cinco de altura, bonita e popular, como deu para notar.

Clube 15

Olá!

Eu sou o David Felipe e começa hoje “Minhas histórias”, um meio para partilhar o escritor que tenho a pretensão de intitular-me. Será muito gratificante ter os amigos compartilhando de minhas ficções e compartilhando suas impressões. 

Hora para uma breve orientação para “Clube 15” – minha primeira história:

Não se impressione com os clichês, nem desista dessa que pode parecer “mais uma história de adolescentes”. Afinal, os elementos de adolescer são bem parecidos, mas também bem particulares. Gabriel, este o nome do personagem, estabelece uma narrativa em primeira pessoa e aos poucos apresenta seus passamentos e alegrias dos 15.

Bem vindo a  “Minhas histórias” e boa viagem!

David Felipe